Hoje esperei por ti
Naquele banco de jardim
Com um sorriso
E uma flor de jasmim
Hoje esperei muito tempo
Esperei tanto que acabei por me esquecer
O que fazia ali
O que tinha para te dizer
Peguei na caneta e no papel
E escrevi,
Está claro que escrevi
Sobre ti
Escrevi uma carta
E nela estavam expressos medos,
Incertezas e acima de tudo
Verdades
Não apareceste
E eu, louco de paixão
Peguei na flor
E atirei-a para o chão
Assim fiquei, doido de paixão
Com uma carta escrita
A caneta no bolso
E a flor amarrotada... no chão
Francisco Milheiro
26-03-2008
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Verbos transformados
Gosto de sonhar
Gosto de sentir
Gosto muito de cantar
Gosto de me divertir
Gosto de pensar
Gosto de escrever
Não me importo de chorar em público
E de com os erros aprender
Gosto muito dos meus amigos
Apesar de muitos não ter
Mas sei que pelo menos esses
São amigos a valer
Se não fossem estas pequeninas coisas
Mínimas que sejam, na nossa vida
Verbos acabados em ar, er e ir
Porque razão haveríamos de existir?
Francisco Milheiro
2-7-2007
P.S) Dos primeiros textos a que eu chamava ingenuamente de POEMAS!
Gosto de sentir
Gosto muito de cantar
Gosto de me divertir
Gosto de pensar
Gosto de escrever
Não me importo de chorar em público
E de com os erros aprender
Gosto muito dos meus amigos
Apesar de muitos não ter
Mas sei que pelo menos esses
São amigos a valer
Se não fossem estas pequeninas coisas
Mínimas que sejam, na nossa vida
Verbos acabados em ar, er e ir
Porque razão haveríamos de existir?
Francisco Milheiro
2-7-2007
P.S) Dos primeiros textos a que eu chamava ingenuamente de POEMAS!
quarta-feira, 25 de maio de 2011
O país da tanga... a caminho da perfeição
Os dias vão passando, o calor faz-nos centrar energias em sol, praias e fins de tarde com os amigos na esplanada a ler um livro e a beber um fino (antes que hajam medidas severas para com as bebidas alcoólicas)...
As sondagens, após o debate da passada sexta-feira entre Pedro Passos Coelho e José Sócrates foi como que o despertar de corações e mentes menos despertas neste país à beira-mar plantado. Enquanto o povo se enganava com copos de tinto e umas bifanas à pala alguns políticos sentaram-se para trabalhar nos seus programas e combaterem arduamente no campo de batalha que é, a campanha. De um lado, o carisma de Pedro Passos Coelho, enviando recados para São Bento (ou por outras palavras, para a ainda casa de José Sócrates) em jeito de resposta às sempre agressivas e ressabiadas declarações do homem que durante seis anos liderou um governo cor-de-rosa, até porque, todos os sonhos que ele nos fez adormecer eram cor-de-rosa. Se por um lado havia as famosas bocas por convidar independentes para possíveis Presidentes da Assembleia da República, sedeada na capital, do outro havia o trabalho para tentar convencer os portugueses mais indecisos, e por isso mesmo, os mais cegos de que a alternativa apenas se centra à direita, na social democracia. Depois vieram as bocas, mais filosoficamente foleiras de Louças e afins sobre renegociação de dívidas e privatizações... Anda tudo preocupado com o final do desfile folclórico mas não vejo ninguém a tomar posição nos temas que verdadeiramente interessam a nós, portugueses.
O FMI entrou em Portugal para ajudar... O seu Presidente borrou a escrita e agora está "hospedado" num apartamento de luxo, a pagar cerca de dezassete mil euros por mês a uma empresa de segurança privada, a tal que também guardou Madoff nos States... As piadas começaram logo nessa noite com bocas ao FMI que afinal não ajuda, e sim, lixa (para não dizer uma palavra mais feia)... Chegaram, viram, analisaram e questionaram tanto que o Ministro das Finanças, ou melhor, o Ex ministro dizia:
- O próximo governo nem vai ter tempo de se sentar!
Estaria ele em estado alcoolizado ou estaria a pensar numa vitória do seu partido?
Na passada sexta-feira, aquando do debate entre Passos e Sócrates ficou bem claro que um estudou a lição, o outro cometeu o mesmo erro de sempre: tentar ser engraçado e atirar as culpas para a oposição de criar uma crise política. Os minutos no debate foram passando e com eles a cada vez mais clara posição dos dois na "cabeça" dos portugueses. Do lado de Sócrates continuam a chegar episódios que não abonam em nada a sua imagem (o pouco que restava) e a culpa, segundo ele, é do PSD... As sondagens, que até à bem pouco tempo mostravam uma clara vitória do PS (altura em que o país se encontrava em sono profundo) tiveram uma clara recuperação, registando-se no dia de ontem um empate técnico, e já no decorrer do dia de hoje, uma vantagem ligeira para Passos. Os restantes partidos continuam a sua caminhada para as eleições, sempre com a ideia de ganhar representantes.... para enfraquecer a força do PS, ou antes: A força de Sócrates e mais uns!
Faltam apenas quinze dias para as eleições, o país está a viver numa vaga de calor... com o sol amarelo, o mar azul, o coração cada vez mais laranja...
Rosas!? Só uma: a Mota!
Francisco Milheiro
25 de Maio 2011
As sondagens, após o debate da passada sexta-feira entre Pedro Passos Coelho e José Sócrates foi como que o despertar de corações e mentes menos despertas neste país à beira-mar plantado. Enquanto o povo se enganava com copos de tinto e umas bifanas à pala alguns políticos sentaram-se para trabalhar nos seus programas e combaterem arduamente no campo de batalha que é, a campanha. De um lado, o carisma de Pedro Passos Coelho, enviando recados para São Bento (ou por outras palavras, para a ainda casa de José Sócrates) em jeito de resposta às sempre agressivas e ressabiadas declarações do homem que durante seis anos liderou um governo cor-de-rosa, até porque, todos os sonhos que ele nos fez adormecer eram cor-de-rosa. Se por um lado havia as famosas bocas por convidar independentes para possíveis Presidentes da Assembleia da República, sedeada na capital, do outro havia o trabalho para tentar convencer os portugueses mais indecisos, e por isso mesmo, os mais cegos de que a alternativa apenas se centra à direita, na social democracia. Depois vieram as bocas, mais filosoficamente foleiras de Louças e afins sobre renegociação de dívidas e privatizações... Anda tudo preocupado com o final do desfile folclórico mas não vejo ninguém a tomar posição nos temas que verdadeiramente interessam a nós, portugueses.
O FMI entrou em Portugal para ajudar... O seu Presidente borrou a escrita e agora está "hospedado" num apartamento de luxo, a pagar cerca de dezassete mil euros por mês a uma empresa de segurança privada, a tal que também guardou Madoff nos States... As piadas começaram logo nessa noite com bocas ao FMI que afinal não ajuda, e sim, lixa (para não dizer uma palavra mais feia)... Chegaram, viram, analisaram e questionaram tanto que o Ministro das Finanças, ou melhor, o Ex ministro dizia:
- O próximo governo nem vai ter tempo de se sentar!
Estaria ele em estado alcoolizado ou estaria a pensar numa vitória do seu partido?
Na passada sexta-feira, aquando do debate entre Passos e Sócrates ficou bem claro que um estudou a lição, o outro cometeu o mesmo erro de sempre: tentar ser engraçado e atirar as culpas para a oposição de criar uma crise política. Os minutos no debate foram passando e com eles a cada vez mais clara posição dos dois na "cabeça" dos portugueses. Do lado de Sócrates continuam a chegar episódios que não abonam em nada a sua imagem (o pouco que restava) e a culpa, segundo ele, é do PSD... As sondagens, que até à bem pouco tempo mostravam uma clara vitória do PS (altura em que o país se encontrava em sono profundo) tiveram uma clara recuperação, registando-se no dia de ontem um empate técnico, e já no decorrer do dia de hoje, uma vantagem ligeira para Passos. Os restantes partidos continuam a sua caminhada para as eleições, sempre com a ideia de ganhar representantes.... para enfraquecer a força do PS, ou antes: A força de Sócrates e mais uns!
Faltam apenas quinze dias para as eleições, o país está a viver numa vaga de calor... com o sol amarelo, o mar azul, o coração cada vez mais laranja...
Rosas!? Só uma: a Mota!
Francisco Milheiro
25 de Maio 2011
terça-feira, 24 de maio de 2011
Por entre passos...
O tempo corre lentamente
Os meus pés deixam na areia
Um inexplicável modelo...
De pé perfeito
Divago por entre dunas
Subo ao calçadão
Na esperança de encontrar
A outra parte do meu coração
Esqueço o passado...
Que me atormentou
Vivo o presente
E o que ele me reservou
Gaivotas pairam no ar...
O meu peito bate forte
Numa leve esperança
De te encontrar
Os sons reconheço
O meu coração?
Não está em saldo
Não o vendo a baixo preço
O calçadão está vazio...
No teu lugar
Está um espaço
Reservado e frio
Sinto ao respirar...
Divago ao luar...
Nesta praia onde encontrei
Por sorte, o teu olhar
Vou divagando...
Vou sentindo
Vou ficando
Vou fingindo...
Que te encontrei...
Quem sabe assim
Fique feliz não desde sempre
Mas até ao fim...
Ao longe...
Não acredito: uma visão
Só poderás ser tu
Neste final de verão
Vieste-me buscar...
O meu coração aquece
Porque sabe: chegou a hora
De perder o medo e amar...
Para poder voltar a sentir...
Quem sabe...
Para voltar
A sorrir

Francisco Milheiro
24 de Maio 2011
Os meus pés deixam na areia
Um inexplicável modelo...
De pé perfeito
Divago por entre dunas
Subo ao calçadão
Na esperança de encontrar
A outra parte do meu coração
Esqueço o passado...
Que me atormentou
Vivo o presente
E o que ele me reservou
Gaivotas pairam no ar...
O meu peito bate forte
Numa leve esperança
De te encontrar
Os sons reconheço
O meu coração?
Não está em saldo
Não o vendo a baixo preço
O calçadão está vazio...
No teu lugar
Está um espaço
Reservado e frio
Sinto ao respirar...
Divago ao luar...
Nesta praia onde encontrei
Por sorte, o teu olhar
Vou divagando...
Vou sentindo
Vou ficando
Vou fingindo...
Que te encontrei...
Quem sabe assim
Fique feliz não desde sempre
Mas até ao fim...
Ao longe...
Não acredito: uma visão
Só poderás ser tu
Neste final de verão
Vieste-me buscar...
O meu coração aquece
Porque sabe: chegou a hora
De perder o medo e amar...
Para poder voltar a sentir...
Quem sabe...
Para voltar
A sorrir
Francisco Milheiro
24 de Maio 2011
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Um retrato de Ti, Cidade!
É com alguma mágoa que digo
- Cidade, não te conheço
Todos sabem a tua medida
Mas ignoram o teu peso
Pessoas caminham…
Abraçadas pelo teu rio
Não conseguem esconder a emoção
Esboçando no olhar um sorriso
Não há quem te conheça
Verdadeiramente, só eu
Serás sempre um Porto de abrigo
Num mundo que é só meu
Trazes por vezes à lembrança
Histórias de outrora
No futuro tens esperança
Gritas “Porto” a toda a hora
No calmo rio
Deitas um olhar
A cada amanhecer
A cada entardecer
Cada esquina que desenhaste em ti
Traz uma história ou evoca memória
De personagens e guerreiros
Que escreveram a tua história
Em tempos de guerra
Deste carne, ficaste com as tripas
De resto, uma iguaria que ofereces
Às tuas imensas visitas
A Torre ergue-se bem no alto
Vigias para que nada aconteça
Não há ninguém no mundo capaz
De alcançar tamanha beleza
No teu secreto jardim
Digno de qualquer nobreza
Ergues-te sobre a cidade
Demonstrando com certeza
Que nele te passeias
Para te voltares a encontrar
E esconderes-te daqueles
Que teimam em te ofuscar
Percorro as tuas ruas
E perco-me nas ruelas
Escondo-me nos teus becos
Reencontro-me nas vielas
Para lá do trânsito que se gerou
Fica um obrigado a ti cidade
Que nunca…
Me abandonou!
Francisco Milheiro
22 de Maio 2011
- Cidade, não te conheço
Todos sabem a tua medida
Mas ignoram o teu peso
Pessoas caminham…
Abraçadas pelo teu rio
Não conseguem esconder a emoção
Esboçando no olhar um sorriso
Não há quem te conheça
Verdadeiramente, só eu
Serás sempre um Porto de abrigo
Num mundo que é só meu
Trazes por vezes à lembrança
Histórias de outrora
No futuro tens esperança
Gritas “Porto” a toda a hora
No calmo rio
Deitas um olhar
A cada amanhecer
A cada entardecer
Cada esquina que desenhaste em ti
Traz uma história ou evoca memória
De personagens e guerreiros
Que escreveram a tua história
Em tempos de guerra
Deste carne, ficaste com as tripas
De resto, uma iguaria que ofereces
Às tuas imensas visitas
A Torre ergue-se bem no alto
Vigias para que nada aconteça
Não há ninguém no mundo capaz
De alcançar tamanha beleza
No teu secreto jardim
Digno de qualquer nobreza
Ergues-te sobre a cidade
Demonstrando com certeza
Que nele te passeias
Para te voltares a encontrar
E esconderes-te daqueles
Que teimam em te ofuscar
Percorro as tuas ruas
E perco-me nas ruelas
Escondo-me nos teus becos
Reencontro-me nas vielas
Para lá do trânsito que se gerou
Fica um obrigado a ti cidade
Que nunca…
Me abandonou!
Francisco Milheiro
22 de Maio 2011
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Melodia ao luar

Os minutos vão passando
Entre os sons de um piano
Que suavemente parece
Que vai cantando
Ao olhar o céu
Ao longe a estrela prometida
Peço um desejo, chamo por Ti
Mulher da minha vida
Suavemente divago
Por teclas brancas e negras
Achando que delas sairão
As soluções dos meus problemas
Por lá continuo a viajar
Por ti deixo-me ficar…
Por esta noite, na varanda
A sonhar
Acendo um cigarro
Fumo sem sequer travar…
Acho que esta sensação
Me leva sem querer, a viajar
A estrela,
Bem lá no alto de céu
Espera por um sinal
Que tenho a certeza que será teu
Posso estar aqui sozinho
Cantar para ninguém
Sei que lá no fundo
Pensas em mim… também!
A melodia acaba
Sem tão pouco me aperceber
Que o que criei, fi-lo
Porque tinha de ser
Não pensei tanto para a escrever…
Mas sei que demorei tempo demais
Para do fundo de tudo…
Te encontrar e dizer
O piano deixei-o aberto
Quem sabe à espera de um sinal…
Sei, porque me disse aquela estrela
Serei feliz no final…
O piano está aberto…
Na mesa uma garrafa vazia
Sei que um dia mais tarde
Encherás a minha vida
Sorrio porque terminei
No fim de tudo vou sorrir
Porque sei, que pela vida fora
Te amei…
Ao som de uma melodia
De uma simples canção
Que na calada da noite
Para ti criei
A olhar o céu…
À espera de um sinal…
Fiz, porque sabia
Que ia ser feliz no final…
Sentado ao piano
A olhar um retrato teu
Recebe um pedaço
De um coração meu
Francisco Milheiro
20 de Maio 2011
quinta-feira, 19 de maio de 2011
É só um pouco mais de azul

"... Desde a chama acesa em Viena..." é assim que começa mais um dos temas alusivos ao emblema azul e branco da cidade do Porto. Ontem, Dublin, capital da Irlanda foi a capital do NORTE de Portugal, frente a frente FC Porto e SC Braga defrontaram-se numa cidade onde se falou português com muito fairplay e convívio à mistura. O estádio, o belíssimo Lansdown Road não encheu na sua totalidade, mas quem lá esteve presente viveu os 90 minutos, foi bonito de se ver claques e adeptos das duas equipas a confraternizar antes e mesmo após o jogo. Nos bancos dois grandes homens da cidade invicta, dois grandes treinadores. Um jovem de 33 anos e um outro de 42. André Villas Boas começou a sua carreira como ajudante de Bobby Robson, nos tempos em que Domingos Paciência era o ídolo dos miúdos e graúdos nortenhos...
O tempo foi passando e com ele Domingos, eterno portista, decidiu pendurar as botas e iniciar-se nas lides de treinador tendo passado pela Académica, acabando no Sporting de Braga, e agora, de malas feitas para Alvalade. André Villas Boas regressou ao Porto anos mais tarde para ajudar a equipa técnica liderada por José Mourinho, que se sagrou campeão europeu em 2004, depois de ter vencido a Taça UEFA em 2003, em Sevilha frente ao Celtic por 3-2. A sua saída ficou marcada negativamente nos adeptos portistas, que ficaram tristes e chateados por não ter festejado a conquista do título europeu mais importante da história do clube.
O tempo caminhou ainda mais e Villas Boas apresentou-se no FC Porto, dizendo na conferência de imprensa de apresentação:
- Este clube está habituado a vencer desde 1893!
Tantos não acreditaram, mas os portistas ferrenhos e simpatizantes não torceram o nariz àquele que pode muito bem vir a ser, um Mourinho nº 2. Não se pode, é certo, comparar pessoas mas a "escola" que ambos frequentaram fazem-me acreditar que Mourinho não há só um.
A noite em Dublin foi mais um momento de glória, mais uma final para o clube, mais uma taça para a cidade. Não consta que a Câmara Municipal do Porto abra as portas para receber os campeões, isso já estamos habituados. Eles preferem a rua, o contacto mais directo com o POVO, até porque como diz a canção:
- O PORTO ESTÁ NA RUA!
Esta foi mais uma taça, este foi só mais um ano em que o futebol se vestiu de azul e branco. Desta vez não só a nível interno, como a nível europeu! A quem acreditou tinha razões para tal! Parabéns FC Porto!
Francisco Milheiro
19 Maio 2011
terça-feira, 17 de maio de 2011
Retrato frio XIV
Os últimos dias foram, no mínimo férteis em acontecimentos. No dia a seguir a ter saído da enfermaria n. 2 do hospital geral de santo antónio o meu lugar, a minha casa foi subitamente ocupada por um estranho ser que nada dizia... Aproximei-me com cuidado, não que o tamanho da criatura metesse medo, mas não imaginava a sua reacção à minha chegada.
- Quem és tu?
- Ruff, ruff!
Abanou a cauda para mim, lambeu-me a mão e cheirou todas as extremidades da minha pele a "céu aberto". As pessoas podem dizer que cada um de nós, os que vivem na rua que roubamos quem está ao nosso lado, mas no meu caso não foi assim: quando cheguei à minha casa, ali na praça d. João I o meu amigo e inseparável companheiro da sopa da noite, o Quim guardou-me os párocos objectos que ainda tinha... Tive tanto medo de perder a caixa que guardava a fotografia da Teresa e do meu filho... Acho que tinha mais medo disso do que morrer porque para mim a vida deixou de fazer sentido à muito, muito tempo... Como a vida muda em poucos minutos. Agarrei-me à caixa com as forças que tinha naquele momento e deixei que o bola de pêlo se encostasse a mim. Sentia o seu roncar e a respiração, senti-me pela primeira vez, neste tempo de rua, protegido. A noite passou, o dia era já uma realidade, ele, o Free dormiu aconchegado ao meu cobertor que trouxera do hospital, dado por umas auxiliares que ficaram a saber da minha triste história. Talvez a partir da noite de ontem ganhei mais um motivo para acreditar que nem tudo é mau na vida. Mariana, a mulher do homem que estava deitado a meu lado no hospital deixou-me no dia em que saí um envelope com dinheiro, dinheiro esse que gastaria apenas em comida, pensava que só comigo, mas agora também com o Free. Tomei uma meia de leite e comi um pão na pastelaria no centro bem perto dos aliados e comprei um saco de ração para cachorros, trazia de oferta duas gamelas. Sabia que ele não iria passar fome. Lembro-me que olhei para ele antes de lhe estender o prato com a ração, e disse:
- Sei que me vais proteger. Eu farei o mesmo por ti.
Latejou, e logo em seguida devorou o que tinha e bebeu um pouco de água. Peguei-o ao colo e num gesto decidido pus-me de pé, levei-o a conhecer a cidade e mostrar-lhe os perigos que se escondem nela. Abanava a cauda sempre que via um similar, ladrava para as pombas que pousavam na avenida. O tempo foi passando, quando demos por ela era hora de regressar. à sua espera estava mais uma pratada de comida para cão, para mim uma sopa e um pão no "coração da cidade". A noite, tal como a anterior, ficámos aconchegados um ao outro. O Porto ganhou outro encanto com esta surpresa totalmente inesperada.
Antes de fechar os olhos olhei o céu, dos sinos da Sé soaram as doze badaladas... E jurei a Deus, a quem sempre respeitei (apesar da partida) que iria fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para fazer do Free um cão feliz... Fechei os olhos e deixei-me ficar a ouvir o som da cidade, que aos poucos adormecia.
Porto, 23 Janeiro 2003
- Quem és tu?
- Ruff, ruff!
Abanou a cauda para mim, lambeu-me a mão e cheirou todas as extremidades da minha pele a "céu aberto". As pessoas podem dizer que cada um de nós, os que vivem na rua que roubamos quem está ao nosso lado, mas no meu caso não foi assim: quando cheguei à minha casa, ali na praça d. João I o meu amigo e inseparável companheiro da sopa da noite, o Quim guardou-me os párocos objectos que ainda tinha... Tive tanto medo de perder a caixa que guardava a fotografia da Teresa e do meu filho... Acho que tinha mais medo disso do que morrer porque para mim a vida deixou de fazer sentido à muito, muito tempo... Como a vida muda em poucos minutos. Agarrei-me à caixa com as forças que tinha naquele momento e deixei que o bola de pêlo se encostasse a mim. Sentia o seu roncar e a respiração, senti-me pela primeira vez, neste tempo de rua, protegido. A noite passou, o dia era já uma realidade, ele, o Free dormiu aconchegado ao meu cobertor que trouxera do hospital, dado por umas auxiliares que ficaram a saber da minha triste história. Talvez a partir da noite de ontem ganhei mais um motivo para acreditar que nem tudo é mau na vida. Mariana, a mulher do homem que estava deitado a meu lado no hospital deixou-me no dia em que saí um envelope com dinheiro, dinheiro esse que gastaria apenas em comida, pensava que só comigo, mas agora também com o Free. Tomei uma meia de leite e comi um pão na pastelaria no centro bem perto dos aliados e comprei um saco de ração para cachorros, trazia de oferta duas gamelas. Sabia que ele não iria passar fome. Lembro-me que olhei para ele antes de lhe estender o prato com a ração, e disse:
- Sei que me vais proteger. Eu farei o mesmo por ti.
Latejou, e logo em seguida devorou o que tinha e bebeu um pouco de água. Peguei-o ao colo e num gesto decidido pus-me de pé, levei-o a conhecer a cidade e mostrar-lhe os perigos que se escondem nela. Abanava a cauda sempre que via um similar, ladrava para as pombas que pousavam na avenida. O tempo foi passando, quando demos por ela era hora de regressar. à sua espera estava mais uma pratada de comida para cão, para mim uma sopa e um pão no "coração da cidade". A noite, tal como a anterior, ficámos aconchegados um ao outro. O Porto ganhou outro encanto com esta surpresa totalmente inesperada.
Antes de fechar os olhos olhei o céu, dos sinos da Sé soaram as doze badaladas... E jurei a Deus, a quem sempre respeitei (apesar da partida) que iria fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para fazer do Free um cão feliz... Fechei os olhos e deixei-me ficar a ouvir o som da cidade, que aos poucos adormecia.
Porto, 23 Janeiro 2003
quinta-feira, 12 de maio de 2011
TDT - Uma realidade europeia
Pois é, o PEC 4 foi chumbado, o FMI está por aqui, ou pelo menos, esteve... As sondagens apontam para uma vitória laranja, mas não é isso que dá que falar. Hoje, 12 de Maio, dia em que milhares de pessoas percorrem os caminhos de Fátima a população de Alenquer, não creio que estejamos a falar de um concelho que nade em dinheiro, mas o que é certo é que quem quer ver televisão a partir de hoje, vésperas de dia de Milagre de Fátima, terá de comprar um descodificador que custa entre os 35 e os 78 euros. As televisões são antigas, as ligações artesanais, os canais apenas são 4 e às vezes nem isso. À DECO chegaram já umas quantas questões, uns pedidos de ajuda, e claro, os bancos e agências de financiamento esfregam as mãos para emprestar mais algum só para que as pessoas tenham acesso (a meu ver, deveria ser gratuito) a um "bem" como a televisão...
A privatização da RTP pode ser uma realidade a curto prazo, os novos canais em HD são uma realidade nos dias de hoje. Real parece também ser que dentro de dois anos só quem tiver televisão por assinatura (tv cabo ou meo) poderá ter acesso às notícias e programas que nos distraem do mundo de fantasia que é o nosso Portugal. O governo diz que isto foi uma medida implantada pela Europa, mas há uma questão que coloco: Quem irá ficar a lucrar com a TDT? O Estado pelo IVA que vai receber dos descodificadores ou as empresas que manufacturam / vendem televisores?!
Se a moda pega, haverá daqui a muito pouco tempo sistemas de WC incompatíveis com a maioria dos portugueses! A quem devo comprar o papel higiénico, Jumbo ou Continente?
A privatização da RTP pode ser uma realidade a curto prazo, os novos canais em HD são uma realidade nos dias de hoje. Real parece também ser que dentro de dois anos só quem tiver televisão por assinatura (tv cabo ou meo) poderá ter acesso às notícias e programas que nos distraem do mundo de fantasia que é o nosso Portugal. O governo diz que isto foi uma medida implantada pela Europa, mas há uma questão que coloco: Quem irá ficar a lucrar com a TDT? O Estado pelo IVA que vai receber dos descodificadores ou as empresas que manufacturam / vendem televisores?!
Se a moda pega, haverá daqui a muito pouco tempo sistemas de WC incompatíveis com a maioria dos portugueses! A quem devo comprar o papel higiénico, Jumbo ou Continente?
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Retrato frio XIII
Não foi há muito tempo... em que olhei para alguém na rua, aqueles que se passeiam com a mão esticada e insultei-o, assim, bem lá no fundo de mim, a forma como essas pessoas viviam e abusavam da boa vontade dos outros, do sentimento de pena demonstrado a cada olhar... Os sem-abrigo são uma praga sem fim, era o que me vinha à cabeça, quando saía do estúdio às nove da noite para ir jantar qualquer coisa a casa lá estava um a pedir uma esmola para uma sopa.
- Para sopa ou para a droga?
Tantas vezes coloquei esta pergunta, depois ele dizia com um ar muito apagado e triste:
- Não é obrigado a dar! Só lhe estou a pedir uma moeda para poder comer uma sopa.
Sou sincero, não ligava nem sabia que existiam associações que forneciam refeições a troco de quase nada, não só no Porto como em Portugal. É estranho ter-me ocorrido este episódio... Hoje, sou um deles! As horas passam devagar, os minutos parecem meias horas, os meus pés inchados fazem-me quase perder as forças que ainda me restam para dizer algo, para dar mais um passo. A sopa que o "Coração da cidade" me dá todas as noites já não me alimenta, sinto falta do conforto de um lar, aprendi a fazer uma fogueira sem precisar de muito mas o calor que ela fornece é demasiado brando para as noites frias que se fazem sentir aqui, no centro da cidade. Nos tempos idos, em que o dinheiro não era para mim, um problema, decidi pegar no carro e fazer uma viagem com a máquina fotográfica debaixo do braço e fotografar o Porto desconhecido, aquele que não vem nos mapas e roteiros, vi pessoas a dormirem em condições desumanas, numa das ilhas pedi para entrar, fazendo-lhes prometer que não me roubariam e que no final da noite lhes ofereceria uma refeição quente a cada um... A vida de quem vive na rua ou tem uma casa a cair sem um mísero tecto para as abrigar é um verdadeiro flagelo, a presidência da Câmara nada mais pode fazer do que lhes oferecer uns cobertores e uma refeição quente todas as noites... Tentei saber o que faziam durante o dia, um deles, António, que me chamou mais à atenção, tinha sido funcionário de uma empresa de marcenaria, foi apanhado a roubar e ao invés de ir preso teve que sair sem nada... A vida foi piorando, as horas transformavam-se em dias, os segundos deixaram de fazer sentido... perdeu a mulher, que o abandonou por vergonha, a filha estava a estudar no estrangeiro e não regressara a Portugal. O tempo foi passando e António envelheceu, começou por arrumar carros perto do Hospital de Santo António, depois os meandros da droga falaram mais alto, o dinheiro fácil e o perigo, que tanto o entusiasmava (inexplicavelmente, dizia ele) anestesiaram-no e com isso chegou o consumo de drogas leves... A metadona acabou por trazê-lo de novo à "vida" mas nem por isso alterou o seu modo de vida: continuava a arrumar carros, fumava dois maços de cigarros por dia e vivia perto do Bairro do Lagarteiro, numa ilha...
Os dias foram passando, com ele os graus que se faziam sentir desciam em flecha. A sopa que me mantinha quente por momentos, normalmente às oito horas no "Coração da cidade" começava a não ser suficiente para a minha temperatura corporal se manter minimamente normal... Primeiro sinal de fraqueza, primeiro susto... Passavam alguns minutos da meia-noite, o ensurdecedor silêncio da cidade fazia-me pensar se seria uma data especial, mas não, tinha sido dado (contaram-me) alerta amarelo por causa dos ventos e baixas temperaturas... A minha casa, ali bem debaixo das arcadas do banco na praça quem desce Passos Manuel não se fazia sentir o vento, estava abrigado e por sorte, nessa tarde tinha conseguido guardar jornais (que me isolavam do frio) que encontrei no papelão a céu aberto mas o meu coração deu os primeiros sinais de fraqueza. O Quim chamou por ajuda nos Bombeiros que ficam ali ao lado, vieram dois homens feitos ver o que se passava. Viram-me a temperatura... A partir daí não me lembro de mais nada. Acordei, já o dia era uma realidade, e eu, estava deitado numa enfermaria do Hospital de Santo António. O diagnóstico levava-me a ficar, na melhor das hipóteses, uma semana. Tinha uma arritmia e uma leve pneumonia, o que me levaria a tomar medicamentos para controlar e claro, mudar de vida... Não quis saber de mais nada, o médico explicou-me a situação, só queria dormir confortável e quente... Há muito que eu não sabia o que era uma cama, essa semana passou a um ritmo vagaroso, não contava os minutos, de duas em duas horas olhava o relógio de parede que estava firmemente pendurado na minha frente. Quando começaram a chegar as visitas, uma senhora aproximou-se do marido, que estava ao meu lado em coma profundo, deu-lhe um beijo na testa e nada disse. Continuava concentrado nas forças que tinha de armazenar para continuar a sobreviver à vida na rua... Sem ter se quer trocado um olhar com essa senhora, acercou-se de mim e disse:
- O meu marido está assim há dois meses! Já perdi as esperanças que ele acorde... De maneira que quando venho aqui nada digo... Sento-me, olho para ele e revivo os momentos que passámos...
- Lamento... - disse!
- Posso perguntar porque está aqui?
- Pode! O meu coração decidiu pregar-me um susto e uma ligeira pneumonia causada pelo frio. Podia ter parado de vez, assim deixava de sofrer...
- O que precisa? O que sente falta?
- Eu? De mim! Da minha vida, do que fui um dia... Hoje, não sou nada! Há muito que deixei de ser... Divago pela cidade, conheço-a como ninguém, infelizmente...
- O que lhe aconteceu para ter chegado a esse ponto? Drogas...?
Sorri e disse:
- De facto a droga é um dos pontos de partida mas não... Gosta de música?
- Não percebi...
- Se gosta de música! Alguma vez ouviu falar de músicos clássicos do Porto?
- Sim, quem não se lembra de Mário Barreir...
- Sou eu! O que se sentava ao piano e esgotava as salas...
- Não acredito. Como pode ser o Mário Barreiros?
- Para alguns ainda existo, para outros, nou sou mais do que mais um sem-abrigo, sem destino no Porto...
Fez um silêncio que parecia não ter fim, desviou os olhos para o pátio interior do Hospital e ficou... distante por um tempo!
Enquanto ela, Maria, de seu nome fazia uma viagem eu recebia a "visita" de uma auxiliar que me trazia o almoço: uma sopa quente, um esparguete com carne, uma peça de futra e um pacote de bolachas... Saboreei cada colher, cada garfada daquela que muitos consideram intragável comida de hospital... Maria olhava para mim com um ar ainda distante... Nos seus olhos podia ler "como é possível?". Nessa tarde o seu esposo, companheiro de sempre dera um sinal... Tinha mexido o dedo anelar onde ainda tinha a aliança com o nome de Maria. Foi levado da enfermaria para uns exames... Eu mantive-me imóvel, a olhar o pátio do hospital... e a viajar... sem sair dali!
A noite caía, o meu corpo mantinha-se quente como há muito não sentia... Fechei os olhos e deixei-me dormir, depois de um chá quente e umas bolachas. Deus não me quis levar ontem... Mas deu-me abrigo! Os sonhos chegaram, e com eles a esperança num futuro novo. A rua era uma realidade que por dias deu um intervalo... O tempo foi passando, a vontade de construir um futuro diferente também...
Porto, 10 de Janeiro de 2003
- Para sopa ou para a droga?
Tantas vezes coloquei esta pergunta, depois ele dizia com um ar muito apagado e triste:
- Não é obrigado a dar! Só lhe estou a pedir uma moeda para poder comer uma sopa.
Sou sincero, não ligava nem sabia que existiam associações que forneciam refeições a troco de quase nada, não só no Porto como em Portugal. É estranho ter-me ocorrido este episódio... Hoje, sou um deles! As horas passam devagar, os minutos parecem meias horas, os meus pés inchados fazem-me quase perder as forças que ainda me restam para dizer algo, para dar mais um passo. A sopa que o "Coração da cidade" me dá todas as noites já não me alimenta, sinto falta do conforto de um lar, aprendi a fazer uma fogueira sem precisar de muito mas o calor que ela fornece é demasiado brando para as noites frias que se fazem sentir aqui, no centro da cidade. Nos tempos idos, em que o dinheiro não era para mim, um problema, decidi pegar no carro e fazer uma viagem com a máquina fotográfica debaixo do braço e fotografar o Porto desconhecido, aquele que não vem nos mapas e roteiros, vi pessoas a dormirem em condições desumanas, numa das ilhas pedi para entrar, fazendo-lhes prometer que não me roubariam e que no final da noite lhes ofereceria uma refeição quente a cada um... A vida de quem vive na rua ou tem uma casa a cair sem um mísero tecto para as abrigar é um verdadeiro flagelo, a presidência da Câmara nada mais pode fazer do que lhes oferecer uns cobertores e uma refeição quente todas as noites... Tentei saber o que faziam durante o dia, um deles, António, que me chamou mais à atenção, tinha sido funcionário de uma empresa de marcenaria, foi apanhado a roubar e ao invés de ir preso teve que sair sem nada... A vida foi piorando, as horas transformavam-se em dias, os segundos deixaram de fazer sentido... perdeu a mulher, que o abandonou por vergonha, a filha estava a estudar no estrangeiro e não regressara a Portugal. O tempo foi passando e António envelheceu, começou por arrumar carros perto do Hospital de Santo António, depois os meandros da droga falaram mais alto, o dinheiro fácil e o perigo, que tanto o entusiasmava (inexplicavelmente, dizia ele) anestesiaram-no e com isso chegou o consumo de drogas leves... A metadona acabou por trazê-lo de novo à "vida" mas nem por isso alterou o seu modo de vida: continuava a arrumar carros, fumava dois maços de cigarros por dia e vivia perto do Bairro do Lagarteiro, numa ilha...
Os dias foram passando, com ele os graus que se faziam sentir desciam em flecha. A sopa que me mantinha quente por momentos, normalmente às oito horas no "Coração da cidade" começava a não ser suficiente para a minha temperatura corporal se manter minimamente normal... Primeiro sinal de fraqueza, primeiro susto... Passavam alguns minutos da meia-noite, o ensurdecedor silêncio da cidade fazia-me pensar se seria uma data especial, mas não, tinha sido dado (contaram-me) alerta amarelo por causa dos ventos e baixas temperaturas... A minha casa, ali bem debaixo das arcadas do banco na praça quem desce Passos Manuel não se fazia sentir o vento, estava abrigado e por sorte, nessa tarde tinha conseguido guardar jornais (que me isolavam do frio) que encontrei no papelão a céu aberto mas o meu coração deu os primeiros sinais de fraqueza. O Quim chamou por ajuda nos Bombeiros que ficam ali ao lado, vieram dois homens feitos ver o que se passava. Viram-me a temperatura... A partir daí não me lembro de mais nada. Acordei, já o dia era uma realidade, e eu, estava deitado numa enfermaria do Hospital de Santo António. O diagnóstico levava-me a ficar, na melhor das hipóteses, uma semana. Tinha uma arritmia e uma leve pneumonia, o que me levaria a tomar medicamentos para controlar e claro, mudar de vida... Não quis saber de mais nada, o médico explicou-me a situação, só queria dormir confortável e quente... Há muito que eu não sabia o que era uma cama, essa semana passou a um ritmo vagaroso, não contava os minutos, de duas em duas horas olhava o relógio de parede que estava firmemente pendurado na minha frente. Quando começaram a chegar as visitas, uma senhora aproximou-se do marido, que estava ao meu lado em coma profundo, deu-lhe um beijo na testa e nada disse. Continuava concentrado nas forças que tinha de armazenar para continuar a sobreviver à vida na rua... Sem ter se quer trocado um olhar com essa senhora, acercou-se de mim e disse:
- O meu marido está assim há dois meses! Já perdi as esperanças que ele acorde... De maneira que quando venho aqui nada digo... Sento-me, olho para ele e revivo os momentos que passámos...
- Lamento... - disse!
- Posso perguntar porque está aqui?
- Pode! O meu coração decidiu pregar-me um susto e uma ligeira pneumonia causada pelo frio. Podia ter parado de vez, assim deixava de sofrer...
- O que precisa? O que sente falta?
- Eu? De mim! Da minha vida, do que fui um dia... Hoje, não sou nada! Há muito que deixei de ser... Divago pela cidade, conheço-a como ninguém, infelizmente...
- O que lhe aconteceu para ter chegado a esse ponto? Drogas...?
Sorri e disse:
- De facto a droga é um dos pontos de partida mas não... Gosta de música?
- Não percebi...
- Se gosta de música! Alguma vez ouviu falar de músicos clássicos do Porto?
- Sim, quem não se lembra de Mário Barreir...
- Sou eu! O que se sentava ao piano e esgotava as salas...
- Não acredito. Como pode ser o Mário Barreiros?
- Para alguns ainda existo, para outros, nou sou mais do que mais um sem-abrigo, sem destino no Porto...
Fez um silêncio que parecia não ter fim, desviou os olhos para o pátio interior do Hospital e ficou... distante por um tempo!
Enquanto ela, Maria, de seu nome fazia uma viagem eu recebia a "visita" de uma auxiliar que me trazia o almoço: uma sopa quente, um esparguete com carne, uma peça de futra e um pacote de bolachas... Saboreei cada colher, cada garfada daquela que muitos consideram intragável comida de hospital... Maria olhava para mim com um ar ainda distante... Nos seus olhos podia ler "como é possível?". Nessa tarde o seu esposo, companheiro de sempre dera um sinal... Tinha mexido o dedo anelar onde ainda tinha a aliança com o nome de Maria. Foi levado da enfermaria para uns exames... Eu mantive-me imóvel, a olhar o pátio do hospital... e a viajar... sem sair dali!
A noite caía, o meu corpo mantinha-se quente como há muito não sentia... Fechei os olhos e deixei-me dormir, depois de um chá quente e umas bolachas. Deus não me quis levar ontem... Mas deu-me abrigo! Os sonhos chegaram, e com eles a esperança num futuro novo. A rua era uma realidade que por dias deu um intervalo... O tempo foi passando, a vontade de construir um futuro diferente também...
Porto, 10 de Janeiro de 2003
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Frontalidade Moralmente Invertida
Os dias vão passando tranquilamente e a um ritmo vagaroso neste paraíso à beira-mar, bem perto de uma tal falência técnica, vulgo, banca rota. As notícias sobre subida de taxas de juro, a dívida soberana de Portugal, os milhares de milhões de Euros esbanjados para entidades públicas e bancos fazem-nos suspirar… a nós, portugueses, resta-nos suar a trabalhar (se for caso disso), por conta de outrém ou por risco próprio investir na nossa vida futura. A entrada do FMI em Portugal foi notícia em tudo o que era serviço noticioso. Aterraram em Lisboa, no já quase (por sorte!) velhinho Aeroporto da Portela, tinham um ar cansado e para tal pararam na primeira “estação” e beberam uma refinada e bem portuguesa cerveja. Ao menos isso, algo em que somos bons. De poucas palavras e com um aspecto de quem saiu há poucos dias de uma Universidade com o mestrado em boas maneiras e finanças entraram em táxis. Porque não foram num bus turístico? Sempre seria melhor: apreciavam o bom que há em Portugal, alguns elefantes brancos: a ponte Vasco da Gama que sofreu uma “pequena” derrapagem, o famoso recinto fantasma da Expo 98, os estádios do Euro 2004, e claro, a singela casa de um tal Sócrates, Zé para os amigos. Ao entrar no táxi, um dos mais faladores homens da Comissão Europeia, respondeu a um jornalista: Ficaremos o tempo que for preciso. À custa de quem? Da EU ou de Portugal? É que se formos por aí estamos bem, mas bem tramados.
Os segundos e minutos passam nas cidades, milhares de romenos, ucranianos, ciganos e afins povoam as estações de correio para levantarem as suas pensões e subsídios de inserção social (coitados! Já fizeram muito por nós!) e depois falam mal do Estado, que é uma bela merda, que não lhes dão apoio. Enquanto isso se passa, as altas entidades gastam milhares de euros POR DIA em almoços e despesas de representação, existem secretários de Estado, auxiliares de secretários de Estado e auxiliares dos auxiliares, 5 motoristas para um só Ministro, sendo um deles o CHEFE, ou seja, faz menos e ganha mais! Enquanto Portugal adormecia num sonho cor-de-rosa contado pelo então Zé do Povo, o Sócrates a oposição lembrou-se de acordar os portugueses, mas já era tarde. Estava o Presidente sossegado em casa, no lindíssimo Palácio de Belém e o Zé foi lá pedir a demissão. Acho de mau tom! Em Portugal, o serviço público tem horário de funcionamento. Quem é ele para pedir demissão àquelas horas da noite!? Ah! Já me esquecia, é o Zé, não é um qualquer. A licenciatura obtida a um dia missal, o curso de inglês no BBC School da Rechousa não lhe valeu… Chegou a Bruxelas e disse aos amigos: Ai! Mi neime is Jose end i lixated the portugeses! Tal e qual! Isto traduzido para Português é:
- O meu nome é Zé e desde criança sou um doce! Portugal está óptimo, vós é que sois uns pessimistas! Olhem à minha volta. Os meus amigos todos têm carros de alta cilindrada, temos casas no centro da capital de 800 mil e só ganhamos 16 mil ao ano. A minha mãe era auxiliar de limpeza doméstica e ganha 3 mil de reforma.
O FMI chegou… e pelo que se sabe, está de malas aviadas. Já vieram cumprir o seu dever: ajudar-nos a sair da cova… mas estávamos tão aconchegadinhos que nos vai dar pena sair dela! Pelo menos não víamos a luz do dia, mas também a noite para nós era um sacrifício… Há muito que estamos a dormir. Em breve teremos eleições, em breve se tudo correr como previsto teremos um novo governo, desta vez com menos pastas e ministros mas que trabalhem de Sol a sol… O FMI chegou, viu, riu e no fim de tudo emprestou… Vai agora passar o cheque. Eu, pelo sim pelo não, vou esperar, ver… e espero com esta alma socialmente democratizada VENCER! Só assim sei ser! Ao contrário dos outros que chegaram, viram e enterraram. Chegaram a ponderar colocar o país à venda no jornal com o seguinte anúncio:
- Vende-se país. Vistas sobre Atlântico. Óptimas relações com Venezuela. Excelentes vias de comunicação. Mais alta tecnologia!
É caso para dizer: Se a minha frontalidade fosse moralmente Invertida talvez conseguisse viver num país como este, um país de maravilha!
Francisco Milheiro
5 de Maio 2011
Os segundos e minutos passam nas cidades, milhares de romenos, ucranianos, ciganos e afins povoam as estações de correio para levantarem as suas pensões e subsídios de inserção social (coitados! Já fizeram muito por nós!) e depois falam mal do Estado, que é uma bela merda, que não lhes dão apoio. Enquanto isso se passa, as altas entidades gastam milhares de euros POR DIA em almoços e despesas de representação, existem secretários de Estado, auxiliares de secretários de Estado e auxiliares dos auxiliares, 5 motoristas para um só Ministro, sendo um deles o CHEFE, ou seja, faz menos e ganha mais! Enquanto Portugal adormecia num sonho cor-de-rosa contado pelo então Zé do Povo, o Sócrates a oposição lembrou-se de acordar os portugueses, mas já era tarde. Estava o Presidente sossegado em casa, no lindíssimo Palácio de Belém e o Zé foi lá pedir a demissão. Acho de mau tom! Em Portugal, o serviço público tem horário de funcionamento. Quem é ele para pedir demissão àquelas horas da noite!? Ah! Já me esquecia, é o Zé, não é um qualquer. A licenciatura obtida a um dia missal, o curso de inglês no BBC School da Rechousa não lhe valeu… Chegou a Bruxelas e disse aos amigos: Ai! Mi neime is Jose end i lixated the portugeses! Tal e qual! Isto traduzido para Português é:
- O meu nome é Zé e desde criança sou um doce! Portugal está óptimo, vós é que sois uns pessimistas! Olhem à minha volta. Os meus amigos todos têm carros de alta cilindrada, temos casas no centro da capital de 800 mil e só ganhamos 16 mil ao ano. A minha mãe era auxiliar de limpeza doméstica e ganha 3 mil de reforma.
O FMI chegou… e pelo que se sabe, está de malas aviadas. Já vieram cumprir o seu dever: ajudar-nos a sair da cova… mas estávamos tão aconchegadinhos que nos vai dar pena sair dela! Pelo menos não víamos a luz do dia, mas também a noite para nós era um sacrifício… Há muito que estamos a dormir. Em breve teremos eleições, em breve se tudo correr como previsto teremos um novo governo, desta vez com menos pastas e ministros mas que trabalhem de Sol a sol… O FMI chegou, viu, riu e no fim de tudo emprestou… Vai agora passar o cheque. Eu, pelo sim pelo não, vou esperar, ver… e espero com esta alma socialmente democratizada VENCER! Só assim sei ser! Ao contrário dos outros que chegaram, viram e enterraram. Chegaram a ponderar colocar o país à venda no jornal com o seguinte anúncio:
- Vende-se país. Vistas sobre Atlântico. Óptimas relações com Venezuela. Excelentes vias de comunicação. Mais alta tecnologia!
É caso para dizer: Se a minha frontalidade fosse moralmente Invertida talvez conseguisse viver num país como este, um país de maravilha!
Francisco Milheiro
5 de Maio 2011
terça-feira, 3 de maio de 2011
Retrato frio XII
Há uns tempos atrás surgiu a possibilidade de fazer uma viagem, daquelas que só se fazem uma vez na vida, a tal que entitulamos de A Viagem. Lembro-me que estava nervoso quando me dirigi à zona industrial do Porto para ir buscar a autocaravana que estava reservada em meu nome. O objectivo da viagem era sobretudo para descobrir coisas que não sabia sobre mim, para encontrar respostas a questões que jamais conseguiria responder com o barulho dos carros, mensagens e chamadas nos telemóveis, almoços e jantares com amigos ou até mesmo sozinho... Apenas eu e o meu mundo. A viagem tinha data de regresso mas não teria ponto de chegada, a não ser, claro, o Porto. A ideia de viajar sozinho não era de todo a minha opção primária mas considerava importante convidar alguém que me conhecesse minimamente para que também pudesse usufruir das pequenas descobertas... A viagem decorria sem problemas, nem os sobressaltos nas estradas do interior me fizeram pensar em voltar atrás. A primeira pergunta que do nada surgiu foi sobre as opções de vida que tomara até então. Seria eu a pessoa indicada para responder a isso? Estaria a minha família preocupada por não ter enverdado por medicina ou engenharia? Terei eu tomado a decisão correcta em ser músico e poeta nas horas vagas? Em tempos alguém me ensinou que devíamos fazer aquilo que mais gostamos, aquilo que nos faz acordar com um sorriso... A música fazia-me feliz, a poesia fazia-me sonhar e ao mesmo tempo viver. Então que dúvidas eram essas?
Nessa viagem, a Carla e o Vítor fizeram-me companhia, combinaramos esta viagem uns meses antes já depois de uns copitos a mais mas amplamente sóbrios para traçarmos esse "plano de festas"... Carla era psicóloga, vivia a mente humana com uma paixão imensa, escrevia sobre os doentes e estava a escrever um livro sobre aventuras no divã. Vítor um despreocupado médico dentista, o homem das mãos d'ouro. A primeira paragem foi San Sebastian e ficámos logo apaixonados pelo lugar. Olhei em meu redor, respirei o ar puro da montanha e pensei: sou um felizardo! Ele olhou para mim e disse:
- Obrigado Mário pela noite de copos que nasceu esta viagem! Sabes o que falta aqui para tudo ser perfeito?
- O quê?
- O teu Steinway - e sorriu para mim.
Ergui a cabeça e disse:
- Trouxe o roland, vou ligá-lo à corrente.
Foi lindo aquele momento, aquela noite: nós os três, onde ninguém nos conhecia a cantar despreocupados... Estávamos cansados da viagem mas eufóricos no que respeitava à aventura. O dia seguinte reservámos para uma descoberta mais radical, calçámos as botas e fizemos um percurso pedestre com os nossos pés quase a beijar o calmo riacho. O sonho desde há dois dias passara a ser uma realidade!
À noite, quando eles já dormiam sentei-me no exterior da caravana na minha cadeira de campismo, a olhar o incrível céu estrelado da montanha, a fazer contas à vida. Quem sabe se a primeira questão já não tivesse uma resposta: Seria eu, alguém feliz?
- Não tenho motivos para não ser.
As questões foram surgindo à velocidade da luz, bem diferente da que escolhemos para viajar: íamos à descoberta, íamos sem tempo para nada... As horas foram passando, as paisagens encantavam. Praga era já uma certeza, só tínhamos uma dúvida para esclarecer: seria ela tão bela como Kafka a descrevera nos seus livros?
Não sei se ela existe como a vejo ou se o meu coração a constrói aos poucos... A resposta vou encontar assim que chegar...
Mário,
Setembro 1996, no asfalto entre Bordeaux e Paris
Nessa viagem, a Carla e o Vítor fizeram-me companhia, combinaramos esta viagem uns meses antes já depois de uns copitos a mais mas amplamente sóbrios para traçarmos esse "plano de festas"... Carla era psicóloga, vivia a mente humana com uma paixão imensa, escrevia sobre os doentes e estava a escrever um livro sobre aventuras no divã. Vítor um despreocupado médico dentista, o homem das mãos d'ouro. A primeira paragem foi San Sebastian e ficámos logo apaixonados pelo lugar. Olhei em meu redor, respirei o ar puro da montanha e pensei: sou um felizardo! Ele olhou para mim e disse:
- Obrigado Mário pela noite de copos que nasceu esta viagem! Sabes o que falta aqui para tudo ser perfeito?
- O quê?
- O teu Steinway - e sorriu para mim.
Ergui a cabeça e disse:
- Trouxe o roland, vou ligá-lo à corrente.
Foi lindo aquele momento, aquela noite: nós os três, onde ninguém nos conhecia a cantar despreocupados... Estávamos cansados da viagem mas eufóricos no que respeitava à aventura. O dia seguinte reservámos para uma descoberta mais radical, calçámos as botas e fizemos um percurso pedestre com os nossos pés quase a beijar o calmo riacho. O sonho desde há dois dias passara a ser uma realidade!
À noite, quando eles já dormiam sentei-me no exterior da caravana na minha cadeira de campismo, a olhar o incrível céu estrelado da montanha, a fazer contas à vida. Quem sabe se a primeira questão já não tivesse uma resposta: Seria eu, alguém feliz?
- Não tenho motivos para não ser.
As questões foram surgindo à velocidade da luz, bem diferente da que escolhemos para viajar: íamos à descoberta, íamos sem tempo para nada... As horas foram passando, as paisagens encantavam. Praga era já uma certeza, só tínhamos uma dúvida para esclarecer: seria ela tão bela como Kafka a descrevera nos seus livros?
Não sei se ela existe como a vejo ou se o meu coração a constrói aos poucos... A resposta vou encontar assim que chegar...
Mário,
Setembro 1996, no asfalto entre Bordeaux e Paris
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