Londres, 30 de Dezembro 1995
As minhas mãos tremem, apesar de já ter pisado os palcos dos teatros e óperas mais emblemáticos do Mundo os meus dedos fazem-se sentir nervosos. Serei eu fruto de sorte ou tenho também uma réstia de talento? Sou o que sou, fruto de uma educação, maioritariamente burguesa da cidade do Porto, sempre frequentei bons colégios (a partir de um certo momento da minha vida), estudei no conservatório, passei depois pelas escolas de música de Nova Iorque e Londres. O conceito de músico, como profissão, sempre teve uma conotação diferente no meu país, seria eu fruto / imagem de um futuro diferente? As salas esgotavam para me ouvir, era convidado para tocar em ocasiões especiais e gostava muito, muito daquilo que fazia.
Londres, era, pela segunda vez um pequeno mundo criado à minha volta, na primeira fila pessoas de grande renome da sociedade, donos de clubes de futebol, dirigentes desportivos e culturais da cidade, e a meio, rainha de Inglaterra. Fui convidado pela Casa Real a passar uma tarde nos jardins do palácio de Buckingham e tomar um chá com Rainha Isabel II. Levou-me a conhecer a sua "humilde" moradia e depois de muito conversar convidou-me a tocar algo meu. Sentei-me no Steinway de cauda, encostado a uma das enormes janelas, lá fora ouvia o rebuliço do trânsito londrino, um ou outro flash e cartazes de apoio aos filhos de Diana, entretanto falecida num acidente em Paris, e Carlos, o mal amado... Dos meus dedos soaram os primeiros tons de uma reflexão musical sobre a minha cidade, pois claro. Recriei depois tema de Chopin e um de Beethoven. A tarde foi passando e ganhei coragem para lhe perguntar:
- Promete fazer-me uma visita ao Porto?
- Claro que sim! Respondeu, simpaticamente Isabel II.
O tempo foi passando, e com ele aproximou-se a hora do recital. As pessoas acomodavam-se nas cadeiras, cumprimentavam de beija-mão a Rainha e fez-se silêncio ensurdecedor. Foram muitas as minhas dúvidas nos últimos anos, nos primeiros da minha vida artística, e essas foram finalmente dissipadas. Começava já a poder construir o meu império... nunca pensei que pouco tempos depois o céu fosse o meu abrigo, no Porto e em mais algum sítio.
O público recebeu-me muito bem, os temas surgiram em catadupa, devidamente treinados e sabidos de fio a pavio, as notas tomadas acima das linhas pautadas, a minha vida a troco de muito nada. Nessa altura, não conhecia Teresa, era um homem só... As palmas acalmavam um pouco a minha dor.