Os minutos corriam lentamente, pela janela do quarto conseguia ver o mundo a transformar-se a uma velocidade que nem o maior físico da História consegue arranjar explicação, muito menos consegue diminui-la. Os segundos que me separam de um outro, se calhar, melhor mundo, fazem com que os meus batimentos estejam bem mais lentos do que é normal. Será esta sensação, de um tal de medo que nos faz querer voltar atrás e tentar agarrar o que alguém nos tirou? Sinto tantas emoções mas estou certo que este não é o momento para dissertar sobre elas, tenho a alma de um velho no corpo de uma criança, quem sabe, um anjo transformado daqui a umas horas, ou dias. O tempo vai passando e o meu corpo ficando cada vez mais pesado. As visitas são agora feitas através do vidro e já nem me consigo levantar para fazer as minhas necessidades ditas fisiológicas nem para caminhar. O próprio peso da minha cabeça faz-me recuar quando me tento erguer para ver o mundo, lá fora, a andar.
Da janela do quarto posso ver a janela do quarto de alguém que me quer bem, e que tudo tentou para que eu pudesse estar cá mais uns anos, mas a troco de quê? Não sei bem se quero ver o outro mundo já, daqui a pouco, mas não quero penar por mais do que umas horas, dias para mim duram meses, e meses vários, vários anos. Todos os minutos em que o meu corpo se sente mais jovem aproveito para escrever as últimas linhas de um diário que ficará guardado na minha gaveta, onde nele exprimi as minhas emoções, os meus medos e as minhas aflições. Nele escrevi tanto, derramei as lágrimas em todas as folhas, escrevi sem pensar e pensei em escrever. As horas passavam um pouco mais depressa quando me distraía desta forma mas acreditem, foi tudo menos fácil. Não sei se neste momento estou a sonhar, mas sinto-me a ficar para trás... O meu corpo está bem lançado para um abismo sem retorno. E agora, o que faço? Espero!? Peço socorro? A quem? Quem me vai ouvir do lado de lá daquele vidro?
Ainda há dias, olhando o céu, perguntei em alto e bom som: Que mal fiz eu para merecer isto? Tu, que estás aí em cima, sempre atento aos maus, porque não os pões nesta cama ou outra qualquer? Estou certo que há pessoas que merecem passar pelo que eu passei, diz-me que me vais safar desta.... Os minutos foram passando e claro, respostas não se fizeram ouvir. Escrevi mais umas linhas no meu caderno e deixei-me ficar a ver as estrelas lá no céu. Quem sabe, se eu não serei uma delas daqui a... sei lá quanto tempo me resta! Tudo o que era possível fazer em relação a mim foi feito, os exames realizados e os estudos de compatibilidade efectuados. Serei eu uma peça que não tem lugar no puzzle do mundo? Terei eu feito mal a alguém antes de ter vindo ao mundo? São tantas as questões que coloco a mim próprio mas para as quais não tenho resposta. Nada sei sobre o mundo, o mundo pouco ou nada sobre mim, mas o que é certo é que vou partir sem entender o sentido da palavra amar ou do verbo constituir. Desde que me conheço como gente tem sido entre hospitais e casa, vivi prisioneiro de mim em espaços que nada têm a ver comigo. Gosto de sentir o ar fresco bater-me na cara, gostava de me lançar na montanha e ver o mundo de cima, como qualquer ave ou pássaro. Esses sim, têm o sentido apurado da liberdade. Restar-me-á algo mais depois de fechar os olhos pela última vez? Onde vou acordar? Nesse lugar, também há lugar para mim? Vou deixar toda a gente aqui? Como os poderei visitar?
Há uns dias atrás fui visitado aqui neste lugar, que chamam de quarto, por um Doutor Palhaço. Perguntou-me o que eu gostava de ser quando fosse grande, não pensei muito para lhe responder, apenas disse:
- Gostava de ser a criança que até hoje não fui! Não conheço o mundo lá fora, ou pouco... Gostava de sentir a liberdade de um pássaro, ser forte como um leão e saudável...
O tempo foi passando e eu pouco ou nada vi do mundo, não senti a liberdade, não fui forte mas resisti enquanto pude. Estas talvez sejam as últimas palavras do meu diário, mas não gostava que guardassem esta parte de mim, será pedir muito guardarem o bebé saudável que fui por uns tempos e um menino com cabelo louro... Talvez esteja na hora de fechar a caneta e adormecer com o diário em cima de mim. Talvez nele tenha a chave para uma casa no outro mundo com jardim, virado para a montanha e onde eu possa ver os pássaros voar e os possa acompanhar a correr, sem nunca me cansar! Pelo que fui peço desculpa as noites sem dormir, mas antes de partir quero ter a certeza que na minha despedida vão, APENAS Sorrir!
P.S) Relembrando histórias de "Anjos com asas" com uma visão muito própria.
Francisco Milheiro
1 de Setembro 2011