terça-feira, 4 de outubro de 2011

Londres, Dezembro 1995 - Retrato frio

Londres, 30 de Dezembro 1995

As minhas mãos tremem, apesar de já ter pisado os palcos dos teatros e óperas mais emblemáticos do Mundo os meus dedos fazem-se sentir nervosos. Serei eu fruto de sorte ou tenho também uma réstia de talento? Sou o que sou, fruto de uma educação, maioritariamente burguesa da cidade do Porto, sempre frequentei bons colégios (a partir de um certo momento da minha vida), estudei no conservatório, passei depois pelas escolas de música de Nova Iorque e Londres. O conceito de músico, como profissão, sempre teve uma conotação diferente no meu país, seria eu fruto / imagem de um futuro diferente? As salas esgotavam para me ouvir, era convidado para tocar em ocasiões especiais e gostava muito, muito daquilo que fazia.

Londres, era, pela segunda vez um pequeno mundo criado à minha volta, na primeira fila pessoas de grande renome da sociedade, donos de clubes de futebol, dirigentes desportivos e culturais da cidade, e a meio, rainha de Inglaterra. Fui convidado pela Casa Real a passar uma tarde nos jardins do palácio de Buckingham e tomar um chá com Rainha Isabel II. Levou-me a conhecer a sua "humilde" moradia e depois de muito conversar convidou-me a tocar algo meu. Sentei-me no Steinway de cauda, encostado a uma das enormes janelas, lá fora ouvia o rebuliço do trânsito londrino, um ou outro flash e cartazes de apoio aos filhos de Diana, entretanto falecida num acidente em Paris, e Carlos, o mal amado... Dos meus dedos soaram os primeiros tons de uma reflexão musical sobre a minha cidade, pois claro. Recriei depois tema de Chopin e um de Beethoven. A tarde foi passando e ganhei coragem para lhe perguntar:

- Promete fazer-me uma visita ao Porto?

- Claro que sim! Respondeu, simpaticamente Isabel II.

O tempo foi passando, e com ele aproximou-se a hora do recital. As pessoas acomodavam-se nas cadeiras, cumprimentavam de beija-mão a Rainha e fez-se silêncio ensurdecedor. Foram muitas as minhas dúvidas nos últimos anos, nos primeiros da minha vida artística, e essas foram finalmente dissipadas. Começava já a poder construir o meu império... nunca pensei que pouco tempos depois o céu fosse o meu abrigo, no Porto e em mais algum sítio.

O público recebeu-me muito bem, os temas surgiram em catadupa, devidamente treinados e sabidos de fio a pavio, as notas tomadas acima das linhas pautadas, a minha vida a troco de muito nada. Nessa altura, não conhecia Teresa, era um homem só... As palmas acalmavam um pouco a minha dor.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Anjos com asas

Os minutos corriam lentamente, pela janela do quarto conseguia ver o mundo a transformar-se a uma velocidade que nem o maior físico da História consegue arranjar explicação, muito menos consegue diminui-la. Os segundos que me separam de um outro, se calhar, melhor mundo, fazem com que os meus batimentos estejam bem mais lentos do que é normal. Será esta sensação, de um tal de medo que nos faz querer voltar atrás e tentar agarrar o que alguém nos tirou? Sinto tantas emoções mas estou certo que este não é o momento para dissertar sobre elas, tenho a alma de um velho no corpo de uma criança, quem sabe, um anjo transformado daqui a umas horas, ou dias. O tempo vai passando e o meu corpo ficando cada vez mais pesado. As visitas são agora feitas através do vidro e já nem me consigo levantar para fazer as minhas necessidades ditas fisiológicas nem para caminhar. O próprio peso da minha cabeça faz-me recuar quando me tento erguer para ver o mundo, lá fora, a andar.

Da janela do quarto posso ver a janela do quarto de alguém que me quer bem, e que tudo tentou para que eu pudesse estar cá mais uns anos, mas a troco de quê? Não sei bem se quero ver o outro mundo já, daqui a pouco, mas não quero penar por mais do que umas horas, dias para mim duram meses, e meses vários, vários anos. Todos os minutos em que o meu corpo se sente mais jovem aproveito para escrever as últimas linhas de um diário que ficará guardado na minha gaveta, onde nele exprimi as minhas emoções, os meus medos e as minhas aflições. Nele escrevi tanto, derramei as lágrimas em todas as folhas, escrevi sem pensar e pensei em escrever. As horas passavam um pouco mais depressa quando me distraía desta forma mas acreditem, foi tudo menos fácil. Não sei se neste momento estou a sonhar, mas sinto-me a ficar para trás... O meu corpo está bem lançado para um abismo sem retorno. E agora, o que faço? Espero!? Peço socorro? A quem? Quem me vai ouvir do lado de lá daquele vidro?

Ainda há dias, olhando o céu, perguntei em alto e bom som: Que mal fiz eu para merecer isto? Tu, que estás aí em cima, sempre atento aos maus, porque não os pões nesta cama ou outra qualquer? Estou certo que há pessoas que merecem passar pelo que eu passei, diz-me que me vais safar desta.... Os minutos foram passando e claro, respostas não se fizeram ouvir. Escrevi mais umas linhas no meu caderno e deixei-me ficar a ver as estrelas lá no céu. Quem sabe, se eu não serei uma delas daqui a... sei lá quanto tempo me resta! Tudo o que era possível fazer em relação a mim foi feito, os exames realizados e os estudos de compatibilidade efectuados. Serei eu uma peça que não tem lugar no puzzle do mundo? Terei eu feito mal a alguém antes de ter vindo ao mundo? São tantas as questões que coloco a mim próprio mas para as quais não tenho resposta. Nada sei sobre o mundo, o mundo pouco ou nada sobre mim, mas o que é certo é que vou partir sem entender o sentido da palavra amar ou do verbo constituir. Desde que me conheço como gente tem sido entre hospitais e casa, vivi prisioneiro de mim em espaços que nada têm a ver comigo. Gosto de sentir o ar fresco bater-me na cara, gostava de me lançar na montanha e ver o mundo de cima, como qualquer ave ou pássaro. Esses sim, têm o sentido apurado da liberdade. Restar-me-á algo mais depois de fechar os olhos pela última vez? Onde vou acordar? Nesse lugar, também há lugar para mim? Vou deixar toda a gente aqui? Como os poderei visitar?

Há uns dias atrás fui visitado aqui neste lugar, que chamam de quarto, por um Doutor Palhaço. Perguntou-me o que eu gostava de ser quando fosse grande, não pensei muito para lhe responder, apenas disse:

- Gostava de ser a criança que até hoje não fui! Não conheço o mundo lá fora, ou pouco... Gostava de sentir a liberdade de um pássaro, ser forte como um leão e saudável...

O tempo foi passando e eu pouco ou nada vi do mundo, não senti a liberdade, não fui forte mas resisti enquanto pude. Estas talvez sejam as últimas palavras do meu diário, mas não gostava que guardassem esta parte de mim, será pedir muito guardarem o bebé saudável que fui por uns tempos e um menino com cabelo louro... Talvez esteja na hora de fechar a caneta e adormecer com o diário em cima de mim. Talvez nele tenha a chave para uma casa no outro mundo com jardim, virado para a montanha e onde eu possa ver os pássaros voar e os possa acompanhar a correr, sem nunca me cansar! Pelo que fui peço desculpa as noites sem dormir, mas antes de partir quero ter a certeza que na minha despedida vão, APENAS Sorrir!


P.S) Relembrando histórias de "Anjos com asas" com uma visão muito própria.


Francisco Milheiro
1 de Setembro 2011

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Feliz dia Nacional dos Avós

Não é por hoje ser dia nacional, não precisa de ser um dia especial para me lembrar de Ti, de Vocês (que cá estão ou já partiram para outra dimensão). Ficou tanto por dizer que me apeteceu escrever. Na calma da noite, apenas com o som de um piano rouco ao fundo da sala, faz-me voar para longe, bem longe.... O tempo passa tão depressa e nem um obrigado pudemos dar, adeus infelizmente disse e sabia que não era um "Até daqui a uns dias". Tenho pena de não ter nascido há mais tempo, assim não escrevia estas palavras

"Ficou tanto por dizer!"
"Faltaste-me neste momento importante..."

De nada valem as palavras se não forem sentidas. De nada valem as lágrimas se não forem reais... A saudade! Essa, é real, o tempo que passei ao teu colo, a conversar como se fôssemos dois amigos, nesse dia despias o fato e partilhavas a sabedoria de outrora, contavas-me de forma apaixonadamente verdadeira aventuras e desventuras do teu tempo.

Hoje é o teu dia, o VOSSO, eu apenas sou um dos muitos netos que há no mundo. Hoje, falo por mim e por todos os que me rodeiam:

- Avós, têm um dia FELIZ!


Francisco Milheiro
26 Julho 2011

Se nada sei... a culpa foi tua

Se pouco ou nada sei
Sobre o tal do amor
Foi porque não soubeste ter
Um terço da minha dor

Se pouco ou nada sei
Do que tu chamas de amizade
Talvez tivesses gostado
De mim, um pouco mais do que metade

Se me quiseste ensinar
A gostar de alguém que não de mim
Digo-te que esse tal de amor
Iria ter um breve fim

Se me quiseste ensinar a chorar
Digo-te obrigado
Porque me fizeste ficar
Com um brilho no olhar

Se soubesse decifrar
O que por aí vinha
Jamais teria feito
De ti uma raínha

Não te teria levado ao Coliseu
Nem receberias
Metade...
De algo que é meu

Entreguei algo
Que não julguei ter
Mas vou ser feliz
Porque só assim sei ser

Aprendi que chorar
Faz parte da aprendizagem
Mas não esperes de mim
Covardia, apenas coragem

Vou passar por ti
Não te vou reconhecer
Foste apenas alguém
Que me fez escrever

Com raiva
Falando sobre o amor
Não te conheço
É o que sei escrever, de melhor


Francisco Milheiro
23 Julho 2011

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O Menino, o piano e a Vida

As mãos tremem-me como se estivesse em cima de uma corda para passar até ao outro lado da maior cascata do Mundo. Não que o palco me assuste, aliás, se não fosse ele não sei o que seria de mim. As horas passam devagar até à minha entrada, o barulho das palmas acalmam-me e preenchem a minha pequena e pobre alma. Não sei como vim aqui parar, até há bem pouco tempo era mais um menino pelas zonas jotas da minha cidade, aprendi a viver com o perigo, com a droga dos meus irmãos e com a vida dura dos meus pais. Mas cresci, tanto por dentro como por fora. O meu metro e oitenta e esguio corpo fazem-me deslizar pelo palco na direcção daquele que durante muito tempo foi o meu amigo, meu confidente.

Há momentos em que penso, quando percorro os quilómetros entre a cidade da minha vida e os vários palcos e não consigo imaginar o que seria de mim se não tivesse conhecido a minha paixão, a Música. Há tempos vi o filme de um pianista no tempo de guerra, o mundo estava concentrado nas notícias de mortes e feridos e ele, apenas se interessava pelos sons que ecoavam na pequena sala do seu apartamento. Os sons, de uma certa forma anestesiavam-no do mundo real, e enquanto divagava pelas teclas ainda brancas do seu Straus não via mais nada a não ser o seu mundo perfeito, o tal que não existia do lado de fora da janela. Sinto sempre a entrada em palco como se fosse a primeira, recebo com carinho e alguma admiração as palmas que ecoam na sala escura, a música é a minha vida... a partir de hoje. Entendo agora o esforço que os meus pais fizeram para me darem o primeiro instrumento, um teclado a pilhas e que ainda hoje guardo no meu quarto. Os sons... os sonhos que tinha sentado na minha velha cadeira de palha na pequena janela do meu quarto olhando Lisboa e os seus prédios altos, os seus centros comerciais e as suas lojas. Lojas essas, onde nunca teria dinheiro para comprar o que quer que fosse. Mas a minha vida foi mudando, o meu mundo foi-se criando à custa das teclas que diariamente tocava. Hoje vivo para tocar, e toco para viver. As horas que passo diariamente são ainda tantas que me foi impossível encontrar o tão esperado amor, desde há uns anos que o meu amor é o piano... e sinto-me bem com isso.

Os minutos estão a aproximar-me cada vez mais dos sons do meu amor. Sinto um ligeiro tremor de pernas mas isto é mesmo só antes de entrar. Esta é a minha vida, e vou lutar para no fim de tudo dizer:

- Obrigado Pais, pelo que me deixaram fazer da vida!


Francisco Milheiro
25 de Julho 2011

segunda-feira, 11 de julho de 2011

"Por ti resistirei"

Olá meu Amor,

Se estás a ler esta carta é porque te encontras bem. Não sei se o sítio onde estás a ler é o lugar para onde enviei, acho que escolheste (se bem te conheço) uma rocha bem junto ao mar e sentir a brisa e quem sabe recordares-te de mim e do nosso secreto lugar. Sabes? É tão estranho estar meio mundo distante de ti, saber que a banda sonora que ouves não é a mesma que a minha, são bombas e tiros. O meu coração está suficientemente preenchido por ti para sobreviver a esta tua ausência mas tenho medo... Há dias acordei com alguém a tocar à porta, o meu coração sobressaía do meu peito, tive tanto medo que fosse alguém teu amigo a trazer-me uma má notícia... mas não, era a mulher de um ex-companheiro teu que partiu, do sítio onde estás.

Ainda esta semana estive no nosso esconderijo, liguei a nossa música e encostei-me a chorar a um canto, o tal em que me beijavas daquela forma louca e dizias:

- O nosso amor é mais forte que a guerra! Por ti resistirei!

Não podia deixar de acreditar em ti mas tinha tanto medo que a minha concentração para trabalhar não era, nem por sombras a mesma de há uns meses. Temo por mim, por não te ter, temo por ti por não me voltares a ver. Sei que o nosso amor é verdadeiro e resistirá no espaço e no tempo mas não confio na guerra onde te encontras. Tenho lido tantas histórias no jornal e na televisão, de soldados que partem e já não regressam. Será esse o teu caso? Serás tu apenas mais um no meio de tantos que morrem para salvar a honra de uma pátria? Mas que pátria é esse? Que mundo é esse que precisa de uma guerra. Tenho tanto medo de voltar a estar sozinha, não me imagino sequer a apaixonar por alguém que não sejas tu. Promete que quando voltares trazes-me um sorriso no olhar e um beijo guardado durante este tempo. Prometes-me pedir novamente em namoro? E casamento, será esse o teu sonho? Será esse mais um ponto em comum? Amo-te tanto, e vou sobreviver ao tempo. Imagino-me (e gosto) de cabelos brancos contigo a meu lado na nossa praia a falar sobre os tempos de guerra e de como foste para mim, um Herói.

A caneta que estou a usar para te escrever sente-se gasta, sinto-me cansada, com as lágrimas a cairem sem controlo pelo rosto porque apenas penso, em Ti. Voltas para mim? Resiste apenas mais um pouco, lembra-te do que fizemos, do que fomos e do que ainda nos falta viver! Por ti resistirei, espero o mesmo de ti! Recebe nesta minha fotografia um beijo do tamanho do mundo. Até breve!


Resposta

Olá meu Amor,
O tempo aqui passa a voar, literalmente! Não tenho tempo de fazer amigos nem de confraternizar muito. Ainda ontem bebi-a uma cerveja com uns companheiros, hoje morreram os dois vítimas de um ataque surpresa. Gostei de ler algo teu, aconchegaste-me o coração, deste-me a força que preciso para sobreviver com um sorriso, apesar do cenário devastador que vejo ao acordar. Tenho pensado muito em Ti e em tudo o que fomos e o que quero ser quando regressar aos teus braços, já não falta muito meu Amor! Já não falta tudo! Não faz muito tempo que ouvi uma conversa dos meus generais que a guerra está prestes a acabar, se tudo correr bem o Natal passarei a teu lado e no ano novo brindaremos a uma nova vida, essa sim, recheada de Bons Momentos e isenta de guerras e conflitos. A praia onde me refugiei para ler as palavras que me escreveste, não a escolhi à toa, é relativamente parecida com a nossa, aquela tal em que nos perdemos vezes sem conta e entregámo-nos ao amor naquelas dunas. Vivíamos cada verão como se fosse o último, cada segundo era o momento perfeito para um beijo, cada minuto era aproveitado para dizermos um Amo-te, para darmos um mergulho naquela água fria mas que nos aquecia, tal era o amor. Aproveitávamos o sol até não o vislumbrar-mos, as estrelas eram já uma realidade quando te deixava em casa no meu carro descapotável e regressava ao quartel. O nosso amor resistiu a várias intenpéries, esta é apenas mais uma. O teu amor alimenta-me, saber que esperas por mim faz com que o tempo passe de forma célere. Acho que este afastamento não foi por acaso, não foi pelos países estarem em guerra e eu fazer parte de uma elite que o nosso amor vai acabar.

Todos os dias ao deitar olho e beijo a foto que me deixaste guardada no bolso das calças quando me abraçaste no aeroporto e me disseste ao ouvido:

- Amo-te! Resiste por mim!

Foi dos abraços mais longos e para mim, dos mais perfeitos que dei e recebi. Se fosse um momento de filme imaginá-lo-ia como a cena final de um filme de guerra quando o guerreiro volta para a sua amada. Talvez o tempo se encarregue de perceber que a guerra não leva a lado nenhum e eu possa voltar para o teu lado, coisa que aliás, não devia ter acontecido: um afastamento. Não quero, meu Amor, que duvides do meu amor por ti e que SIM, resistirei e te pedirei de novo em namoro. O nosso amor não merece morrer, e sim, renascer! Nos dias de fascina olho o céu e nele imagino os teus olhos a zelarem por mim, a apontarem-me o caminho longe do perigo. As horas passam devagar, sinto-me cansado mas o teu Amor carrega-me as baterias.

Tenho medo de contar o tempo em que não foi possível estarmos juntos, mas quando regressar para os teus braços não te vou largar. Vê isto como umas férias minhas, imagina que não estou onde estou e que daqui a uns dias me irás buscar a um aeroporto normal cheio de gente com vontade e sorrisos para férias. Sinto também as lágrimas caírem-me pelo rosto ao te escrever estas palavras, não tenho problemas em dizer que choro cada vez que recebo uma carta tua. Já perdi a conta às noites que me perco nas tuas palavras, no teu conforto traduzido em letras.

O nosso Amor vai resistir, e eu tornar-me-ei forte a cada minuto que passar porque sei que vais estar comigo no teu pensamento. E esse, não duvides, é o meu Alimento! Está na hora de enxaguar as lágrimas e escrever-te as útlimas palavras:

- Guarda esta carta contigo meu Amor, nela vai mais um pouco do meu coração!


P.S) Uma abordagem muito pessoal do "Por ti resistirei" de Júlio Magalhães. Parabéns Júlio
Francisco Milheiro
10 de Julho 2011

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Talvez aprenda...

Talvez hoje
Só me apeteça ficar
Até o sol cair
Lá ao fundo, no mar

Talvez hoje
O som da onda a bater
Seja suficiente
Para voltar a ser

Talvez hoje pare
Para me ouvir respirar
Talvez hoje sinta
Vontade de estar...

Entre os olhos postos
Numa folha de papel
Intervalo para olhar os cabelos
Dela, em cor de mel

Talvez hoje anoiteça
Sem eu dar por isso
Talvez porque hoje
Tenha perdido o juízo

Talvez pare
Um pouco para ouvir
O mar mostra
O que estou a sentir

Lanço o olhar
Sem me aperceber
Que para lá do horizonte
Vou tentar ver

Talvez pare
E fique a sentir
Que por ti parei
Para omitir

O que não soube dizer
Sabia que no fundo
Esse jogo
Ia perder

Talvez hoje fique
Sem saber o que falar
Quem sabe pare o tempo
E o faça recuar

Recordar o seu cabelo
Da cor de mel
E de vez em quando
Escrever no papel

- Ontem
Talvez te tenha amado
Hoje sei...
Estou vivo e ACORDADO

Não sei
Se algum dia senti
E vislumbrei
O que achava de ti

Talvez ter-te conhecido
Foi um erro
Mas já acordei
Desse pesadelo

Por tua causa
Chorei...
Mas no fim
Acordei

Sei que não posso
Apagar o que é passado
Ouxalá pudesse...
Não te teria amado

Hoje sei
Sem na altura saber
Que para amar
É preciso ser...

Correspondido
Para no fim dizer
Vivi uma história
Com um final fudido

Viro a página
Para um novo capítulo começar
No fim escreverei
Foi a primeira mulher que amei

Vivo o presente
De forma serena e feliz
Vou agora aprender a amar
Foi isso que sempre quis


Francisco Milheiro
7.7.2011

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Retrato Frio XV "Luz da lua"


Acho que a luz do meu "quarto" não me convida muito à leitura muito menos à escrita. Mas li, algures há muito tempo que quando escrevemos criamos algo que é só nosso, algo que existia em nós. É estranho ter criado textos, músicas e poemas sobre a cidade que tanto amo em lugares fechados, quentinhos no Inverno e frescos no Verão... e hoje esteja a tentar escrever nos espaços em branco do jornal do ano passado que encontrei na rua, aqui no meu "quarto" com vista para o Rivoli, nas arcadas do Banco.

É estranho pensar que já tive, ali por trás do balcão alguém engravatado dizer:

- Que bom sr. Mário vê-lo por cá! Em que posso ser útil?

Hoje não sou senhor, nem sequer Mário... Nem eu próprio me reconheço. Hoje voltei ao "Coração da cidade" depois da minha estadia em Medicina I do Hospital de St.º António. Tive pena de deixar o meu novo companheiro na rua... mas fiquei a pensar: ele nunca conheceu outra casa. Nasceu perto, imagino eu, de um balde do lixo, passado alguns dias encostou-se aos meus párocos adereços e por lá ficou. Pedi a chave ao segurança da casa de banho, nela tomei um banho quente e desfiz a enorme barba. O rosto já não era para mim tão nítido, os anos em que abusei da maquilhagem podem ter contribuído... mas a vida que levava (infelizmente) levou com ela a minha imagem. As senhoras que tratavam da comida ficaram felizes por me ver. Uma delas dizia:

- Tive medo de não o voltar a ver. Gosto tanto de si!

Aquelas palavras por mais simples que sejam encheram-me de calor a alma. Vim à porta para saber do meu pequeno amigo e dar-lhe um pouco de água e ração. As senhoras, que têm um coração enorme, prometeram arranjar-me um saco de ração para o Bemol, desde que eu prometesse não o abandonar.

A noite adormeceu fria, húmida. Olhei o céu e apenas um rasgo da lua conseguia vislumbrar. Encosto-me para trás, a caneta sinto-a pesada e a descair na direcção do jornal. Olho o Bemol, dou-lhe um beijo na testa e desejo boa noite. Olhou para mim e com aqueles olhos castanhos vinham uma mensagem:

- Ninguém nos vai separar!

O cobertor que me ofereceram fazem-me acreditar que vou sobreviver de uma forma menos dura às noites no Porto, senti que estas linhas me deram um novo alento. Finto o sono e escrevo as últimas palavras:

- Hoje é o primeiro dia do resto da nossa vida! Vou sobreviver e voltar a ser quem um dia fui... aquele que escrevia debaixo de um tecto para a cidade que amo.


Mário,
Porto Janeiro 2003.

terça-feira, 5 de julho de 2011

RIP Angélico Vieira




Talvez hoje a minha mente não esteja suficientemente disperta para escrever. Pode até acontecer colocar um ponto final definitivo e nada do que para trás esteja escrito faz sentido. Não me sinto muito capaz sinceramente para expressar o muito do que ti se podia dizer mas lá no fundo escrevo em nome de quem não te queria perder, não agora, tão cedo! As más notícias correm muito depressa mas havia ainda uma réstea de esperança numa recuperação, ou pelo menos, num sinal de "querer voltar". As horas foram passando e as lágrimas escorrendo nos rostos cansados e desesperados nas arcadas e jardins contíguos ao Hospital onde te encontravas desde sábado. A fé numa recuperação era tanta que foram muitos os que se deslocaram para uma vigília ontem, tantos foram os amigos famosos e desconhecidos que se viram numa situação difícil, muito triste de viver: perder um amigo tão novo, de forma abrupta.

é impossível hoje e amanhã e nos próximos dias os feeds no facebook não serem dirigidos a ti e aos teus familiares e a uma pessoa que mesmo já não sendo dona do teu coração fez questão de estar presente para se despedir... é impossível hoje não voltar atrás e ouvir temas que com a tua voz eternizaste, uma das baladas mais incríveis de sempre "Hás-de sempre estar"... Hoje, talvez hoje e para sempre a tua voz se sobressaia nos muitos temas por ti gravados. Só tu com a tua energia fizeste o público gritar e cantar, a tua forma de sorrir para as miúdas que esperavam horas a fio era terna e divertida.

A música em Portugal ficou, hoje, aos 28 de Junho de 2011, mais pobre tendo perdido alguém que com a sua garra e atitude fez acreditar que os sonhos são alcançáveis, basta LUTAR! é isso que vamos continuar a fazer, porque herdámos isso de ti. Talvez hoje a música dos DZRT faça mais sentido e seja SENTIDA porque partiste para nos acompanhar em forma de estrela, como sempre foste. Hoje o céu brilhará mais, as estrelas serão ofuscadas por ti que partes connosco no coração.

Sendo eu um simples apreciador do que de bom se faz em Portugal fica aqui a mensagem para quem hoje, decidiu partir...

Até sempre, Puto!

Francisco Milheiro
28 de Junho 2011

sábado, 25 de junho de 2011

Alimenta-me!

Embora o tempo corra
Sem cessar
Eu paro
Para pensar

Embora me esqueça
De recordar
Tu não ficas
Sem o teu lugar

Quem sabe seja um sinal
Para que possamos
Em uníssono
Cantarmos no final

Talvez o tempo passe
De uma forma singular
Talvez eu te peça um minuto
Para simplesmente te olhar

Talvez seja o tempo
O dono da razão
Talvez sejas tu
Quem tem a chave do coração

Na vanguarda do tempo
Na inquietude de um abraço
Peço-te um segundo
Para entrar no teu espaço

Talvez apenas precise
De um...
Para te sentir
E saber o que te faz sorrir

Talvez eu tenha
Um segundo para perder
Talvez tenha uma vida
Se assim tiver de ser

Perco-me no tempo
Vou esperando lentamente
Que o teu coração se abra
De forma permanente

Que nele eu possa
Discretamente entrar
E no fim de tudo
Possamos em uníssono cantar

Nos teus olhos vejo
Sinais do tempo
O teu coração
É o meu alimento


Francisco Milheiro
24 de Junho 2011

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Recordando "Alguéns"

Por momentos
Perco-me em histórias sem fim
E outros pedaços
Que habitam em mim

Perco-me em ti
Nos teus braços escondo-me
Quem sabe, para descobrir
O que estou a sentir

Sentia-me em ti
Mesmo já não te tendo
Abraçavas-me toda a noite
Mesmo eu já não te vendo

O tempo vai passando
A saudade...
...
Aumentando

Ficaram suspensas
As conversas que não tivemos
Foram tantos os planos
Que juntos, fizemos

Não sei se o tempo
Foi no fim, alguém justo
A caminhada sem ti
É um sinuoso lugar escuro

Fecho os olhos
E imagino-te ao meu lado
Talvez assim me sinta seguro
Para chegar são e salvo

Por tempos não sabia o teu nome
Nem sequer distinguia o teu cheiro
Hoje sei...
Tenho o coração cheio

Pelo carinho que deste
Pelos mimos que sempre...
De forma terna
Fizeste.


P.S) A quem partiu mas não desistiu de viver para ver crescer...

Francisco Milheiro
21 de Junho 2011

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Nobre escolha





Hoje, dia 20 de Junho de 2011 houve, um "regresso à Assembleia". De manhã era visível o entusiasmo de alguns por estarem pela primeira vez no papel de deputados na AR, outros pelo contentamento e deleite por voltarem a uma casa que conhecem bem. É hoje também o dia em que se conhece o segundo "personagem" mais importante da República, e as críticas são mais que muitas. Se por um lado o PS (actualmente na oposição em minoria) critica o actual e recentemente indigitado Primeiro Ministro, Dr. Pedro Passos Coelho de ser um governo demasiado jovem e técnico.

Ora, costuma-se dizer: Na minha casa mexo eu e ninguém tem nada a ver com isso! Basicamente é isso que Passos Coelho quer, e a meu ver bem, passar aos actuais líderes e bons falantes da esquerda. Foram várias as surpresas (para alguns) para as pastas que vão merecer especial atenção e a extinção do Ministério da Cultura, ficando agora a "cargo" do Primeiro Ministro, o que é tudo menos mau, porque sabemos que se trata de alguém culturalmente civilizado e preocupado com o "Produto Português de Qualidade". As horas vão passando na AR, e só mais logo pelo final do dia saberemos se Fernando Nobre, Presidente da AMI vai ser a segunda figura mais importante da República ou se as críticas proferidas por Sócrates, Assis e afins são suficientes para que Nobre não se sente no lugar que foi de Jaime Gama nestes últimos anos.

Zangando-se as comadres, descobrem-se as verdades! Será que vai ser, neste mandato, ou início dele que PSD e CDS se vão entender nas pastas que verdadeiramente preocupam os portugueses? Será o controlo da despesa pública uma realidade ou mais uma ficção "Made in Portugal". Por essas e por outras, o Presidente da República pede um voto de confiança por parte dos portugueses (deputados incluídos) que acreditem no Jovem e Técnico Governo formado pela coligação PSD - CDS. As guerras internas podem ter os dias contados bem como a instabilidade que se viveu pelos lados do Palácio de S. Bento nos últimos anos. Em dia de começo, haverá já um fim determinado?

Só os votos poderão dizer, só o tempo o pode confirmar: Se Nobre foi a escolha certa ou se foi apenas a primeira derrota de Passos como Primeiro Ministro. Já veio afirmar que não contava ser tão criticado por tão acertada escolha, precisamos só de esperar mais um pouco para saber... Terá sido uma Nobre escolha?


Francisco Milheiro
20 Junho 2011

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Chave guardada para te entregar de madrugada

Enquanto a cidade adormece
Olho a estrada e imagino
Sem sair do lugar
Um caminho até chegar

Na longa estrada
Vou percorrendo asfalto e paralelo
Para te entregar um coração
E ter em ti um elo

Um elo
Que me vai fazer ligar
Ao teu mundo
Aquele, que me deixas entrar

Fico confuso
Por saber a distância
Mas o meu amor por ti
Tem mais conteúdo e importância

Fica no silêncio da noite
A esperança de encontrar sem me perder
A estrada que
Sozinho vou fazer

Vou-te encontrar
Numa qualquer cadeira de baloiço
Nela perco-me nos teus braços
E guardo-te como um tesouro

A estrada percorro
Lentamente sem medo
Para te poder encontrar
E contar o segredo

Que há muito guardo
Bem escondido em mim
- Se gostares, como acho
Fica comigo até ao fim

Tens o meu coração
Para ti
Não tem base
De licitação

Percorre o meu corpo
Decidida e sem pudor
Despido de preconceito
Entrego-te o meu amor

Vou guardar para sempre
O que de melhor aconteceu
Já que na escola foste a Julieta
Serei para sempre o teu Romeu

Guarda um sorriso meu
E eu dar-te-ei o mundo
Que guardei
Para ser apenas teu


Francisco Milheiro
15 de Junho 2011

domingo, 12 de junho de 2011

Carta ao entardecer...

Meu Amor,

Sei que já me esqueceste, mas ainda assim gostava de te relembrar o quanto foste importante para mim. Meu Amor, eu sei que o tempo não perdoa, as horas passam e não voltam sequer atrás, eu sei que o teu interesse por mim esvaneceu, esmureceu como aquela noite que surgiu com tempestades sem aviso prévio. O meu amor foi crescendo mas o teu coração não era mais do que um lugar reservado e ocupado por alguém que não eu. Nesta praia vou caminhando e chorando as lágrimas que teimei, por ser homem, em não chorar à tua frente. As vezes em que precisei de te pedir desculpa não tive coragem, as vezes que errei não foram suficientes para aprender a lição. O tempo foi passando, e o meu lugar foi ficando… guardado noutro lugar que não o teu coração. O sol está-se a pôr na praia em que passeámos diversas vezes, em que nos deixámos ficar para lá da hora marcada, momentos esses sempre interrompidos pelo barulho das ondas nas rochas que ficavam firmes aos nossos pés. O cheiro do teu cabelo ainda o reconheço, o teu rosto peço… para tocar e nunca mais o largar. Falámos vezes sem conta sobre a formula mágica de guardarmos os momentos e de nos recriarmos para sempre mas o tempo, mais uma vez, se encarregou de fazer o contrário. Hoje, sei que não me reconheces, já nem sequer sabes o meu número, sou apenas mais um da tua lista telefónica, que sei, ainda está ao lado do piano da tua sala.
Sabes, meu Amor? No outro dia sonhei contigo. Sonhei com o tempo em que éramos um todo, o ar de jovens apaixonados estava estampado nos nossos rostos, a cada manhã olhava o espelho e nele via reflectido o teu. Era sinal de amor verdadeiro, de amor sem interesses, apenas no bem que fazíamos mutuamente. As horas vão passando, não voltam a repetir-se aquelas saídas nocturnas só para te dar um beijo de boa noite, que acabavam sempre com a mesma frase:
- É por estas maluquices que te amo cada vez mais!
Foi por ti que deixei de dormir para poder escrever meu Amor, esta e outras cartas que não chegaste a ler. Sei que agora estás sentada na tua cadeira, feita poltrona com os pés assentes num pequeno banco de apoio e durante o dia estás virada para o mar… O tal em que mergulhavas comigo, dizendo:
- Se esta onda for a última que o mar tenha força para criar quero que ela nos atinja com a sua força e dê uma nova alma para este amor não acabar.
Foram tantas as vezes em que olhavas para mim, tu no mar e eu sentado na areia, e com um sorriso dizias:
- Meu amor, a água está óptima. Deixa-me partilhar este momento contigo!
Nunca resisti a uma chamada tua, ficava sempre nervoso quando entrava mas sabia que estaria nos teus braços para nunca mais te largar… Fizeste-me, sem culpa, acreditar num amor verdadeiro, único e real, aqueles que só acontecem nos filmes, mas a nossa vida era, infelizmente vida! Estou aqui a escrever à beira-mar e estou a imaginar-te ler esta carta, com um leve sorriso no rosto de menina (que ainda sei que preservas) e uma furtiva lágrima porque conseguiste por momentos, relembrares quem foste. Eu ainda sei quem sou, mas tu infelizmente, já não te reconheces nem ao espelho. Os anos foram passando e a natureza humana (cruel) fizeram-te refém num corpo de mulher de idade.
Se este for o meu último dia na terra, quero que saibas, vou feliz, porque consegui por momentos recordar o passado em que fui feliz e a pessoa que sempre quis… esteve comigo, naquela praia, naquelas rochas, naquele oceano, naquela vida.
Hoje talvez te escreva para dizer Adeus ou até breve, sei que nos vamos voltar a ver e que nesse dia vais sorrir porque me vais reconhecer. Vais voltar a sentar-te ao piano, passearás comigo numa outra praia, mas com o mesmo sorriso e a mesma vontade: Estar para viver… Recordar para não mais esquecer!

Francisco Milheiro
12 de Junho 2011

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Dois mundos

Parece que o tempo corre de mim... o tempo que o tempo diz dispensar por dia a cada um de nós parece que a mim faz de propósito para "debitar" menos... O cansaço apodera-se de mim a poucos minutos de me fazer a uma estrada nocturna. Na estrada que percorro para te abraçar e te sentir faço de bom grado, esperas-me com um copo do velho tinto que nos faz soar e daquele charuto que nos faz respirar um ar tipicamente cubano, com sons de violas e vozes de Pablo e Raquel. Há momentos em que paro para pensar em tudo o que de bom e mau me vai acontecendo, mas por muito que fuja, ou dê voltas o meu pensamento vai para ti. Lembro-me bem dos finais de tarde em que partíamos à descoberta do admirável mundo novo... Aquele que sempre teimavas em dizer que conhecias, que era perfeito, sem guerras, sem fome. Mas que mundo é esse?

- O meu! Onde tu estás presente!

Fazias-me sempre acreditar que o futuro não era mais que o aproximar da perfeição e da eliminação de defeitos. Gostava de poder acreditar em ti mas o que tenho visto e lido nos últimos tempos fazem-me pensar o contrário. Os minutos passam, o espelho vai reflectindo uma imagem que não reconheço, o cabelo vai "escurecendo" para uma tonalidade mais cinza que preta.Fazes tudo para não me sentir o velho que agora sou. Confundo os dias, pergunto as horas quando quero saber os minutos e amava... quando no fundo queria odiar. Mudaste-me, moldei o meu corpo para te apaixonares mais um pouco por mim, deixei de fazer coisas que me davam prazer só para te ver mais uns minutos. Talvez quando olhares para o lado não vais gostar de ver o homem que me tornei, não vais querer saber do sorriso maravilhoso que tinha, das pataniscas que só eu cozinhava e das noites em que nos despíamos de preconceitos e ficávamos nus a olhar o mundo lá fora... As canções soavam no mp3 a um ritmo constante e os nossos corpos uniam-se cada vez mais! Cada vez que fazíamos amor era como se fosse uma primeira vez, o beijo era sempre diferente, o teu toque, esse, sublime fosse qual fosse o espaço era melhor que o do dia anterior. As horas em que fizemos amor foram passando, os dias correndo cada vez mais depressa, e eu, meu amor, fui perdendo capacidade, ou diria antes, vontade de te amar. A partir de um momento o teu sonho era outro, o meu beijo era diferente, o nosso mundo era pintado de cor diferente. A minha tela estava em branco e eu iniciara um mundo novo, a tua pintada de um rosa claro mas com várias tonalidades de preto. Seriam esses traços negros os que afectaram o mundo que quisemos criar? Terei eu sido um mau amante? Terás sido tu e o teu feitio uma via rápida para o desencanto?

O mundo foi ficando confuso, as tuas horas corriam devagar... as minhas teimavam em correr para chegar ao mundo da perfeição, talvez um mundo criado por mim recorrendo à ficção, muito por culpa da tua ingenuidade de menina que me foi incutindo verdades quase (ir)reais. O tempo foi passando e com ele chegou a hora da despedida. Os minutos passavam devagar, enquanto eu percorria a estrada que todos os dias me levava até ti. Quis parar o mundo e dar-lhe as minhas razões... Mas ele não parou sequer para ouvir as reclamações. Foi ele, talvez, o causador mor da nossa morte como Um Só! Resta-me percorrer a estrada, encontrar-te na varanda, soltar um sorriso e dizer adeus. Talvez consigamos daqui a muito ou talvez nada criar um MUNDO NOVO e nele viveremos... até que o tempo pare em definitivo. Não sei como estás, o que sentes... O meu coração está partido mas seguro que este foi o melhor caminho. Estou quase a chegar "ao teu mundo" e recebo uma mensagem:

- Estou aqui para ti! Podemos criar o nosso mundo... Promete-me que vais tentar!

As minhas pernas tremiam... não sabia o que dizer! Parei o carro, soltei um grito e do outro lado ouvi a "minha" voz:

- Não vais saber viver sem a ter!

Fiquei confuso, deixei-me estar... quem sabe aquela estrela me dê um sinal para que tudo dê certo no final da história. Se alguém me pedisse para contar começaria assim:

Era uma vez dois mundos que o tempo uniu e não mais, apesar dos esforços, os separou!

Para quê tentar viver em realidade se o somos mais felizes em ficção?


Francisco Milheiro
9 de Junho

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Brincando com palavras do Tê


Em tempos caminhava pela Cantareira e Foz um Negro que se fazia acompanhar de uma rapariguinha que passeava pelo Shopping, jurava ela não conhecer as regras de sensatez mesmo tendo todo o tempo do mundo para ler almanaques do Fantasma e do Patinhas e prometeu em tempos a Meno, que conheceu na Afurada que ele seria o seu guardador de margens. Caminhando pela Ribeira conheceu a Estrela que se julgava ser o mestre do Rock & Roll que cantava com amigos de cabeça no ar que a mulher que passara por eles até falava estrangeiro.

O Chico, que apelidavam de Fininho percorria becos e ruelas e parava em todo o lado para tomar um café e um bagaço, em dia de ir às Antas. Logo que passasse a monção iria até uma ilha onde nunca se esqueceria do seu amigo Berto que jurara bandeira e saiu de casa com as cassetes dos Doors e alguns livros de poesia. Foi ele que em tempos de guerra escrevera o Fado do Ladrão Enamorado, como também a história do Ourives Mestre João que tinha como bom amigo o Cigano que tinha chegado à vila com o mundo na mochila. Depois de uma passagem por África parou na Ilha do Pessegueiro e cantou um Porto Côvo, nunca esquecendo o seu Porto, que o cantava e sentia. O Cavaleiro Andante que tinha em si levou-o a apaixonar por uma miúda que o levou anos mais tarde à ruína, fazendo-o empenhar o anel de Rubi para a levar a um concerto para os lados do Rivoli. A morte saiu à rua bem como a camponesa de casaco escuro, a tal, que lhe jurou amor eterno e que não lhe mentiu da sua ida ao salão de jogos para um jogo de Bilhar...

Na pior altura, altura do primeiro beijo apareceram as primeiras borbulhas, no bolso só tinha algum trocado para tabaco e autocarro. Vivia numa casa perto dos jardins onde estavam os velhos. Vivia no Bairro do Oriente, dançava vezes sem conta a dança dos modernos e cantava o Rock da Liberdade, porque tinha um sonho: passear em Maubere entoando mornas e fados porque ele sempre foi um Ladrão Enamorado.


Recorrendo a palavras e títulos do Mestre Carlos Tê escrevi este pequeno texto.

Francisco Milheiro
8 de Junho 2011

terça-feira, 7 de junho de 2011

Contar um segredo... para voar sem medo





Talvez hoje não sinta
A real necessidade de voar
Quem sabe pousarei nesta árvore
E pare para contemplar

O lago lá em baixo
Permanece como sempre
Gelado...
Despido de gente

Invulgar beleza natural
Daqui contemplo
Paro nesta árvore
E penso com tempo

Sinto cansaço
Sem vontade para voar
Talvez hoje as minhas asas
Só sirvam para me balancear

No alto daquela montanha
Onde se encontra com a base do céu
Seja o lugar indicado
Para descansar tal corpo meu

Na calma do lugar
Onde poiso para descansar
Encosto as asas ao corpo
E respiro devagar

Observo do alto
Um paraíso que é meu
Na esperança olho em frente
Em busca de um sinal teu

Esticarei as asas
O máximo que puder
Só para ter a certeza
De o teu corpo proteger

Hoje talvez me sinta cansado
E precise de pousar
Mas ter-te-ei sempre
Diante do meu olhar

Tu que me fizeste acreditar
Que é possível crescer
Basta querer...
E aprender a voar

E eu quero
Poder sonhar
Para um dia bater as asas
E para longe voar

Hoje talvez me sinta cansado
Preciso de parar
Quem sabe vou agora dormir
E nas tuas asas guardar

Um segredo
Que teimo em não te contar
Mas vou ganhar coragem
E explicar...

Contigo, vou aprender de novo
A arte de voar
Quem sabe me ensines
De novo, a amar

A amar
Sem qualquer reserva ou medo
Talvez seja esse
O belo do segredo

Vou voar...
Agora do teu lado
Mesmo que lá em baixo
O lago esteja gelado


Francisco Milheiro
6 de Junho 2011 (Antes de dormir!)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Caso Rui Pedro, terá fim?





Pois é, o tempo já lá vai, os dias vão passando e Portugal vai no caso, acordando e tentando resolver problemas e casos antigos, este de que vos falo tem já 13 anos de existência. Foram passados treze anos para que o Afonso Dias, o amigo do jovem desaparecido de Lousada fosse "convidado" a ir a julgamento. Hoje, durante a minha pausa para almoço tive o "prazer" de ver tal reportagem e ouvir em primeira mão as declarações da Mãe de Rui Pedro, Filomena mostrar-se esperançada em ver o caso resolvido e ainda na ténue esperança de reencontrar o seu filho treze anos depois. O Advogado de Defesa, dr. Ricardo Sá Fernandes está confiante com o desfecho do processo que se arrasta há mais de uma década nos tribunais portugueses. Ao que parece o julgamento não é para agora porque vêm aí as férias judiciais. Ora, foi preciso chegar a Junho para chamar a julgamento um dos primeiros (no caso, dos últimos) a ver Rui Pedro!? Quem, é que no seu perfeito juízo pegou numa criança de apenas 11 anos e a leva às miúdas de rua, vulgo, prostitutas. O caso vai dando já pano para mangas e os órgãos continuam a acompanhar este processo que teima em não estar concluído... Agora, serão mais dois meses à espera que o julgamento comece e se tirem algumas conclusões. Ora, passados estes anos, Afonso ainda se lembrará do que fez nesse dia aziago para uma pacata família de Lousada? Estará a mãe do jovem (agora já adulto) preparada para o voltar a ver? Onde andará Rui Pedro? Terá caído nas malhas da pedofilia? Terá sido levado por alguém? A mando de quem? São tantas as questões que se colocam neste momento mas nenhuma delas parece ter ainda resposta. Advogado de defesa do agora arguido, está convencido que o seu cliente será absolvido por não haver provas suficientes para o incriminar. Não será este caso, mais um para cair em saco sem fundo!? Estará o país preparado para julgar tais casos!? É por essas e por outras que só se safa quem tem dinheiro ou é conhecido. Podíamos também, no caso, retomar o caso Maddie McCan: porque é que aquando do seu desaparecimento os pais contactaram a CNN do Algarve e só duas horas mais tarde a Polícia Judiciária!? Seria este um plano engendrado para criar uma fundação para angariar dinheiro a esta família ou um simples "golpe bem montado"? Dois mil e sete já lá vai e Gonçalo Amaral foi "convidado" a se afastar da PJ após ter dito de sua justiça no livro "Toda a verdade - O caso Maddie". Se o caso Maddie não tem solução à vista, e sucedeu-se à poucos anos, o que dizer do caso Rui Pedro? Quem sabe daqui a pouco ouviremos nas notícias: "Caso Rui Pedro arquivado por falta de provas" ou "Caso Rui Pedro arquivado por prescrição". É por estes processos que a justiça devia lutar até se cansar e não com processos de Apitos Dourados e afins. Os dados foram agora lançados, quem ganhará o jogo!?

Francisco Milheiro
6 de Junho 2011

domingo, 5 de junho de 2011

Estranho caso de meio amor





Por largas horas me perdi
E percorri...
O teu corpo que sentia
Cada vez mais meu

Por horas me perdia
Nos teus braços
E sentia-me seguro
Naqueles nossos abraços

Por minutos perdia-me em ti
Apenas porque te queria
Mas tu, pouco ou nada
Te importavas

Por minutos pedes um "Esquece-me"
Em segundos desaba um mundo
Aquele que tinha criado (achava eu!)
Em pouco mais de um segundo

Por momentos paro para pensar
Não vão chegar os anos
Para eu voltar a pedir
Para de novo, te amar

Para ti
Estou fechado
Mas o meu coração
Está longe de estar magoado

Pedes para esquecer
O que de mau se passou
Deves-me achar parvo
Mas isso é o que eu não sou

Por horas me perdi
Hoje passo minutos
A dizer como fui parvo
Por me ter apaixonado por ti

Escrevo, não porque penso
Mas para expulsar em definitivo
O que por minutos achei
Ser nada mais que um mito

Apaixonar só uma vez
A tua não contou...
Porque apenas um de nós
Tentou...


Francisco Milheiro
5 de Junho 2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Cidade a preto e branco

Percorro-te lentamente
Subo e desço
Até me cansar
Verdadeiramente

Soltam-se palavras estranhas
Sinónimos que finjo não perceber
No rio vejo a lua
Que se reflecte até ao amanhecer

Na cidade que pinto
Diariamente a preto e branco
Divago lentamente
Deixo que se "abra" em lume brando

Nesta cidade que se veste
Para tanto celebrar
Visto eu a tua camisola
Para nunca mais te largar

Percorro-te por entre becos
Subo ruelas e avenidas
As escadas dão acesso
às tuas arcadas escondidas

As luzes que te dão a cor
Que o dia teima em ofuscar
Sinto quando estou na Ribeira
Uma emoção singular

O preto da calçada
Não tira esse teu encanto
Cidade, serás pintada
Por mim a preto e branco

Esse cheiro que emanas de um povo
Honesto e trabalhador
Cidade que és o meu Porto
Aceita o meu nobre amor

Lembro Rui Veloso ao passar
A tua velha e ferrugenta ponte
Pensarei em ti
Não importa quando ou onde...

Cidade deixa que te cubra
Com este simples manto
Deixa que te pinte para sempre
A azul, preto e branco





Francisco Milheiro
2 de Junho 2011

Coração pronto... para voltar a bater

No conforto de um abraço
Revejo em ti,
Algo que sentia
Que parecia não ter fim

No alto da minha inocência
Que muito estimei...
Faltava o amor de mulher
Com quem um dia me cruzei

Foram tantas as memórias
E aventuras vividas...
Foram noites mal dormidas
Em descobertas repentinas

Afagava-te o cabelo
Sentia o teu respirar
Na ausência de um beijo
Deixava-me ficar...

A olhar o teu mundo
Aquele que um dia quis
Ter... nem que fosse
Por um segundo

O tempo foi passando
O amor esmorecendo
Agora restam imagens
Que me vou esquecendo...

De as ver...
De revisitar
Um passado enterrado
No passeio à beira-mar

O tempo foi atenuando
A saudade que em tempos senti
Hoje sei que errei
Ao me ter apaixonado por ti

Vivo agora o presente
Tentando esquecer o meu passado
Sei que vou estar bem
Porque não vais estar a meu lado

Vou acreditar no que dizem:
O amor é verdadeiro
Desta vez vou amar...
Não por metade, por inteiro!


Francisco Milheiro
2 de Maio 2011

Mulher do Anúncio







Pois é pessoal, aqui está um dos temas que mais trabalho me deu... Qualquer rapaz / homem sempre tem o sonho de conhecer a miúda de um anúncio de perfume ou de um outro qualquer produto de beleza. Eu também tive e por isso escrevi este poema simples que depois virou música. Espero que gostem...

Passava à minha porta
Uma garota encantada
Parecia a do anúncio
De uma marca conceituada

Não foram raras as vezes
Em que parei para contemplar
Gostava do seu corpo
E do seu modo de andar

Sabes bem que nesta vida
Não é só saber cantar
É preciso escolher bem
Uma musa p´ra nos inspirar

AI MULHER
SE SOUBESSES O QUE SINTO
NÃO AFOGARIA AS MÁGOAS
NUM COPO DE ABSINTO

Se para muitos és um vício
Para elas és mau costume
Mesmo que eu queira
Não me sai o teu perfume

Estava um dia na paragem
À espera do autocarro
Não foi uma miragem
Ela estava a meu lado

Vem um dia assistir
A um concerto que vou dar
Depois viaja comigo
Por terra ou por mar

AI MULHER
SE SOUBESSES O QUE SINTO
NÃO AFOGARIA
NUM COPO DE ABSINTO

E se algum dia duvidares
Que o que digo na canção
É porque não me conheces
E só me vês na televisão

Gostava tanto de ti
Mais do que qualquer mulher
Mas esse também não será
Um perfume qualquer


Francisco Milheiro
Maio 2011

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Tarde no jardim

Hoje esperei por ti
Naquele banco de jardim
Com um sorriso
E uma flor de jasmim

Hoje esperei muito tempo
Esperei tanto que acabei por me esquecer
O que fazia ali
O que tinha para te dizer

Peguei na caneta e no papel
E escrevi,
Está claro que escrevi
Sobre ti

Escrevi uma carta
E nela estavam expressos medos,
Incertezas e acima de tudo
Verdades

Não apareceste
E eu, louco de paixão
Peguei na flor
E atirei-a para o chão

Assim fiquei, doido de paixão
Com uma carta escrita
A caneta no bolso
E a flor amarrotada... no chão


Francisco Milheiro
26-03-2008

Verbos transformados

Gosto de sonhar
Gosto de sentir
Gosto muito de cantar
Gosto de me divertir

Gosto de pensar
Gosto de escrever
Não me importo de chorar em público
E de com os erros aprender

Gosto muito dos meus amigos
Apesar de muitos não ter
Mas sei que pelo menos esses
São amigos a valer

Se não fossem estas pequeninas coisas
Mínimas que sejam, na nossa vida
Verbos acabados em ar, er e ir
Porque razão haveríamos de existir?


Francisco Milheiro
2-7-2007


P.S) Dos primeiros textos a que eu chamava ingenuamente de POEMAS!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O país da tanga... a caminho da perfeição

Os dias vão passando, o calor faz-nos centrar energias em sol, praias e fins de tarde com os amigos na esplanada a ler um livro e a beber um fino (antes que hajam medidas severas para com as bebidas alcoólicas)...

As sondagens, após o debate da passada sexta-feira entre Pedro Passos Coelho e José Sócrates foi como que o despertar de corações e mentes menos despertas neste país à beira-mar plantado. Enquanto o povo se enganava com copos de tinto e umas bifanas à pala alguns políticos sentaram-se para trabalhar nos seus programas e combaterem arduamente no campo de batalha que é, a campanha. De um lado, o carisma de Pedro Passos Coelho, enviando recados para São Bento (ou por outras palavras, para a ainda casa de José Sócrates) em jeito de resposta às sempre agressivas e ressabiadas declarações do homem que durante seis anos liderou um governo cor-de-rosa, até porque, todos os sonhos que ele nos fez adormecer eram cor-de-rosa. Se por um lado havia as famosas bocas por convidar independentes para possíveis Presidentes da Assembleia da República, sedeada na capital, do outro havia o trabalho para tentar convencer os portugueses mais indecisos, e por isso mesmo, os mais cegos de que a alternativa apenas se centra à direita, na social democracia. Depois vieram as bocas, mais filosoficamente foleiras de Louças e afins sobre renegociação de dívidas e privatizações... Anda tudo preocupado com o final do desfile folclórico mas não vejo ninguém a tomar posição nos temas que verdadeiramente interessam a nós, portugueses.

O FMI entrou em Portugal para ajudar... O seu Presidente borrou a escrita e agora está "hospedado" num apartamento de luxo, a pagar cerca de dezassete mil euros por mês a uma empresa de segurança privada, a tal que também guardou Madoff nos States... As piadas começaram logo nessa noite com bocas ao FMI que afinal não ajuda, e sim, lixa (para não dizer uma palavra mais feia)... Chegaram, viram, analisaram e questionaram tanto que o Ministro das Finanças, ou melhor, o Ex ministro dizia:

- O próximo governo nem vai ter tempo de se sentar!

Estaria ele em estado alcoolizado ou estaria a pensar numa vitória do seu partido?
Na passada sexta-feira, aquando do debate entre Passos e Sócrates ficou bem claro que um estudou a lição, o outro cometeu o mesmo erro de sempre: tentar ser engraçado e atirar as culpas para a oposição de criar uma crise política. Os minutos no debate foram passando e com eles a cada vez mais clara posição dos dois na "cabeça" dos portugueses. Do lado de Sócrates continuam a chegar episódios que não abonam em nada a sua imagem (o pouco que restava) e a culpa, segundo ele, é do PSD... As sondagens, que até à bem pouco tempo mostravam uma clara vitória do PS (altura em que o país se encontrava em sono profundo) tiveram uma clara recuperação, registando-se no dia de ontem um empate técnico, e já no decorrer do dia de hoje, uma vantagem ligeira para Passos. Os restantes partidos continuam a sua caminhada para as eleições, sempre com a ideia de ganhar representantes.... para enfraquecer a força do PS, ou antes: A força de Sócrates e mais uns!

Faltam apenas quinze dias para as eleições, o país está a viver numa vaga de calor... com o sol amarelo, o mar azul, o coração cada vez mais laranja...

Rosas!? Só uma: a Mota!


Francisco Milheiro
25 de Maio 2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

Por entre passos...

O tempo corre lentamente
Os meus pés deixam na areia
Um inexplicável modelo...
De pé perfeito

Divago por entre dunas
Subo ao calçadão
Na esperança de encontrar
A outra parte do meu coração

Esqueço o passado...
Que me atormentou
Vivo o presente
E o que ele me reservou

Gaivotas pairam no ar...
O meu peito bate forte
Numa leve esperança
De te encontrar

Os sons reconheço
O meu coração?
Não está em saldo
Não o vendo a baixo preço

O calçadão está vazio...
No teu lugar
Está um espaço
Reservado e frio

Sinto ao respirar...
Divago ao luar...
Nesta praia onde encontrei
Por sorte, o teu olhar

Vou divagando...
Vou sentindo
Vou ficando
Vou fingindo...

Que te encontrei...
Quem sabe assim
Fique feliz não desde sempre
Mas até ao fim...

Ao longe...
Não acredito: uma visão
Só poderás ser tu
Neste final de verão

Vieste-me buscar...
O meu coração aquece
Porque sabe: chegou a hora
De perder o medo e amar...

Para poder voltar a sentir...
Quem sabe...
Para voltar
A sorrir



Francisco Milheiro
24 de Maio 2011

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Um retrato de Ti, Cidade!

É com alguma mágoa que digo
- Cidade, não te conheço
Todos sabem a tua medida
Mas ignoram o teu peso

Pessoas caminham…
Abraçadas pelo teu rio
Não conseguem esconder a emoção
Esboçando no olhar um sorriso

Não há quem te conheça
Verdadeiramente, só eu
Serás sempre um Porto de abrigo
Num mundo que é só meu

Trazes por vezes à lembrança
Histórias de outrora
No futuro tens esperança
Gritas “Porto” a toda a hora

No calmo rio
Deitas um olhar
A cada amanhecer
A cada entardecer

Cada esquina que desenhaste em ti
Traz uma história ou evoca memória
De personagens e guerreiros
Que escreveram a tua história

Em tempos de guerra
Deste carne, ficaste com as tripas
De resto, uma iguaria que ofereces
Às tuas imensas visitas

A Torre ergue-se bem no alto
Vigias para que nada aconteça
Não há ninguém no mundo capaz
De alcançar tamanha beleza

No teu secreto jardim
Digno de qualquer nobreza
Ergues-te sobre a cidade
Demonstrando com certeza

Que nele te passeias
Para te voltares a encontrar
E esconderes-te daqueles
Que teimam em te ofuscar

Percorro as tuas ruas
E perco-me nas ruelas
Escondo-me nos teus becos
Reencontro-me nas vielas

Para lá do trânsito que se gerou
Fica um obrigado a ti cidade
Que nunca…
Me abandonou!


Francisco Milheiro
22 de Maio 2011

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Melodia ao luar



Os minutos vão passando
Entre os sons de um piano
Que suavemente parece
Que vai cantando

Ao olhar o céu
Ao longe a estrela prometida
Peço um desejo, chamo por Ti
Mulher da minha vida

Suavemente divago
Por teclas brancas e negras
Achando que delas sairão
As soluções dos meus problemas

Por lá continuo a viajar
Por ti deixo-me ficar…
Por esta noite, na varanda
A sonhar

Acendo um cigarro
Fumo sem sequer travar…
Acho que esta sensação
Me leva sem querer, a viajar

A estrela,
Bem lá no alto de céu
Espera por um sinal
Que tenho a certeza que será teu

Posso estar aqui sozinho
Cantar para ninguém
Sei que lá no fundo
Pensas em mim… também!

A melodia acaba
Sem tão pouco me aperceber
Que o que criei, fi-lo
Porque tinha de ser

Não pensei tanto para a escrever…
Mas sei que demorei tempo demais
Para do fundo de tudo…
Te encontrar e dizer

O piano deixei-o aberto
Quem sabe à espera de um sinal…
Sei, porque me disse aquela estrela
Serei feliz no final…

O piano está aberto…
Na mesa uma garrafa vazia
Sei que um dia mais tarde
Encherás a minha vida

Sorrio porque terminei
No fim de tudo vou sorrir
Porque sei, que pela vida fora
Te amei…

Ao som de uma melodia
De uma simples canção
Que na calada da noite
Para ti criei

A olhar o céu…
À espera de um sinal…
Fiz, porque sabia
Que ia ser feliz no final…

Sentado ao piano
A olhar um retrato teu
Recebe um pedaço
De um coração meu


Francisco Milheiro
20 de Maio 2011

quinta-feira, 19 de maio de 2011

É só um pouco mais de azul



"... Desde a chama acesa em Viena..." é assim que começa mais um dos temas alusivos ao emblema azul e branco da cidade do Porto. Ontem, Dublin, capital da Irlanda foi a capital do NORTE de Portugal, frente a frente FC Porto e SC Braga defrontaram-se numa cidade onde se falou português com muito fairplay e convívio à mistura. O estádio, o belíssimo Lansdown Road não encheu na sua totalidade, mas quem lá esteve presente viveu os 90 minutos, foi bonito de se ver claques e adeptos das duas equipas a confraternizar antes e mesmo após o jogo. Nos bancos dois grandes homens da cidade invicta, dois grandes treinadores. Um jovem de 33 anos e um outro de 42. André Villas Boas começou a sua carreira como ajudante de Bobby Robson, nos tempos em que Domingos Paciência era o ídolo dos miúdos e graúdos nortenhos...

O tempo foi passando e com ele Domingos, eterno portista, decidiu pendurar as botas e iniciar-se nas lides de treinador tendo passado pela Académica, acabando no Sporting de Braga, e agora, de malas feitas para Alvalade. André Villas Boas regressou ao Porto anos mais tarde para ajudar a equipa técnica liderada por José Mourinho, que se sagrou campeão europeu em 2004, depois de ter vencido a Taça UEFA em 2003, em Sevilha frente ao Celtic por 3-2. A sua saída ficou marcada negativamente nos adeptos portistas, que ficaram tristes e chateados por não ter festejado a conquista do título europeu mais importante da história do clube.

O tempo caminhou ainda mais e Villas Boas apresentou-se no FC Porto, dizendo na conferência de imprensa de apresentação:

- Este clube está habituado a vencer desde 1893!

Tantos não acreditaram, mas os portistas ferrenhos e simpatizantes não torceram o nariz àquele que pode muito bem vir a ser, um Mourinho nº 2. Não se pode, é certo, comparar pessoas mas a "escola" que ambos frequentaram fazem-me acreditar que Mourinho não há só um.

A noite em Dublin foi mais um momento de glória, mais uma final para o clube, mais uma taça para a cidade. Não consta que a Câmara Municipal do Porto abra as portas para receber os campeões, isso já estamos habituados. Eles preferem a rua, o contacto mais directo com o POVO, até porque como diz a canção:

- O PORTO ESTÁ NA RUA!

Esta foi mais uma taça, este foi só mais um ano em que o futebol se vestiu de azul e branco. Desta vez não só a nível interno, como a nível europeu! A quem acreditou tinha razões para tal! Parabéns FC Porto!

Francisco Milheiro
19 Maio 2011

terça-feira, 17 de maio de 2011

Retrato frio XIV

Os últimos dias foram, no mínimo férteis em acontecimentos. No dia a seguir a ter saído da enfermaria n. 2 do hospital geral de santo antónio o meu lugar, a minha casa foi subitamente ocupada por um estranho ser que nada dizia... Aproximei-me com cuidado, não que o tamanho da criatura metesse medo, mas não imaginava a sua reacção à minha chegada.

- Quem és tu?
- Ruff, ruff!

Abanou a cauda para mim, lambeu-me a mão e cheirou todas as extremidades da minha pele a "céu aberto". As pessoas podem dizer que cada um de nós, os que vivem na rua que roubamos quem está ao nosso lado, mas no meu caso não foi assim: quando cheguei à minha casa, ali na praça d. João I o meu amigo e inseparável companheiro da sopa da noite, o Quim guardou-me os párocos objectos que ainda tinha... Tive tanto medo de perder a caixa que guardava a fotografia da Teresa e do meu filho... Acho que tinha mais medo disso do que morrer porque para mim a vida deixou de fazer sentido à muito, muito tempo... Como a vida muda em poucos minutos. Agarrei-me à caixa com as forças que tinha naquele momento e deixei que o bola de pêlo se encostasse a mim. Sentia o seu roncar e a respiração, senti-me pela primeira vez, neste tempo de rua, protegido. A noite passou, o dia era já uma realidade, ele, o Free dormiu aconchegado ao meu cobertor que trouxera do hospital, dado por umas auxiliares que ficaram a saber da minha triste história. Talvez a partir da noite de ontem ganhei mais um motivo para acreditar que nem tudo é mau na vida. Mariana, a mulher do homem que estava deitado a meu lado no hospital deixou-me no dia em que saí um envelope com dinheiro, dinheiro esse que gastaria apenas em comida, pensava que só comigo, mas agora também com o Free. Tomei uma meia de leite e comi um pão na pastelaria no centro bem perto dos aliados e comprei um saco de ração para cachorros, trazia de oferta duas gamelas. Sabia que ele não iria passar fome. Lembro-me que olhei para ele antes de lhe estender o prato com a ração, e disse:

- Sei que me vais proteger. Eu farei o mesmo por ti.

Latejou, e logo em seguida devorou o que tinha e bebeu um pouco de água. Peguei-o ao colo e num gesto decidido pus-me de pé, levei-o a conhecer a cidade e mostrar-lhe os perigos que se escondem nela. Abanava a cauda sempre que via um similar, ladrava para as pombas que pousavam na avenida. O tempo foi passando, quando demos por ela era hora de regressar. à sua espera estava mais uma pratada de comida para cão, para mim uma sopa e um pão no "coração da cidade". A noite, tal como a anterior, ficámos aconchegados um ao outro. O Porto ganhou outro encanto com esta surpresa totalmente inesperada.

Antes de fechar os olhos olhei o céu, dos sinos da Sé soaram as doze badaladas... E jurei a Deus, a quem sempre respeitei (apesar da partida) que iria fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para fazer do Free um cão feliz... Fechei os olhos e deixei-me ficar a ouvir o som da cidade, que aos poucos adormecia.

Porto, 23 Janeiro 2003

quinta-feira, 12 de maio de 2011

TDT - Uma realidade europeia

Pois é, o PEC 4 foi chumbado, o FMI está por aqui, ou pelo menos, esteve... As sondagens apontam para uma vitória laranja, mas não é isso que dá que falar. Hoje, 12 de Maio, dia em que milhares de pessoas percorrem os caminhos de Fátima a população de Alenquer, não creio que estejamos a falar de um concelho que nade em dinheiro, mas o que é certo é que quem quer ver televisão a partir de hoje, vésperas de dia de Milagre de Fátima, terá de comprar um descodificador que custa entre os 35 e os 78 euros. As televisões são antigas, as ligações artesanais, os canais apenas são 4 e às vezes nem isso. À DECO chegaram já umas quantas questões, uns pedidos de ajuda, e claro, os bancos e agências de financiamento esfregam as mãos para emprestar mais algum só para que as pessoas tenham acesso (a meu ver, deveria ser gratuito) a um "bem" como a televisão...

A privatização da RTP pode ser uma realidade a curto prazo, os novos canais em HD são uma realidade nos dias de hoje. Real parece também ser que dentro de dois anos só quem tiver televisão por assinatura (tv cabo ou meo) poderá ter acesso às notícias e programas que nos distraem do mundo de fantasia que é o nosso Portugal. O governo diz que isto foi uma medida implantada pela Europa, mas há uma questão que coloco: Quem irá ficar a lucrar com a TDT? O Estado pelo IVA que vai receber dos descodificadores ou as empresas que manufacturam / vendem televisores?!

Se a moda pega, haverá daqui a muito pouco tempo sistemas de WC incompatíveis com a maioria dos portugueses! A quem devo comprar o papel higiénico, Jumbo ou Continente?

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Retrato frio XIII

Não foi há muito tempo... em que olhei para alguém na rua, aqueles que se passeiam com a mão esticada e insultei-o, assim, bem lá no fundo de mim, a forma como essas pessoas viviam e abusavam da boa vontade dos outros, do sentimento de pena demonstrado a cada olhar... Os sem-abrigo são uma praga sem fim, era o que me vinha à cabeça, quando saía do estúdio às nove da noite para ir jantar qualquer coisa a casa lá estava um a pedir uma esmola para uma sopa.

- Para sopa ou para a droga?

Tantas vezes coloquei esta pergunta, depois ele dizia com um ar muito apagado e triste:

- Não é obrigado a dar! Só lhe estou a pedir uma moeda para poder comer uma sopa.

Sou sincero, não ligava nem sabia que existiam associações que forneciam refeições a troco de quase nada, não só no Porto como em Portugal. É estranho ter-me ocorrido este episódio... Hoje, sou um deles! As horas passam devagar, os minutos parecem meias horas, os meus pés inchados fazem-me quase perder as forças que ainda me restam para dizer algo, para dar mais um passo. A sopa que o "Coração da cidade" me dá todas as noites já não me alimenta, sinto falta do conforto de um lar, aprendi a fazer uma fogueira sem precisar de muito mas o calor que ela fornece é demasiado brando para as noites frias que se fazem sentir aqui, no centro da cidade. Nos tempos idos, em que o dinheiro não era para mim, um problema, decidi pegar no carro e fazer uma viagem com a máquina fotográfica debaixo do braço e fotografar o Porto desconhecido, aquele que não vem nos mapas e roteiros, vi pessoas a dormirem em condições desumanas, numa das ilhas pedi para entrar, fazendo-lhes prometer que não me roubariam e que no final da noite lhes ofereceria uma refeição quente a cada um... A vida de quem vive na rua ou tem uma casa a cair sem um mísero tecto para as abrigar é um verdadeiro flagelo, a presidência da Câmara nada mais pode fazer do que lhes oferecer uns cobertores e uma refeição quente todas as noites... Tentei saber o que faziam durante o dia, um deles, António, que me chamou mais à atenção, tinha sido funcionário de uma empresa de marcenaria, foi apanhado a roubar e ao invés de ir preso teve que sair sem nada... A vida foi piorando, as horas transformavam-se em dias, os segundos deixaram de fazer sentido... perdeu a mulher, que o abandonou por vergonha, a filha estava a estudar no estrangeiro e não regressara a Portugal. O tempo foi passando e António envelheceu, começou por arrumar carros perto do Hospital de Santo António, depois os meandros da droga falaram mais alto, o dinheiro fácil e o perigo, que tanto o entusiasmava (inexplicavelmente, dizia ele) anestesiaram-no e com isso chegou o consumo de drogas leves... A metadona acabou por trazê-lo de novo à "vida" mas nem por isso alterou o seu modo de vida: continuava a arrumar carros, fumava dois maços de cigarros por dia e vivia perto do Bairro do Lagarteiro, numa ilha...

Os dias foram passando, com ele os graus que se faziam sentir desciam em flecha. A sopa que me mantinha quente por momentos, normalmente às oito horas no "Coração da cidade" começava a não ser suficiente para a minha temperatura corporal se manter minimamente normal... Primeiro sinal de fraqueza, primeiro susto... Passavam alguns minutos da meia-noite, o ensurdecedor silêncio da cidade fazia-me pensar se seria uma data especial, mas não, tinha sido dado (contaram-me) alerta amarelo por causa dos ventos e baixas temperaturas... A minha casa, ali bem debaixo das arcadas do banco na praça quem desce Passos Manuel não se fazia sentir o vento, estava abrigado e por sorte, nessa tarde tinha conseguido guardar jornais (que me isolavam do frio) que encontrei no papelão a céu aberto mas o meu coração deu os primeiros sinais de fraqueza. O Quim chamou por ajuda nos Bombeiros que ficam ali ao lado, vieram dois homens feitos ver o que se passava. Viram-me a temperatura... A partir daí não me lembro de mais nada. Acordei, já o dia era uma realidade, e eu, estava deitado numa enfermaria do Hospital de Santo António. O diagnóstico levava-me a ficar, na melhor das hipóteses, uma semana. Tinha uma arritmia e uma leve pneumonia, o que me levaria a tomar medicamentos para controlar e claro, mudar de vida... Não quis saber de mais nada, o médico explicou-me a situação, só queria dormir confortável e quente... Há muito que eu não sabia o que era uma cama, essa semana passou a um ritmo vagaroso, não contava os minutos, de duas em duas horas olhava o relógio de parede que estava firmemente pendurado na minha frente. Quando começaram a chegar as visitas, uma senhora aproximou-se do marido, que estava ao meu lado em coma profundo, deu-lhe um beijo na testa e nada disse. Continuava concentrado nas forças que tinha de armazenar para continuar a sobreviver à vida na rua... Sem ter se quer trocado um olhar com essa senhora, acercou-se de mim e disse:
- O meu marido está assim há dois meses! Já perdi as esperanças que ele acorde... De maneira que quando venho aqui nada digo... Sento-me, olho para ele e revivo os momentos que passámos...
- Lamento... - disse!
- Posso perguntar porque está aqui?
- Pode! O meu coração decidiu pregar-me um susto e uma ligeira pneumonia causada pelo frio. Podia ter parado de vez, assim deixava de sofrer...
- O que precisa? O que sente falta?
- Eu? De mim! Da minha vida, do que fui um dia... Hoje, não sou nada! Há muito que deixei de ser... Divago pela cidade, conheço-a como ninguém, infelizmente...
- O que lhe aconteceu para ter chegado a esse ponto? Drogas...?
Sorri e disse:
- De facto a droga é um dos pontos de partida mas não... Gosta de música?
- Não percebi...
- Se gosta de música! Alguma vez ouviu falar de músicos clássicos do Porto?
- Sim, quem não se lembra de Mário Barreir...
- Sou eu! O que se sentava ao piano e esgotava as salas...
- Não acredito. Como pode ser o Mário Barreiros?
- Para alguns ainda existo, para outros, nou sou mais do que mais um sem-abrigo, sem destino no Porto...

Fez um silêncio que parecia não ter fim, desviou os olhos para o pátio interior do Hospital e ficou... distante por um tempo!
Enquanto ela, Maria, de seu nome fazia uma viagem eu recebia a "visita" de uma auxiliar que me trazia o almoço: uma sopa quente, um esparguete com carne, uma peça de futra e um pacote de bolachas... Saboreei cada colher, cada garfada daquela que muitos consideram intragável comida de hospital... Maria olhava para mim com um ar ainda distante... Nos seus olhos podia ler "como é possível?". Nessa tarde o seu esposo, companheiro de sempre dera um sinal... Tinha mexido o dedo anelar onde ainda tinha a aliança com o nome de Maria. Foi levado da enfermaria para uns exames... Eu mantive-me imóvel, a olhar o pátio do hospital... e a viajar... sem sair dali!

A noite caía, o meu corpo mantinha-se quente como há muito não sentia... Fechei os olhos e deixei-me dormir, depois de um chá quente e umas bolachas. Deus não me quis levar ontem... Mas deu-me abrigo! Os sonhos chegaram, e com eles a esperança num futuro novo. A rua era uma realidade que por dias deu um intervalo... O tempo foi passando, a vontade de construir um futuro diferente também...

Porto, 10 de Janeiro de 2003

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Frontalidade Moralmente Invertida

Os dias vão passando tranquilamente e a um ritmo vagaroso neste paraíso à beira-mar, bem perto de uma tal falência técnica, vulgo, banca rota. As notícias sobre subida de taxas de juro, a dívida soberana de Portugal, os milhares de milhões de Euros esbanjados para entidades públicas e bancos fazem-nos suspirar… a nós, portugueses, resta-nos suar a trabalhar (se for caso disso), por conta de outrém ou por risco próprio investir na nossa vida futura. A entrada do FMI em Portugal foi notícia em tudo o que era serviço noticioso. Aterraram em Lisboa, no já quase (por sorte!) velhinho Aeroporto da Portela, tinham um ar cansado e para tal pararam na primeira “estação” e beberam uma refinada e bem portuguesa cerveja. Ao menos isso, algo em que somos bons. De poucas palavras e com um aspecto de quem saiu há poucos dias de uma Universidade com o mestrado em boas maneiras e finanças entraram em táxis. Porque não foram num bus turístico? Sempre seria melhor: apreciavam o bom que há em Portugal, alguns elefantes brancos: a ponte Vasco da Gama que sofreu uma “pequena” derrapagem, o famoso recinto fantasma da Expo 98, os estádios do Euro 2004, e claro, a singela casa de um tal Sócrates, Zé para os amigos. Ao entrar no táxi, um dos mais faladores homens da Comissão Europeia, respondeu a um jornalista: Ficaremos o tempo que for preciso. À custa de quem? Da EU ou de Portugal? É que se formos por aí estamos bem, mas bem tramados.
Os segundos e minutos passam nas cidades, milhares de romenos, ucranianos, ciganos e afins povoam as estações de correio para levantarem as suas pensões e subsídios de inserção social (coitados! Já fizeram muito por nós!) e depois falam mal do Estado, que é uma bela merda, que não lhes dão apoio. Enquanto isso se passa, as altas entidades gastam milhares de euros POR DIA em almoços e despesas de representação, existem secretários de Estado, auxiliares de secretários de Estado e auxiliares dos auxiliares, 5 motoristas para um só Ministro, sendo um deles o CHEFE, ou seja, faz menos e ganha mais! Enquanto Portugal adormecia num sonho cor-de-rosa contado pelo então Zé do Povo, o Sócrates a oposição lembrou-se de acordar os portugueses, mas já era tarde. Estava o Presidente sossegado em casa, no lindíssimo Palácio de Belém e o Zé foi lá pedir a demissão. Acho de mau tom! Em Portugal, o serviço público tem horário de funcionamento. Quem é ele para pedir demissão àquelas horas da noite!? Ah! Já me esquecia, é o Zé, não é um qualquer. A licenciatura obtida a um dia missal, o curso de inglês no BBC School da Rechousa não lhe valeu… Chegou a Bruxelas e disse aos amigos: Ai! Mi neime is Jose end i lixated the portugeses! Tal e qual! Isto traduzido para Português é:
- O meu nome é Zé e desde criança sou um doce! Portugal está óptimo, vós é que sois uns pessimistas! Olhem à minha volta. Os meus amigos todos têm carros de alta cilindrada, temos casas no centro da capital de 800 mil e só ganhamos 16 mil ao ano. A minha mãe era auxiliar de limpeza doméstica e ganha 3 mil de reforma.
O FMI chegou… e pelo que se sabe, está de malas aviadas. Já vieram cumprir o seu dever: ajudar-nos a sair da cova… mas estávamos tão aconchegadinhos que nos vai dar pena sair dela! Pelo menos não víamos a luz do dia, mas também a noite para nós era um sacrifício… Há muito que estamos a dormir. Em breve teremos eleições, em breve se tudo correr como previsto teremos um novo governo, desta vez com menos pastas e ministros mas que trabalhem de Sol a sol… O FMI chegou, viu, riu e no fim de tudo emprestou… Vai agora passar o cheque. Eu, pelo sim pelo não, vou esperar, ver… e espero com esta alma socialmente democratizada VENCER! Só assim sei ser! Ao contrário dos outros que chegaram, viram e enterraram. Chegaram a ponderar colocar o país à venda no jornal com o seguinte anúncio:

- Vende-se país. Vistas sobre Atlântico. Óptimas relações com Venezuela. Excelentes vias de comunicação. Mais alta tecnologia!

É caso para dizer: Se a minha frontalidade fosse moralmente Invertida talvez conseguisse viver num país como este, um país de maravilha!

Francisco Milheiro
5 de Maio 2011

terça-feira, 3 de maio de 2011

Retrato frio XII

Há uns tempos atrás surgiu a possibilidade de fazer uma viagem, daquelas que só se fazem uma vez na vida, a tal que entitulamos de A Viagem. Lembro-me que estava nervoso quando me dirigi à zona industrial do Porto para ir buscar a autocaravana que estava reservada em meu nome. O objectivo da viagem era sobretudo para descobrir coisas que não sabia sobre mim, para encontrar respostas a questões que jamais conseguiria responder com o barulho dos carros, mensagens e chamadas nos telemóveis, almoços e jantares com amigos ou até mesmo sozinho... Apenas eu e o meu mundo. A viagem tinha data de regresso mas não teria ponto de chegada, a não ser, claro, o Porto. A ideia de viajar sozinho não era de todo a minha opção primária mas considerava importante convidar alguém que me conhecesse minimamente para que também pudesse usufruir das pequenas descobertas... A viagem decorria sem problemas, nem os sobressaltos nas estradas do interior me fizeram pensar em voltar atrás. A primeira pergunta que do nada surgiu foi sobre as opções de vida que tomara até então. Seria eu a pessoa indicada para responder a isso? Estaria a minha família preocupada por não ter enverdado por medicina ou engenharia? Terei eu tomado a decisão correcta em ser músico e poeta nas horas vagas? Em tempos alguém me ensinou que devíamos fazer aquilo que mais gostamos, aquilo que nos faz acordar com um sorriso... A música fazia-me feliz, a poesia fazia-me sonhar e ao mesmo tempo viver. Então que dúvidas eram essas?

Nessa viagem, a Carla e o Vítor fizeram-me companhia, combinaramos esta viagem uns meses antes já depois de uns copitos a mais mas amplamente sóbrios para traçarmos esse "plano de festas"... Carla era psicóloga, vivia a mente humana com uma paixão imensa, escrevia sobre os doentes e estava a escrever um livro sobre aventuras no divã. Vítor um despreocupado médico dentista, o homem das mãos d'ouro. A primeira paragem foi San Sebastian e ficámos logo apaixonados pelo lugar. Olhei em meu redor, respirei o ar puro da montanha e pensei: sou um felizardo! Ele olhou para mim e disse:

- Obrigado Mário pela noite de copos que nasceu esta viagem! Sabes o que falta aqui para tudo ser perfeito?
- O quê?
- O teu Steinway - e sorriu para mim.

Ergui a cabeça e disse:
- Trouxe o roland, vou ligá-lo à corrente.

Foi lindo aquele momento, aquela noite: nós os três, onde ninguém nos conhecia a cantar despreocupados... Estávamos cansados da viagem mas eufóricos no que respeitava à aventura. O dia seguinte reservámos para uma descoberta mais radical, calçámos as botas e fizemos um percurso pedestre com os nossos pés quase a beijar o calmo riacho. O sonho desde há dois dias passara a ser uma realidade!

À noite, quando eles já dormiam sentei-me no exterior da caravana na minha cadeira de campismo, a olhar o incrível céu estrelado da montanha, a fazer contas à vida. Quem sabe se a primeira questão já não tivesse uma resposta: Seria eu, alguém feliz?

- Não tenho motivos para não ser.

As questões foram surgindo à velocidade da luz, bem diferente da que escolhemos para viajar: íamos à descoberta, íamos sem tempo para nada... As horas foram passando, as paisagens encantavam. Praga era já uma certeza, só tínhamos uma dúvida para esclarecer: seria ela tão bela como Kafka a descrevera nos seus livros?

Não sei se ela existe como a vejo ou se o meu coração a constrói aos poucos... A resposta vou encontar assim que chegar...

Mário,
Setembro 1996, no asfalto entre Bordeaux e Paris

sábado, 30 de abril de 2011

Retrato frio XI

Foi a segunda vez na minha vida, a segunda como sem abrigo neste Porto sem sentido que fui para a esquadra da Polícia, no caso, a décima sétima esquadra, ali bem perto da Avenida da Boavista... Estava com o António na rua do costume (parece mal dizer isto) e chegou a polícia em duas carrinhas e puseram-nos numa espécie de uma "jaula", fui mais uma vez identificado e voltaram a não acreditar quem eu era, já não tenho bilhete de identidade. Esse perdi-o, deixei-o em qualquer lado, até porque infelizmente já não sou ninguém... Já fui!

Senti-me tão mal quando entrei naquele sítio ermo e frio, vi pessoas que nunca pensei ver, cruzei-me com polícias que conhecia mas que não me dizem nada, olham-me com desdém, como se eu fosse o maior dos criminosos, o mais procurado dos terroristas... Eu! Que não faço mal a ninguém, que até há bem pouco tempo enchia salas de espectáculo e cheguei a dar uns autógrafos no meio da rua como se fosse uma estrela de Hollywood. A estrela que brilha neste momento é a que está no céu, a que eu vi ontem à noite quando me deitava nas arcadas frias de uma praça no centro. Voltaram-me a fazer as mesmas perguntas, o que estava ali a fazer, estava a mando de quem, para que é que estava a arrumar carros, se estava a ganhar dinheiro para sopa ou para droga... RAIOS! Já disse que não me drogo, não estou a mando de ninguém, sou mais uma das muitas vítimas nesta cidade e neste país onde só reina quem é artista ou vigarista. Voltei a dizer que tinha sido músico mas a vida me deu uma bofetada, ao que o chefe Martins dizia:

- Isso é o que vocês dizem todos! Não passam de um chulos! Quando é que vais buscar o teu rendimento?

- Não tenho rendimento, não tenho nada! O que ganho gasto em comida, café e tabaco, que infelizmente voltei a fumar...

- Pois! A vida tem destas coisas...

Acabei por ficar detido algumas horas, quando voltei a ver a luz do dia desci até à beira-rio e chorei, chorei, chorei.... Tinha vergonha de me ver ao espelho, queria muito suicidar-me mas tenho medo para o fazer! Até nisso sou covarde! Sentei-me bem perto de um casal de japoneses, que exibiam as suas máquinas Canon com objectivas xpto... Ai! O que me passou pela cabeça: roubar para ter um tecto por uns tempos em Custóias, estava mesmo desesperado... Mas depois pensei melhor e deixei-os ficar por ali a contemplar a beleza daquela que já considerei ser "a minha cidade". Hoje considero a "minha casa". Estava tão sereno junto ao rio que me deixei ficar por ali até ao entardecer, subi a rua que ia dar à Estação de S. Bento e comi um hamburguer (mais uma vez...) com vista para o edifício da Câmara. Ainda estava a pensar onde ia dormir... Lembro-me do António me ter falado do "Coração da Cidade" que servia uma refeição quente uma vez por dia, que eu devia ir lá para comer uma refeição minimamente decente e buscar um cobertor para estas noites... que se esperam muito muito frias! Ainda não foi desta que fui ao "Coração da cidade" mas amanhã vou... Estará lá a minha salvação? Adormeci uma vez mais perto do Rivoli, não estava muita gente a assistir ao teatro, ou então saíram por outra porta que eu desconheço... Duas almas caridosas tiraram da carteira um euro e pensei:

- Já vai dar para tomar o pequeno-almoço! Uma boa refeição terei de fazer por dia, e eu dou muita importância ao pequeno-almoço...

Mas hoje, sinto-me um pouco mais em baixo, triste porque é hoje o dia de aniversário da minha Teresa... Onde andarás? Só de pensar que o ano passado fomos reviver uma das primeiras viagens que fizemos: Nova Iorque... Foi nessa viagem que eu perdi a cabeça e te levei a um concerto ao Carnegie Hall, onde actuou brilhantemente passado uns anos a Mariza, essa incrível e inconfundível voz do fado. Nunca mais me esqueço: gastei trezentos e cinquenta dólares nos bilhetes, fomos ver um concerto a quatro mãos: Mikhaïl Pletnev e Alexander Mogilevski. Foram momentos únicos... foi um sonho tornado realidade: ver um concerto de dois conceituados pianistas numa das melhores salas de espectáculo do mundo. Foi como uma segunda ou terceira lua-de-mel, foi mesmo muito bom: fomos só nós... levei a minha Canon e tu eras a minha modelo. Mal sabia eu que passado um ano estava nesta situação... Em que é que falhei Teresa? Podes-me dizer? Dá-me um sinal para que eu possa deixar de ser o actor principal nesta história... prefiro estar no lado do público, ao menos assisto à desgraça do lado de fora... Mas quem é que disse que a vida era justa?

Só os tolos é que acreditam nessa frase! Há tempos li um romance de um conceituado escritor português que se entitulava de "O amor é para os parvos"! Hoje pretendo mudar esse título para: "A vida de rua é para os que foram parvos...".

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Um sorriso... por entre a sombra

A luz que permanece
À entrada do meu quarto
Ilumina, um momento…
Um retrato

Na sombra criada pelas paredes
Viajo por entre pensamentos
Penso que o teu sorriso
Foi o maior dos meus doces tormentos

Sinto que a sombra
A imagem de ti reflectida
Na parede é tudo
O que preciso no meu dia

Sonho acordado
Com um doce
Ao mesmo tempo
Terrível pecado

Sinto o teu respirar
Ali deitada no leito
Um forte abraço
Para te sentir no meu peito

A luz que em breve
Faz-me acreditar
Que contigo vou sonhar
Num sonho feliz e leve

Todos os segundos que permaneço
Naquele, que um dia foi teu quarto
É apenas para olhar
O teu sorriso no retrato

Na sombra do quarto…
No silêncio da madrugada
Ao olhar o teu sorriso…
Sinto-te Mulher Amada

No silêncio da noite
Ouço um sorriso teu
Na calada da noite
Recebe um beijo meu

Que te encontre
A dormir…
Num sonho onde olhas
Para mim a sorrir…

Por lá da sombra
Que a lua faz em mim
Planto esta rosa
No meu jardim


Francisco Milheiro
12 Abril 2011

Retrato frio X

Os dias foram passando, com ele os graus que se faziam sentir desciam em flecha. A sopa que me mantinha quente por momentos, normalmente às oito horas no "Coração da cidade" começava a não ser suficiente para a minha temperatura corporal se manter minimamente normal... Primeiro sinal de fraqueza, primeiro susto... Passavam alguns minutos da meia-noite, o ensurdecedor silêncio da cidade fazia-me pensar se seria uma data especial, mas não, tinha sido dado (contaram-me) alerta amarelo por causa dos ventos e baixas temperaturas... A minha casa, ali bem debaixo das arcadas do banco na praça quem desce Passos Manuel não se fazia sentir o vento, estava abrigado e por sorte, nessa tarde tinha conseguido guardar jornais (que me isolavam do frio) que encontrei no papelão a céu aberto mas o meu coração deu os primeiros sinais de fraqueza. O Quim chamou por ajuda nos Bombeiros que ficam ali ao lado, vieram dois homens feitos ver o que se passava. Viram-me a temperatura... A partir daí não me lembro de mais nada. Acordei, já o dia era uma realidade, e eu, estava deitado numa enfermaria do Hospital de Santo António. O diagnóstico levava-me a ficar, na melhor das hipóteses, uma semana. Tinha uma arritmia e uma leve pneumonia, o que me levaria a tomar medicamentos para controlar e claro, mudar de vida... Não quis saber de mais nada, o médico explicou-me a situação, só queria dormir confortável e quente... Há muito que eu não sabia o que era uma cama, essa semana passou a um ritmo vagaroso, não contava os minutos, de duas em duas horas olhava o relógio de parede que estava firmemente pendurado na minha frente. Quando começaram a chegar as visitas, uma senhora aproximou-se do marido, que estava ao meu lado em coma profundo, deu-lhe um beijo na testa e nada disse. Continuava concentrado nas forças que tinha de armazenar para continuar a sobreviver à vida na rua... Sem ter se quer trocado um olhar com essa senhora, acercou-se de mim e disse:
- O meu marido está assim há dois meses! Já perdi as esperanças que ele acorde... De maneira que quando venho aqui nada digo... Sento-me, olho para ele e revivo os momentos que passámos...
- Lamento... - disse!
- Posso perguntar porque está aqui?
- Pode! O meu coração decidiu pregar-me um susto e uma ligeira pneumonia causada pelo frio. Podia ter parado de vez, assim deixava de sofrer...
- O que precisa? O que sente falta?
- Eu? De mim! Da minha vida, do que fui um dia... Hoje, não sou nada! Há muito que deixei de ser... Divago pela cidade, conheço-a como ninguém, infelizmente...
- O que lhe aconteceu para ter chegado a esse ponto? Drogas...?
Sorri e disse:
- De facto a droga é um dos pontos de partida mas não... Gosta de música?
- Não percebi...
- Se gosta de música! Alguma vez ouviu falar de músicos clássicos do Porto?
- Sim, quem não se lembra de Mário Barreir...
- Sou eu! O que se sentava ao piano e esgotava as salas...
- Não acredito. Como pode ser o Mário Barreiros?
- Para alguns ainda existo, para outros, nou sou mais do que mais um sem-abrigo, sem destino no Porto...

Fez um silêncio que parecia não ter fim, desviou os olhos para o pátio interior do Hospital e ficou... distante por um tempo!
Enquanto ela, Maria, de seu nome fazia uma viagem eu recebia a "visita" de uma auxiliar que me trazia o almoço: uma sopa quente, um esparguete com carne, uma peça de futra e um pacote de bolachas... Saboreei cada colher, cada garfada daquela que muitos consideram intragável comida de hospital... Maria olhava para mim com um ar ainda distante... Nos seus olhos podia ler "como é possível?". Nessa tarde o seu esposo, companheiro de sempre dera um sinal... Tinha mexido o dedo anelar onde ainda tinha a aliança com o nome de Maria. Foi levado da enfermaria para uns exames... Eu mantive-me imóvel, a olhar o pátio do hospital... e a viajar... sem sair dali!

A noite caía, o meu corpo mantinha-se quente como há muito não sentia... Fechei os olhos e deixei-me dormir, depois de um chá quente e umas bolachas. Deus não me quis levar ontem... Mas deu-me abrigo! Os sonhos chegaram, e com eles a esperança num futuro novo. A rua era uma realidade que por dias deu um intervalo... O tempo foi passando, a vontade de construir um futuro também...

Porto, 10 de Janeiro 2003