quarta-feira, 27 de julho de 2011

Feliz dia Nacional dos Avós

Não é por hoje ser dia nacional, não precisa de ser um dia especial para me lembrar de Ti, de Vocês (que cá estão ou já partiram para outra dimensão). Ficou tanto por dizer que me apeteceu escrever. Na calma da noite, apenas com o som de um piano rouco ao fundo da sala, faz-me voar para longe, bem longe.... O tempo passa tão depressa e nem um obrigado pudemos dar, adeus infelizmente disse e sabia que não era um "Até daqui a uns dias". Tenho pena de não ter nascido há mais tempo, assim não escrevia estas palavras

"Ficou tanto por dizer!"
"Faltaste-me neste momento importante..."

De nada valem as palavras se não forem sentidas. De nada valem as lágrimas se não forem reais... A saudade! Essa, é real, o tempo que passei ao teu colo, a conversar como se fôssemos dois amigos, nesse dia despias o fato e partilhavas a sabedoria de outrora, contavas-me de forma apaixonadamente verdadeira aventuras e desventuras do teu tempo.

Hoje é o teu dia, o VOSSO, eu apenas sou um dos muitos netos que há no mundo. Hoje, falo por mim e por todos os que me rodeiam:

- Avós, têm um dia FELIZ!


Francisco Milheiro
26 Julho 2011

Se nada sei... a culpa foi tua

Se pouco ou nada sei
Sobre o tal do amor
Foi porque não soubeste ter
Um terço da minha dor

Se pouco ou nada sei
Do que tu chamas de amizade
Talvez tivesses gostado
De mim, um pouco mais do que metade

Se me quiseste ensinar
A gostar de alguém que não de mim
Digo-te que esse tal de amor
Iria ter um breve fim

Se me quiseste ensinar a chorar
Digo-te obrigado
Porque me fizeste ficar
Com um brilho no olhar

Se soubesse decifrar
O que por aí vinha
Jamais teria feito
De ti uma raínha

Não te teria levado ao Coliseu
Nem receberias
Metade...
De algo que é meu

Entreguei algo
Que não julguei ter
Mas vou ser feliz
Porque só assim sei ser

Aprendi que chorar
Faz parte da aprendizagem
Mas não esperes de mim
Covardia, apenas coragem

Vou passar por ti
Não te vou reconhecer
Foste apenas alguém
Que me fez escrever

Com raiva
Falando sobre o amor
Não te conheço
É o que sei escrever, de melhor


Francisco Milheiro
23 Julho 2011

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O Menino, o piano e a Vida

As mãos tremem-me como se estivesse em cima de uma corda para passar até ao outro lado da maior cascata do Mundo. Não que o palco me assuste, aliás, se não fosse ele não sei o que seria de mim. As horas passam devagar até à minha entrada, o barulho das palmas acalmam-me e preenchem a minha pequena e pobre alma. Não sei como vim aqui parar, até há bem pouco tempo era mais um menino pelas zonas jotas da minha cidade, aprendi a viver com o perigo, com a droga dos meus irmãos e com a vida dura dos meus pais. Mas cresci, tanto por dentro como por fora. O meu metro e oitenta e esguio corpo fazem-me deslizar pelo palco na direcção daquele que durante muito tempo foi o meu amigo, meu confidente.

Há momentos em que penso, quando percorro os quilómetros entre a cidade da minha vida e os vários palcos e não consigo imaginar o que seria de mim se não tivesse conhecido a minha paixão, a Música. Há tempos vi o filme de um pianista no tempo de guerra, o mundo estava concentrado nas notícias de mortes e feridos e ele, apenas se interessava pelos sons que ecoavam na pequena sala do seu apartamento. Os sons, de uma certa forma anestesiavam-no do mundo real, e enquanto divagava pelas teclas ainda brancas do seu Straus não via mais nada a não ser o seu mundo perfeito, o tal que não existia do lado de fora da janela. Sinto sempre a entrada em palco como se fosse a primeira, recebo com carinho e alguma admiração as palmas que ecoam na sala escura, a música é a minha vida... a partir de hoje. Entendo agora o esforço que os meus pais fizeram para me darem o primeiro instrumento, um teclado a pilhas e que ainda hoje guardo no meu quarto. Os sons... os sonhos que tinha sentado na minha velha cadeira de palha na pequena janela do meu quarto olhando Lisboa e os seus prédios altos, os seus centros comerciais e as suas lojas. Lojas essas, onde nunca teria dinheiro para comprar o que quer que fosse. Mas a minha vida foi mudando, o meu mundo foi-se criando à custa das teclas que diariamente tocava. Hoje vivo para tocar, e toco para viver. As horas que passo diariamente são ainda tantas que me foi impossível encontrar o tão esperado amor, desde há uns anos que o meu amor é o piano... e sinto-me bem com isso.

Os minutos estão a aproximar-me cada vez mais dos sons do meu amor. Sinto um ligeiro tremor de pernas mas isto é mesmo só antes de entrar. Esta é a minha vida, e vou lutar para no fim de tudo dizer:

- Obrigado Pais, pelo que me deixaram fazer da vida!


Francisco Milheiro
25 de Julho 2011

segunda-feira, 11 de julho de 2011

"Por ti resistirei"

Olá meu Amor,

Se estás a ler esta carta é porque te encontras bem. Não sei se o sítio onde estás a ler é o lugar para onde enviei, acho que escolheste (se bem te conheço) uma rocha bem junto ao mar e sentir a brisa e quem sabe recordares-te de mim e do nosso secreto lugar. Sabes? É tão estranho estar meio mundo distante de ti, saber que a banda sonora que ouves não é a mesma que a minha, são bombas e tiros. O meu coração está suficientemente preenchido por ti para sobreviver a esta tua ausência mas tenho medo... Há dias acordei com alguém a tocar à porta, o meu coração sobressaía do meu peito, tive tanto medo que fosse alguém teu amigo a trazer-me uma má notícia... mas não, era a mulher de um ex-companheiro teu que partiu, do sítio onde estás.

Ainda esta semana estive no nosso esconderijo, liguei a nossa música e encostei-me a chorar a um canto, o tal em que me beijavas daquela forma louca e dizias:

- O nosso amor é mais forte que a guerra! Por ti resistirei!

Não podia deixar de acreditar em ti mas tinha tanto medo que a minha concentração para trabalhar não era, nem por sombras a mesma de há uns meses. Temo por mim, por não te ter, temo por ti por não me voltares a ver. Sei que o nosso amor é verdadeiro e resistirá no espaço e no tempo mas não confio na guerra onde te encontras. Tenho lido tantas histórias no jornal e na televisão, de soldados que partem e já não regressam. Será esse o teu caso? Serás tu apenas mais um no meio de tantos que morrem para salvar a honra de uma pátria? Mas que pátria é esse? Que mundo é esse que precisa de uma guerra. Tenho tanto medo de voltar a estar sozinha, não me imagino sequer a apaixonar por alguém que não sejas tu. Promete que quando voltares trazes-me um sorriso no olhar e um beijo guardado durante este tempo. Prometes-me pedir novamente em namoro? E casamento, será esse o teu sonho? Será esse mais um ponto em comum? Amo-te tanto, e vou sobreviver ao tempo. Imagino-me (e gosto) de cabelos brancos contigo a meu lado na nossa praia a falar sobre os tempos de guerra e de como foste para mim, um Herói.

A caneta que estou a usar para te escrever sente-se gasta, sinto-me cansada, com as lágrimas a cairem sem controlo pelo rosto porque apenas penso, em Ti. Voltas para mim? Resiste apenas mais um pouco, lembra-te do que fizemos, do que fomos e do que ainda nos falta viver! Por ti resistirei, espero o mesmo de ti! Recebe nesta minha fotografia um beijo do tamanho do mundo. Até breve!


Resposta

Olá meu Amor,
O tempo aqui passa a voar, literalmente! Não tenho tempo de fazer amigos nem de confraternizar muito. Ainda ontem bebi-a uma cerveja com uns companheiros, hoje morreram os dois vítimas de um ataque surpresa. Gostei de ler algo teu, aconchegaste-me o coração, deste-me a força que preciso para sobreviver com um sorriso, apesar do cenário devastador que vejo ao acordar. Tenho pensado muito em Ti e em tudo o que fomos e o que quero ser quando regressar aos teus braços, já não falta muito meu Amor! Já não falta tudo! Não faz muito tempo que ouvi uma conversa dos meus generais que a guerra está prestes a acabar, se tudo correr bem o Natal passarei a teu lado e no ano novo brindaremos a uma nova vida, essa sim, recheada de Bons Momentos e isenta de guerras e conflitos. A praia onde me refugiei para ler as palavras que me escreveste, não a escolhi à toa, é relativamente parecida com a nossa, aquela tal em que nos perdemos vezes sem conta e entregámo-nos ao amor naquelas dunas. Vivíamos cada verão como se fosse o último, cada segundo era o momento perfeito para um beijo, cada minuto era aproveitado para dizermos um Amo-te, para darmos um mergulho naquela água fria mas que nos aquecia, tal era o amor. Aproveitávamos o sol até não o vislumbrar-mos, as estrelas eram já uma realidade quando te deixava em casa no meu carro descapotável e regressava ao quartel. O nosso amor resistiu a várias intenpéries, esta é apenas mais uma. O teu amor alimenta-me, saber que esperas por mim faz com que o tempo passe de forma célere. Acho que este afastamento não foi por acaso, não foi pelos países estarem em guerra e eu fazer parte de uma elite que o nosso amor vai acabar.

Todos os dias ao deitar olho e beijo a foto que me deixaste guardada no bolso das calças quando me abraçaste no aeroporto e me disseste ao ouvido:

- Amo-te! Resiste por mim!

Foi dos abraços mais longos e para mim, dos mais perfeitos que dei e recebi. Se fosse um momento de filme imaginá-lo-ia como a cena final de um filme de guerra quando o guerreiro volta para a sua amada. Talvez o tempo se encarregue de perceber que a guerra não leva a lado nenhum e eu possa voltar para o teu lado, coisa que aliás, não devia ter acontecido: um afastamento. Não quero, meu Amor, que duvides do meu amor por ti e que SIM, resistirei e te pedirei de novo em namoro. O nosso amor não merece morrer, e sim, renascer! Nos dias de fascina olho o céu e nele imagino os teus olhos a zelarem por mim, a apontarem-me o caminho longe do perigo. As horas passam devagar, sinto-me cansado mas o teu Amor carrega-me as baterias.

Tenho medo de contar o tempo em que não foi possível estarmos juntos, mas quando regressar para os teus braços não te vou largar. Vê isto como umas férias minhas, imagina que não estou onde estou e que daqui a uns dias me irás buscar a um aeroporto normal cheio de gente com vontade e sorrisos para férias. Sinto também as lágrimas caírem-me pelo rosto ao te escrever estas palavras, não tenho problemas em dizer que choro cada vez que recebo uma carta tua. Já perdi a conta às noites que me perco nas tuas palavras, no teu conforto traduzido em letras.

O nosso Amor vai resistir, e eu tornar-me-ei forte a cada minuto que passar porque sei que vais estar comigo no teu pensamento. E esse, não duvides, é o meu Alimento! Está na hora de enxaguar as lágrimas e escrever-te as útlimas palavras:

- Guarda esta carta contigo meu Amor, nela vai mais um pouco do meu coração!


P.S) Uma abordagem muito pessoal do "Por ti resistirei" de Júlio Magalhães. Parabéns Júlio
Francisco Milheiro
10 de Julho 2011

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Talvez aprenda...

Talvez hoje
Só me apeteça ficar
Até o sol cair
Lá ao fundo, no mar

Talvez hoje
O som da onda a bater
Seja suficiente
Para voltar a ser

Talvez hoje pare
Para me ouvir respirar
Talvez hoje sinta
Vontade de estar...

Entre os olhos postos
Numa folha de papel
Intervalo para olhar os cabelos
Dela, em cor de mel

Talvez hoje anoiteça
Sem eu dar por isso
Talvez porque hoje
Tenha perdido o juízo

Talvez pare
Um pouco para ouvir
O mar mostra
O que estou a sentir

Lanço o olhar
Sem me aperceber
Que para lá do horizonte
Vou tentar ver

Talvez pare
E fique a sentir
Que por ti parei
Para omitir

O que não soube dizer
Sabia que no fundo
Esse jogo
Ia perder

Talvez hoje fique
Sem saber o que falar
Quem sabe pare o tempo
E o faça recuar

Recordar o seu cabelo
Da cor de mel
E de vez em quando
Escrever no papel

- Ontem
Talvez te tenha amado
Hoje sei...
Estou vivo e ACORDADO

Não sei
Se algum dia senti
E vislumbrei
O que achava de ti

Talvez ter-te conhecido
Foi um erro
Mas já acordei
Desse pesadelo

Por tua causa
Chorei...
Mas no fim
Acordei

Sei que não posso
Apagar o que é passado
Ouxalá pudesse...
Não te teria amado

Hoje sei
Sem na altura saber
Que para amar
É preciso ser...

Correspondido
Para no fim dizer
Vivi uma história
Com um final fudido

Viro a página
Para um novo capítulo começar
No fim escreverei
Foi a primeira mulher que amei

Vivo o presente
De forma serena e feliz
Vou agora aprender a amar
Foi isso que sempre quis


Francisco Milheiro
7.7.2011

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Retrato Frio XV "Luz da lua"


Acho que a luz do meu "quarto" não me convida muito à leitura muito menos à escrita. Mas li, algures há muito tempo que quando escrevemos criamos algo que é só nosso, algo que existia em nós. É estranho ter criado textos, músicas e poemas sobre a cidade que tanto amo em lugares fechados, quentinhos no Inverno e frescos no Verão... e hoje esteja a tentar escrever nos espaços em branco do jornal do ano passado que encontrei na rua, aqui no meu "quarto" com vista para o Rivoli, nas arcadas do Banco.

É estranho pensar que já tive, ali por trás do balcão alguém engravatado dizer:

- Que bom sr. Mário vê-lo por cá! Em que posso ser útil?

Hoje não sou senhor, nem sequer Mário... Nem eu próprio me reconheço. Hoje voltei ao "Coração da cidade" depois da minha estadia em Medicina I do Hospital de St.º António. Tive pena de deixar o meu novo companheiro na rua... mas fiquei a pensar: ele nunca conheceu outra casa. Nasceu perto, imagino eu, de um balde do lixo, passado alguns dias encostou-se aos meus párocos adereços e por lá ficou. Pedi a chave ao segurança da casa de banho, nela tomei um banho quente e desfiz a enorme barba. O rosto já não era para mim tão nítido, os anos em que abusei da maquilhagem podem ter contribuído... mas a vida que levava (infelizmente) levou com ela a minha imagem. As senhoras que tratavam da comida ficaram felizes por me ver. Uma delas dizia:

- Tive medo de não o voltar a ver. Gosto tanto de si!

Aquelas palavras por mais simples que sejam encheram-me de calor a alma. Vim à porta para saber do meu pequeno amigo e dar-lhe um pouco de água e ração. As senhoras, que têm um coração enorme, prometeram arranjar-me um saco de ração para o Bemol, desde que eu prometesse não o abandonar.

A noite adormeceu fria, húmida. Olhei o céu e apenas um rasgo da lua conseguia vislumbrar. Encosto-me para trás, a caneta sinto-a pesada e a descair na direcção do jornal. Olho o Bemol, dou-lhe um beijo na testa e desejo boa noite. Olhou para mim e com aqueles olhos castanhos vinham uma mensagem:

- Ninguém nos vai separar!

O cobertor que me ofereceram fazem-me acreditar que vou sobreviver de uma forma menos dura às noites no Porto, senti que estas linhas me deram um novo alento. Finto o sono e escrevo as últimas palavras:

- Hoje é o primeiro dia do resto da nossa vida! Vou sobreviver e voltar a ser quem um dia fui... aquele que escrevia debaixo de um tecto para a cidade que amo.


Mário,
Porto Janeiro 2003.

terça-feira, 5 de julho de 2011

RIP Angélico Vieira




Talvez hoje a minha mente não esteja suficientemente disperta para escrever. Pode até acontecer colocar um ponto final definitivo e nada do que para trás esteja escrito faz sentido. Não me sinto muito capaz sinceramente para expressar o muito do que ti se podia dizer mas lá no fundo escrevo em nome de quem não te queria perder, não agora, tão cedo! As más notícias correm muito depressa mas havia ainda uma réstea de esperança numa recuperação, ou pelo menos, num sinal de "querer voltar". As horas foram passando e as lágrimas escorrendo nos rostos cansados e desesperados nas arcadas e jardins contíguos ao Hospital onde te encontravas desde sábado. A fé numa recuperação era tanta que foram muitos os que se deslocaram para uma vigília ontem, tantos foram os amigos famosos e desconhecidos que se viram numa situação difícil, muito triste de viver: perder um amigo tão novo, de forma abrupta.

é impossível hoje e amanhã e nos próximos dias os feeds no facebook não serem dirigidos a ti e aos teus familiares e a uma pessoa que mesmo já não sendo dona do teu coração fez questão de estar presente para se despedir... é impossível hoje não voltar atrás e ouvir temas que com a tua voz eternizaste, uma das baladas mais incríveis de sempre "Hás-de sempre estar"... Hoje, talvez hoje e para sempre a tua voz se sobressaia nos muitos temas por ti gravados. Só tu com a tua energia fizeste o público gritar e cantar, a tua forma de sorrir para as miúdas que esperavam horas a fio era terna e divertida.

A música em Portugal ficou, hoje, aos 28 de Junho de 2011, mais pobre tendo perdido alguém que com a sua garra e atitude fez acreditar que os sonhos são alcançáveis, basta LUTAR! é isso que vamos continuar a fazer, porque herdámos isso de ti. Talvez hoje a música dos DZRT faça mais sentido e seja SENTIDA porque partiste para nos acompanhar em forma de estrela, como sempre foste. Hoje o céu brilhará mais, as estrelas serão ofuscadas por ti que partes connosco no coração.

Sendo eu um simples apreciador do que de bom se faz em Portugal fica aqui a mensagem para quem hoje, decidiu partir...

Até sempre, Puto!

Francisco Milheiro
28 de Junho 2011