terça-feira, 3 de maio de 2011

Retrato frio XII

Há uns tempos atrás surgiu a possibilidade de fazer uma viagem, daquelas que só se fazem uma vez na vida, a tal que entitulamos de A Viagem. Lembro-me que estava nervoso quando me dirigi à zona industrial do Porto para ir buscar a autocaravana que estava reservada em meu nome. O objectivo da viagem era sobretudo para descobrir coisas que não sabia sobre mim, para encontrar respostas a questões que jamais conseguiria responder com o barulho dos carros, mensagens e chamadas nos telemóveis, almoços e jantares com amigos ou até mesmo sozinho... Apenas eu e o meu mundo. A viagem tinha data de regresso mas não teria ponto de chegada, a não ser, claro, o Porto. A ideia de viajar sozinho não era de todo a minha opção primária mas considerava importante convidar alguém que me conhecesse minimamente para que também pudesse usufruir das pequenas descobertas... A viagem decorria sem problemas, nem os sobressaltos nas estradas do interior me fizeram pensar em voltar atrás. A primeira pergunta que do nada surgiu foi sobre as opções de vida que tomara até então. Seria eu a pessoa indicada para responder a isso? Estaria a minha família preocupada por não ter enverdado por medicina ou engenharia? Terei eu tomado a decisão correcta em ser músico e poeta nas horas vagas? Em tempos alguém me ensinou que devíamos fazer aquilo que mais gostamos, aquilo que nos faz acordar com um sorriso... A música fazia-me feliz, a poesia fazia-me sonhar e ao mesmo tempo viver. Então que dúvidas eram essas?

Nessa viagem, a Carla e o Vítor fizeram-me companhia, combinaramos esta viagem uns meses antes já depois de uns copitos a mais mas amplamente sóbrios para traçarmos esse "plano de festas"... Carla era psicóloga, vivia a mente humana com uma paixão imensa, escrevia sobre os doentes e estava a escrever um livro sobre aventuras no divã. Vítor um despreocupado médico dentista, o homem das mãos d'ouro. A primeira paragem foi San Sebastian e ficámos logo apaixonados pelo lugar. Olhei em meu redor, respirei o ar puro da montanha e pensei: sou um felizardo! Ele olhou para mim e disse:

- Obrigado Mário pela noite de copos que nasceu esta viagem! Sabes o que falta aqui para tudo ser perfeito?
- O quê?
- O teu Steinway - e sorriu para mim.

Ergui a cabeça e disse:
- Trouxe o roland, vou ligá-lo à corrente.

Foi lindo aquele momento, aquela noite: nós os três, onde ninguém nos conhecia a cantar despreocupados... Estávamos cansados da viagem mas eufóricos no que respeitava à aventura. O dia seguinte reservámos para uma descoberta mais radical, calçámos as botas e fizemos um percurso pedestre com os nossos pés quase a beijar o calmo riacho. O sonho desde há dois dias passara a ser uma realidade!

À noite, quando eles já dormiam sentei-me no exterior da caravana na minha cadeira de campismo, a olhar o incrível céu estrelado da montanha, a fazer contas à vida. Quem sabe se a primeira questão já não tivesse uma resposta: Seria eu, alguém feliz?

- Não tenho motivos para não ser.

As questões foram surgindo à velocidade da luz, bem diferente da que escolhemos para viajar: íamos à descoberta, íamos sem tempo para nada... As horas foram passando, as paisagens encantavam. Praga era já uma certeza, só tínhamos uma dúvida para esclarecer: seria ela tão bela como Kafka a descrevera nos seus livros?

Não sei se ela existe como a vejo ou se o meu coração a constrói aos poucos... A resposta vou encontar assim que chegar...

Mário,
Setembro 1996, no asfalto entre Bordeaux e Paris

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