sexta-feira, 6 de maio de 2011

Retrato frio XIII

Não foi há muito tempo... em que olhei para alguém na rua, aqueles que se passeiam com a mão esticada e insultei-o, assim, bem lá no fundo de mim, a forma como essas pessoas viviam e abusavam da boa vontade dos outros, do sentimento de pena demonstrado a cada olhar... Os sem-abrigo são uma praga sem fim, era o que me vinha à cabeça, quando saía do estúdio às nove da noite para ir jantar qualquer coisa a casa lá estava um a pedir uma esmola para uma sopa.

- Para sopa ou para a droga?

Tantas vezes coloquei esta pergunta, depois ele dizia com um ar muito apagado e triste:

- Não é obrigado a dar! Só lhe estou a pedir uma moeda para poder comer uma sopa.

Sou sincero, não ligava nem sabia que existiam associações que forneciam refeições a troco de quase nada, não só no Porto como em Portugal. É estranho ter-me ocorrido este episódio... Hoje, sou um deles! As horas passam devagar, os minutos parecem meias horas, os meus pés inchados fazem-me quase perder as forças que ainda me restam para dizer algo, para dar mais um passo. A sopa que o "Coração da cidade" me dá todas as noites já não me alimenta, sinto falta do conforto de um lar, aprendi a fazer uma fogueira sem precisar de muito mas o calor que ela fornece é demasiado brando para as noites frias que se fazem sentir aqui, no centro da cidade. Nos tempos idos, em que o dinheiro não era para mim, um problema, decidi pegar no carro e fazer uma viagem com a máquina fotográfica debaixo do braço e fotografar o Porto desconhecido, aquele que não vem nos mapas e roteiros, vi pessoas a dormirem em condições desumanas, numa das ilhas pedi para entrar, fazendo-lhes prometer que não me roubariam e que no final da noite lhes ofereceria uma refeição quente a cada um... A vida de quem vive na rua ou tem uma casa a cair sem um mísero tecto para as abrigar é um verdadeiro flagelo, a presidência da Câmara nada mais pode fazer do que lhes oferecer uns cobertores e uma refeição quente todas as noites... Tentei saber o que faziam durante o dia, um deles, António, que me chamou mais à atenção, tinha sido funcionário de uma empresa de marcenaria, foi apanhado a roubar e ao invés de ir preso teve que sair sem nada... A vida foi piorando, as horas transformavam-se em dias, os segundos deixaram de fazer sentido... perdeu a mulher, que o abandonou por vergonha, a filha estava a estudar no estrangeiro e não regressara a Portugal. O tempo foi passando e António envelheceu, começou por arrumar carros perto do Hospital de Santo António, depois os meandros da droga falaram mais alto, o dinheiro fácil e o perigo, que tanto o entusiasmava (inexplicavelmente, dizia ele) anestesiaram-no e com isso chegou o consumo de drogas leves... A metadona acabou por trazê-lo de novo à "vida" mas nem por isso alterou o seu modo de vida: continuava a arrumar carros, fumava dois maços de cigarros por dia e vivia perto do Bairro do Lagarteiro, numa ilha...

Os dias foram passando, com ele os graus que se faziam sentir desciam em flecha. A sopa que me mantinha quente por momentos, normalmente às oito horas no "Coração da cidade" começava a não ser suficiente para a minha temperatura corporal se manter minimamente normal... Primeiro sinal de fraqueza, primeiro susto... Passavam alguns minutos da meia-noite, o ensurdecedor silêncio da cidade fazia-me pensar se seria uma data especial, mas não, tinha sido dado (contaram-me) alerta amarelo por causa dos ventos e baixas temperaturas... A minha casa, ali bem debaixo das arcadas do banco na praça quem desce Passos Manuel não se fazia sentir o vento, estava abrigado e por sorte, nessa tarde tinha conseguido guardar jornais (que me isolavam do frio) que encontrei no papelão a céu aberto mas o meu coração deu os primeiros sinais de fraqueza. O Quim chamou por ajuda nos Bombeiros que ficam ali ao lado, vieram dois homens feitos ver o que se passava. Viram-me a temperatura... A partir daí não me lembro de mais nada. Acordei, já o dia era uma realidade, e eu, estava deitado numa enfermaria do Hospital de Santo António. O diagnóstico levava-me a ficar, na melhor das hipóteses, uma semana. Tinha uma arritmia e uma leve pneumonia, o que me levaria a tomar medicamentos para controlar e claro, mudar de vida... Não quis saber de mais nada, o médico explicou-me a situação, só queria dormir confortável e quente... Há muito que eu não sabia o que era uma cama, essa semana passou a um ritmo vagaroso, não contava os minutos, de duas em duas horas olhava o relógio de parede que estava firmemente pendurado na minha frente. Quando começaram a chegar as visitas, uma senhora aproximou-se do marido, que estava ao meu lado em coma profundo, deu-lhe um beijo na testa e nada disse. Continuava concentrado nas forças que tinha de armazenar para continuar a sobreviver à vida na rua... Sem ter se quer trocado um olhar com essa senhora, acercou-se de mim e disse:
- O meu marido está assim há dois meses! Já perdi as esperanças que ele acorde... De maneira que quando venho aqui nada digo... Sento-me, olho para ele e revivo os momentos que passámos...
- Lamento... - disse!
- Posso perguntar porque está aqui?
- Pode! O meu coração decidiu pregar-me um susto e uma ligeira pneumonia causada pelo frio. Podia ter parado de vez, assim deixava de sofrer...
- O que precisa? O que sente falta?
- Eu? De mim! Da minha vida, do que fui um dia... Hoje, não sou nada! Há muito que deixei de ser... Divago pela cidade, conheço-a como ninguém, infelizmente...
- O que lhe aconteceu para ter chegado a esse ponto? Drogas...?
Sorri e disse:
- De facto a droga é um dos pontos de partida mas não... Gosta de música?
- Não percebi...
- Se gosta de música! Alguma vez ouviu falar de músicos clássicos do Porto?
- Sim, quem não se lembra de Mário Barreir...
- Sou eu! O que se sentava ao piano e esgotava as salas...
- Não acredito. Como pode ser o Mário Barreiros?
- Para alguns ainda existo, para outros, nou sou mais do que mais um sem-abrigo, sem destino no Porto...

Fez um silêncio que parecia não ter fim, desviou os olhos para o pátio interior do Hospital e ficou... distante por um tempo!
Enquanto ela, Maria, de seu nome fazia uma viagem eu recebia a "visita" de uma auxiliar que me trazia o almoço: uma sopa quente, um esparguete com carne, uma peça de futra e um pacote de bolachas... Saboreei cada colher, cada garfada daquela que muitos consideram intragável comida de hospital... Maria olhava para mim com um ar ainda distante... Nos seus olhos podia ler "como é possível?". Nessa tarde o seu esposo, companheiro de sempre dera um sinal... Tinha mexido o dedo anelar onde ainda tinha a aliança com o nome de Maria. Foi levado da enfermaria para uns exames... Eu mantive-me imóvel, a olhar o pátio do hospital... e a viajar... sem sair dali!

A noite caía, o meu corpo mantinha-se quente como há muito não sentia... Fechei os olhos e deixei-me dormir, depois de um chá quente e umas bolachas. Deus não me quis levar ontem... Mas deu-me abrigo! Os sonhos chegaram, e com eles a esperança num futuro novo. A rua era uma realidade que por dias deu um intervalo... O tempo foi passando, a vontade de construir um futuro diferente também...

Porto, 10 de Janeiro de 2003

Sem comentários:

Enviar um comentário