sábado, 30 de abril de 2011

Retrato frio XI

Foi a segunda vez na minha vida, a segunda como sem abrigo neste Porto sem sentido que fui para a esquadra da Polícia, no caso, a décima sétima esquadra, ali bem perto da Avenida da Boavista... Estava com o António na rua do costume (parece mal dizer isto) e chegou a polícia em duas carrinhas e puseram-nos numa espécie de uma "jaula", fui mais uma vez identificado e voltaram a não acreditar quem eu era, já não tenho bilhete de identidade. Esse perdi-o, deixei-o em qualquer lado, até porque infelizmente já não sou ninguém... Já fui!

Senti-me tão mal quando entrei naquele sítio ermo e frio, vi pessoas que nunca pensei ver, cruzei-me com polícias que conhecia mas que não me dizem nada, olham-me com desdém, como se eu fosse o maior dos criminosos, o mais procurado dos terroristas... Eu! Que não faço mal a ninguém, que até há bem pouco tempo enchia salas de espectáculo e cheguei a dar uns autógrafos no meio da rua como se fosse uma estrela de Hollywood. A estrela que brilha neste momento é a que está no céu, a que eu vi ontem à noite quando me deitava nas arcadas frias de uma praça no centro. Voltaram-me a fazer as mesmas perguntas, o que estava ali a fazer, estava a mando de quem, para que é que estava a arrumar carros, se estava a ganhar dinheiro para sopa ou para droga... RAIOS! Já disse que não me drogo, não estou a mando de ninguém, sou mais uma das muitas vítimas nesta cidade e neste país onde só reina quem é artista ou vigarista. Voltei a dizer que tinha sido músico mas a vida me deu uma bofetada, ao que o chefe Martins dizia:

- Isso é o que vocês dizem todos! Não passam de um chulos! Quando é que vais buscar o teu rendimento?

- Não tenho rendimento, não tenho nada! O que ganho gasto em comida, café e tabaco, que infelizmente voltei a fumar...

- Pois! A vida tem destas coisas...

Acabei por ficar detido algumas horas, quando voltei a ver a luz do dia desci até à beira-rio e chorei, chorei, chorei.... Tinha vergonha de me ver ao espelho, queria muito suicidar-me mas tenho medo para o fazer! Até nisso sou covarde! Sentei-me bem perto de um casal de japoneses, que exibiam as suas máquinas Canon com objectivas xpto... Ai! O que me passou pela cabeça: roubar para ter um tecto por uns tempos em Custóias, estava mesmo desesperado... Mas depois pensei melhor e deixei-os ficar por ali a contemplar a beleza daquela que já considerei ser "a minha cidade". Hoje considero a "minha casa". Estava tão sereno junto ao rio que me deixei ficar por ali até ao entardecer, subi a rua que ia dar à Estação de S. Bento e comi um hamburguer (mais uma vez...) com vista para o edifício da Câmara. Ainda estava a pensar onde ia dormir... Lembro-me do António me ter falado do "Coração da Cidade" que servia uma refeição quente uma vez por dia, que eu devia ir lá para comer uma refeição minimamente decente e buscar um cobertor para estas noites... que se esperam muito muito frias! Ainda não foi desta que fui ao "Coração da cidade" mas amanhã vou... Estará lá a minha salvação? Adormeci uma vez mais perto do Rivoli, não estava muita gente a assistir ao teatro, ou então saíram por outra porta que eu desconheço... Duas almas caridosas tiraram da carteira um euro e pensei:

- Já vai dar para tomar o pequeno-almoço! Uma boa refeição terei de fazer por dia, e eu dou muita importância ao pequeno-almoço...

Mas hoje, sinto-me um pouco mais em baixo, triste porque é hoje o dia de aniversário da minha Teresa... Onde andarás? Só de pensar que o ano passado fomos reviver uma das primeiras viagens que fizemos: Nova Iorque... Foi nessa viagem que eu perdi a cabeça e te levei a um concerto ao Carnegie Hall, onde actuou brilhantemente passado uns anos a Mariza, essa incrível e inconfundível voz do fado. Nunca mais me esqueço: gastei trezentos e cinquenta dólares nos bilhetes, fomos ver um concerto a quatro mãos: Mikhaïl Pletnev e Alexander Mogilevski. Foram momentos únicos... foi um sonho tornado realidade: ver um concerto de dois conceituados pianistas numa das melhores salas de espectáculo do mundo. Foi como uma segunda ou terceira lua-de-mel, foi mesmo muito bom: fomos só nós... levei a minha Canon e tu eras a minha modelo. Mal sabia eu que passado um ano estava nesta situação... Em que é que falhei Teresa? Podes-me dizer? Dá-me um sinal para que eu possa deixar de ser o actor principal nesta história... prefiro estar no lado do público, ao menos assisto à desgraça do lado de fora... Mas quem é que disse que a vida era justa?

Só os tolos é que acreditam nessa frase! Há tempos li um romance de um conceituado escritor português que se entitulava de "O amor é para os parvos"! Hoje pretendo mudar esse título para: "A vida de rua é para os que foram parvos...".

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Um sorriso... por entre a sombra

A luz que permanece
À entrada do meu quarto
Ilumina, um momento…
Um retrato

Na sombra criada pelas paredes
Viajo por entre pensamentos
Penso que o teu sorriso
Foi o maior dos meus doces tormentos

Sinto que a sombra
A imagem de ti reflectida
Na parede é tudo
O que preciso no meu dia

Sonho acordado
Com um doce
Ao mesmo tempo
Terrível pecado

Sinto o teu respirar
Ali deitada no leito
Um forte abraço
Para te sentir no meu peito

A luz que em breve
Faz-me acreditar
Que contigo vou sonhar
Num sonho feliz e leve

Todos os segundos que permaneço
Naquele, que um dia foi teu quarto
É apenas para olhar
O teu sorriso no retrato

Na sombra do quarto…
No silêncio da madrugada
Ao olhar o teu sorriso…
Sinto-te Mulher Amada

No silêncio da noite
Ouço um sorriso teu
Na calada da noite
Recebe um beijo meu

Que te encontre
A dormir…
Num sonho onde olhas
Para mim a sorrir…

Por lá da sombra
Que a lua faz em mim
Planto esta rosa
No meu jardim


Francisco Milheiro
12 Abril 2011

Retrato frio X

Os dias foram passando, com ele os graus que se faziam sentir desciam em flecha. A sopa que me mantinha quente por momentos, normalmente às oito horas no "Coração da cidade" começava a não ser suficiente para a minha temperatura corporal se manter minimamente normal... Primeiro sinal de fraqueza, primeiro susto... Passavam alguns minutos da meia-noite, o ensurdecedor silêncio da cidade fazia-me pensar se seria uma data especial, mas não, tinha sido dado (contaram-me) alerta amarelo por causa dos ventos e baixas temperaturas... A minha casa, ali bem debaixo das arcadas do banco na praça quem desce Passos Manuel não se fazia sentir o vento, estava abrigado e por sorte, nessa tarde tinha conseguido guardar jornais (que me isolavam do frio) que encontrei no papelão a céu aberto mas o meu coração deu os primeiros sinais de fraqueza. O Quim chamou por ajuda nos Bombeiros que ficam ali ao lado, vieram dois homens feitos ver o que se passava. Viram-me a temperatura... A partir daí não me lembro de mais nada. Acordei, já o dia era uma realidade, e eu, estava deitado numa enfermaria do Hospital de Santo António. O diagnóstico levava-me a ficar, na melhor das hipóteses, uma semana. Tinha uma arritmia e uma leve pneumonia, o que me levaria a tomar medicamentos para controlar e claro, mudar de vida... Não quis saber de mais nada, o médico explicou-me a situação, só queria dormir confortável e quente... Há muito que eu não sabia o que era uma cama, essa semana passou a um ritmo vagaroso, não contava os minutos, de duas em duas horas olhava o relógio de parede que estava firmemente pendurado na minha frente. Quando começaram a chegar as visitas, uma senhora aproximou-se do marido, que estava ao meu lado em coma profundo, deu-lhe um beijo na testa e nada disse. Continuava concentrado nas forças que tinha de armazenar para continuar a sobreviver à vida na rua... Sem ter se quer trocado um olhar com essa senhora, acercou-se de mim e disse:
- O meu marido está assim há dois meses! Já perdi as esperanças que ele acorde... De maneira que quando venho aqui nada digo... Sento-me, olho para ele e revivo os momentos que passámos...
- Lamento... - disse!
- Posso perguntar porque está aqui?
- Pode! O meu coração decidiu pregar-me um susto e uma ligeira pneumonia causada pelo frio. Podia ter parado de vez, assim deixava de sofrer...
- O que precisa? O que sente falta?
- Eu? De mim! Da minha vida, do que fui um dia... Hoje, não sou nada! Há muito que deixei de ser... Divago pela cidade, conheço-a como ninguém, infelizmente...
- O que lhe aconteceu para ter chegado a esse ponto? Drogas...?
Sorri e disse:
- De facto a droga é um dos pontos de partida mas não... Gosta de música?
- Não percebi...
- Se gosta de música! Alguma vez ouviu falar de músicos clássicos do Porto?
- Sim, quem não se lembra de Mário Barreir...
- Sou eu! O que se sentava ao piano e esgotava as salas...
- Não acredito. Como pode ser o Mário Barreiros?
- Para alguns ainda existo, para outros, nou sou mais do que mais um sem-abrigo, sem destino no Porto...

Fez um silêncio que parecia não ter fim, desviou os olhos para o pátio interior do Hospital e ficou... distante por um tempo!
Enquanto ela, Maria, de seu nome fazia uma viagem eu recebia a "visita" de uma auxiliar que me trazia o almoço: uma sopa quente, um esparguete com carne, uma peça de futra e um pacote de bolachas... Saboreei cada colher, cada garfada daquela que muitos consideram intragável comida de hospital... Maria olhava para mim com um ar ainda distante... Nos seus olhos podia ler "como é possível?". Nessa tarde o seu esposo, companheiro de sempre dera um sinal... Tinha mexido o dedo anelar onde ainda tinha a aliança com o nome de Maria. Foi levado da enfermaria para uns exames... Eu mantive-me imóvel, a olhar o pátio do hospital... e a viajar... sem sair dali!

A noite caía, o meu corpo mantinha-se quente como há muito não sentia... Fechei os olhos e deixei-me dormir, depois de um chá quente e umas bolachas. Deus não me quis levar ontem... Mas deu-me abrigo! Os sonhos chegaram, e com eles a esperança num futuro novo. A rua era uma realidade que por dias deu um intervalo... O tempo foi passando, a vontade de construir um futuro também...

Porto, 10 de Janeiro 2003

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Retrato frio IX

Estava longe de imaginar que hoje seria o pior dia e a mais fria noite da minha vida, nunca pensei (nem em pesadelos) chegar a este ponto. O Eduardo chegou a casa mais cedo do que o habitual, as minhas pernas não se perderam tanto como o habitual pelas ruas do meu Porto, à qual um dia chamei de "Porto de Abrigo"... Era mesmo isso que eu ia precisar mas nunca pensei que ia ser tão depressa, ou melhor, nunca pensei que isso fosse acontecer. O Eduardo entrou em casa e disse-me que ia sair de Portugal por uns tempos, não sabia quanto e que ia deixar a casa a um familiar, por isso, era o meu fim no conforto do lar. Nunca mais me esqueço, olhei-o nos olhos, com os meus lavados em lágrimas:

- Não me faças isto, por favor! Porque tens de ir? Logo agora que eu preciso de ti...
- Mário, não me ponhas pior do que já estou, ainda podes tomar um banho e eu arranjo-te as minhas roupas de inverno todas, vou amanhã para os Estados Unidos..
- Leva-me contigo! Começo lá uma nova vida, ninguém me conhece... Aqui já não sou o Mário que enchia salas e que as pessoas veneravam nas boémias Galerias e Foz Velha.
- Desculpa, tens de ir embora hoje.
- Para onde vou? Dormir em que sítio? Já não conheço a minha cidade, sinto-me um pedaço de mau cheiro neste pequeno mundo que é o Porto. Só te tenho a ti, não me faças isso...
- Desculpa-me, não quero fazer mas tens de ir.

Fiz as malas, arrumei tudo o que tinha meu e dele (que me ofereceu) tomei um último banho (sabe-se lá quando tomarei o próximo), hoje serei oficialmente, mas não o digo orgulhosamente, um sem abrigo do Porto, mais um dos seiscentos e oitenta e cinco... Ai! Que faço à minha vida? Se eu fosse forte atirava-me para a frente de um comboio mas nem isso tenho coragem para fazer. Durante o banho vieram-me à cabeça todos os bons momentos que vivi com o Eduardo pelas noitadas do Porto, pelas noites à conversa com inglesas e alemãs e depois deliciá-las com música, ora em minha casa, quando eu era solteiro, ou no Twins no velho piano de cauda Steinwag; os dias de ensaio, os poemas que ele escrevia e que me ligava, fosse a que horas fosse, meu Deus, e agora isto! SEM ABRIGO! Sem um tecto para me proteger, sem uma família para amar... Resta-me uns euros na carteira, tudo o que guardei "debaixo do colchão" de alguns concertos. Não tenho esperança nenhuma de recuperar o que me devem, mas agora não consigo pagar nem ao meu melhor amigo um jantar para me despedir...

Esta primeira noite vai ser a pior de todas: o frio aperta, a polícia ronda os lugares onde os sem abrigo se escondem, uma criança brinca indiferente com o barulho das ambulâncias rumo às urgências do St.º António. Para onde vou? Arcadas do tribunal? Fingo-me doente e arranjo uma cama pelo menos esta noite no SO? Sinto-me um animal abandonado, divago, vagueio, perco-me no meu Porto. Encostei-me a um banco nos jardins da Cordoaria, não preguei olho a noite toda... O amanhecer chegou devagar e com ele veio a chuva e o vento gélido de Dezembro. Ai! Será que me restam muitos dias como sem abrigo? Conseguirei sobreviver neste "mundo" da sobrevivência? Nunca pensei chegar a este ponto: arrumei carros durante a manhã, bem perto das consultas do hospital de St.º António, travei conhecimento com o António, aquele arrumador que por um ano não foi juíz... Arranjou-me um cigarro e deu-me lume. Nem o quente do café que tomei há minutos me aqueceu suficiente as mãos, quanto mais a alma. Não me sinto, nem física nem mentalmente forte para aguentar o que ainda agora começou e está para se agravar. O dinheiro que fiz deu-me para uma refeição económica para os lados dos Aliados: uma sopa quente, um chá quente (como bebida) e um prego mal amanhado mas que me soube pela vida. A tarde foi fértil em termos de "arrumação" de carros, ainda há pessoas que vêm de uma forma menos má os arrumadores, apenas estamos ali para os ajudar... Quem diria eu, que até há bem pouco tempo dava um euro a um sem abrigo para me ajudar a arrumar o carro hoje sou um deles! Que vergonha...! Não me olhei ao espelho quando fui à casa-de-banho do snack-bar para fazer a minha higiene pessoal: ainda tenho pasta dos dentes e a minha escova, o desodorizante está a acabar... A minha vontade de viver, sinceramente também...

Acabei por comer um hamburguer no MacDonald´s dos Aliados por me encher o estômago e ser barato. A noite, essa? Passei-a nas ruas da confusão, nas Galerias. Comprei um maço de tabaco (é dos poucos prazeres que ainda posso satisfazer) e o jornal roubei a uma senhora que adormeceu no café... Nunca me imaginei a fazer tal coisa, mas é certo que o fiz. Li as notícias do país:
- Portugal em crise!
- Marido mata mulher à facada por ciúmes do vizinho
- Porto vence em hóquei
- Viagem ao Brasil do Presidente X

Tudo isto que parecia banal, quando eu tinha o meu emprego, agora parecia-me ainda mais! Não tenho nojo do meu país, não tenho raiva do meu governo, só tenho pena de mim, por ter chegado onde cheguei e agora não saber o chão que pisei. A noite está a chegar e eu tenho medo... medo dela não passar. Amanhã é mais um dia, se lá chegar...

Porto, 4 de Dezembro 2003

Retrato frio VIII

Foi com algum espanto, devo dizer (para quê mentir!?) que recebi um convite de uma sala incrível do mundo do espectáculo, a Ópera de Praga convidou-me para um recital que ia acontecer em Janeiro... Sempre tive Praga no meu coração, aliás, lembro-me que foi em Praga e na República Checa que passei uma das melhores férias da minha vida, com a Joana, a minha primeira namorada. Não me lembro de ter tido uma miúda como ela, era mesmo sensacional como pessoa e sobretudo como AMIGA. Até há bem pouco tempo ainda falava com ela quando vinha ao Porto jantávamos sempre e ficava em minha casa, até tomava conta do meu filho, pouco tempo depois de ele ter nascido para a Teresa poder assistir a um recital meu na Avenida da Boavista.

O recital que eu tinha de preparar era sobre autores e compositores checos, Kafka sempre foi um dos meus autores preferidos (em termos literários), em termos musicais conhecia poucos checos... mas lá fui investigar o que havia na biblioteca onde guardo, religiosamente e alfabeticamente as obras musicais. Lembro-me que liguei para a minha primeira professora de piano, a professora Helena do Conservatório de Música do Porto e ela lá me deu umas indicações sobre que obras e estudos tocar... Sempre gostei dela, muito atenta nos meus erros (isso era o lado menos positivo, pelo menos na minha tenra idade), aconselhou-me:

- Bedrich Smetana (por muitos considerado o PAI da música checa, foi ele o compositor da famosa peça "Má Vlast", traduzindo dava "Minha Pátria" e que evocava o Rio Moldava, o rio que atravessa Praga que é tão famoso...
- Antonin Dvorák (compositor checo do período romântico que usou nas suas obras muitas melodias populares da Morávia e da sua Boémia natal.

Escolhi o tema principal do Bedrich e de Antonin seleccionei "Danças Eslavas", eram temas bastante alegres e quis na altura convidar Sofy Vlag, uma pianista exímia no clássico e romântico... Encontrei-me com ela, por acaso numa noite do Porto, ela estava cá para fazer um recital com a Orquestra Nacional e eu andava a passear-me pela Foz. Era uma referência para mim, apesar de eu ser mais velho. Aceitou desde logo o convite... Eu estudei outra vez sobre Praga para saber onde ia voltar a passear, escolhi o hotel, fiz as malas com a Teresa e partimos... Já estávamos habituados a estas andanças mas estávamos longe de imaginar o que nos ia acontecer quando chegamos a Praga... Limousine, shouffer e suite presidencial. Foram os dias mais felizes das nossas vidas. Éramos o mundo, tínhamos o mundo aos pés... Bastava estalar o dedo que tínhamos o que queríamos. Jantámos por Praga no hotel na primeira noite, a viagem apesar de não ser muito longa foi atribulada... Voltámos a captar umas imagens na zona do Rio Moldava, com o incrível palácio no pano de fundo. Éramos mesmo apaixonados por aquela cidade e queríamos viver ao máximo aqueles momentos a dois, enquanto eu tinha um tempo... Foi então em Praga que falámos sobre o futuro, casar, ter filhos, ter uma casa com piscina, eram os nossos sonhos, iguais a tantos outros casais. Falámos sobre paixões antigas e aventuras, romances e paixões de verão, e eu contei-lhe sobre uma aventura em Brasília aquando da minha passagem pela capital do nosso país irmão para entoar os sons da "Garota de Ipanema" e outros temas do Tom Jobim e Vinicius de Moraes, na altura falei com Marília Gabriela para a "Rede Globo", tinha conhecido uma brasileira no bar do hotel, tomámos uma cerveja e mais umas caipirinhas e tivemos uma noite de paixão. A Teresa contou-me de um engate numa noite de verão no velho Swing na Foz com um italiano de seu nome Marcello. Fiquei tão curioso com a história que qunado cheguei ao quarto do hotel comecei a escrever algo sobre isso, sobre os romances de verão no tempo em que não se dizia a palavra NÃO!


Fiz o primeiro ensaio com Sofy Vlag na quinta-feira depois de almoço, tinha umas mãos como eu nunca tinha visto numa mulher... Dedos compridos, movimentos rápidos mas seguros, tensos mas suaves nas teclas do steinway que eu tinha pedido. Foi uma tarde agradável de trabalho, partilhámos segredos, descobrimos gostos em comum, ela também era do Futebol Clube do Porto e tinha uma curiosidade sobre a vida e obra de Smetana. Jantei com a Teresa e convidámos a Sofy para uma taça de champanhe no hotel depois do jantar. Ela compareceu imperetrivelmente às vinte e duas horas com o namorado e também músico, David. Foi um serão agradável que acabou no piano do hotel: um "concerto" a quatro mãos, eu e Sofy enquanto que a Teresa e David conversavam... Nunca fui possessivo nem quis ser controlador mas o que é certo é que senti o meu lugar ameaçado por algumas vezes... Eu sabia que a Teresa me amava mas podia uma amizade tornar-se numa "paixão numa noite de verão"... No caso nem podia ser porque estavamos em Janeiro... O recital foi incrível, fui muito bem recebido pelo público checo, que desde logo comecei a perceber que tinham algumas parecenças com o público do Norte do meu Portugal, o meu tão aclamado Porto. A noite correu tão bem que fui convidado a permanecer mais uns dias e fazer um concerto com a orquestra sinfónica de Praga, devo dizer, que esse era um dos meus sonhos: tocar com uma orquestra de renome internacional, não desfazendo a "minha" do Porto.

Foi nessa noite... na noite em que pensava que seria a nossa útlima noite que fizemos amor e foi nesse momento que percebemos: era altura de dar o nó. Aproveitámos a estadia em Praga e tratamos tudo às escondidas da família e dos amigos, quisemos ser níos a escolher tudo... Desde roupa a convidados. A minha velha e querida Praga ficaria marcada para sempre, novamente na minha vida. Foi aqui que tudo começou.... Que geramos uma família.

Praga, 5 de Janeiro 2003

Retrato frio VII

"Porto, 2 de Dezembro de 2008

Esta data fica para sempre marcada como o início de uma nova etapa na minha vida... Sinto a vergonha de olhar para trás e abandonar a casa que em tempos julguei ser capaz de manter mas foi pura ilusão... Deixei lá tudo o que tinha, o meu cão ficou para trás, a minha Teresa e o nosso primeiro filho... Ela, foi para casa dos pais e levou o miúdo. Eu tenho vergonha de pedir ajuda a quem quer que seja, deixei de falar com os meus pais há uns anos largos, entretanto a minha mãe faleceu. Não estive no funeral, estava em Budapeste para dar um recital de música clássica também com um grande pianista romeno, de seu nome Constantin Sandu, não senti a dor que um filho sente, deixaram de ser meus pais, cortei relações em definitivo com eles... Lembro que cheguei a Budapeste, tinha uma mensagem do meu irmão a dizer que a mãe tinha sido internada e que seria bom eu estar no Hospital, mas eu não voltei para trás. Enviei uma mensagem a dizer onde estava e que eles já tinham deixado de ser a minha família, apenas contava com ele para o que desse e viesse.

Morava perto de Miguel Bombarda, numa das zonas históricas do Porto, lugar da boémia e das noites mal dormidas, ou por trabalho ou em lazer, ali pelos lados de Cedofeita, num café onde persistia um velho steinway com vista para uma parede onde Marlyn Monroe sorria... Grandes noites passámos nós, digo nós, músicos e boémios do Porto Velho, aquele Porto que os turistas não conhecem e que teimam em não querer conhecer... Pedi abrigo temporário a um grande amigo meu, Eduardo Brás de seu nome, era solteiro, tinha 30 anos e uma vida de boémio também, era poeta e escrevia umas colunas para um jornal do Porto e depois tinha o seu blog na internet. Raramente nos encontrávamos, mas lembro-me que por mais de uma vez me pediu para que lhe arranjasse bilhetes para um recital meu. Lembro-me muito bem do último concerto que ele assistiu: foi na fundação Copertino Miranda e depois fomos jantar uma francesinha ao tal café que tinha o piano e por lá continuamos noite dentro... Abriu-me as portas de sua casa como se fosse minha mas não queria abusar da sua boa vontade. Expliquei-lhe o que se passou, ao que ele me disse: - Mas eu não sabia que estavas com dificuldades financeiras!
- Não estava! Mas vivi sempre na ilusão que podia pagar pelo que fui comprando, lembras-te do Steinway que não tinha 2 anos? Comprei entretanto um Yamaha C4 e ia pagando ás prestações, depois comprei um carro para a Teresa a pronto, depois montei o estúdio lá perto... mais um investimento sem empréstimos... Quando fui a ver estava até ao pescoço a dívida...
- E os concertos?
- Dinheiro ainda não chegou e de alguns não sei se vou receber nem metade... Prometeram-me mundos e fundos e quem vai ao fundo sou eu...
- Vá tem calma, eu ajudo-te!
- Deixa-me ficar uns dias aqui até eu arranjar uma solução...!
- A casa é tua! Não te vou deixar ficar na rua...
- Tanto que lutei... A casa dos nossos sonhos fica agora nas mãos de um banco, o piano não o consegui pagar e eles vão-me lá buscar para a semana. Que vergonha!
- Vá! Não penses mais nisso, anda, vamos beber uma cerveja! Pago eu!

Escorreram-me as lágrimas pelo rosto ao ouvir estas palavras "Pago eu!". Em tempos eu convidava os amigos e eu é que pagava o jantar, e agora convidam-me para uma cerveja. Saí de casa e trouxe na carteira tudo o que tinha no meu cofre: 300 euros! É triste, mas é verdade! Amanhã vou tentar vender o meu relógio e a minha aliança, não faz sentido eu ter... As horas não preciso para nada, e a minha mulher... ficou para trás, para poder seguir a sua vida.... para a frente! A minha está a andar para trás, e hoje é só o primeiro de uma nova vida, seguramente, uma que não escolhi!

Retrato frio VI

Divaguei nessa noite pelo meu Porto, desta vez já sem o meu carro, tudo o que tinha, tudo o que o tempo e o trabalho me deram foram por água abaixo, nunca pensei, eu... Enquanto passava por mais uma das muitas lojas de música da minha cidade e olhava um piano de cauda da Kawaii lembrei-me do piano em que tive as primeiras aulas com o professor Steve em Nova Iorque, na NYMS, é estranho, não é? Ver alguém ao espelho que não conhecemos de maneira nenhuma, que para comer precisa de pedir, que arruma caros quando até à bem pouco tempo eles, arrumadores, não passavam de um bando de malandros que vagueavam pelo Porto ao som do "Chino Fininho", sempre com atenção à polícia que se passeava tranquilamente pelas ruas e becos da cidade...

Foi a primeira vez na minha vida que senti vergonha de quem sou, não do que fui e do que fiz, mas pelo que me aconteceu! Como pude eu pensar que a vida de artista iria ser um mar de rosas!? Quem me disse que um concerto era sinal de dinheiro em caixa! Tantas banhadas apanhei eu na minha vida que ao olhar para trás me rio. Nunca realizei o sonho de tocar no "meu" Coliseu com os grandes mestres da música do mundo, os grandes maestros como o português Vasco de Azevedo, tantos outros com quem eu me cruzava nos corredores das salas de espectáculo que frequentava. No tempo que estive em frente à montra da loja fez-me pensar sobre quanto é que as pessoas pagavam por um bilhete para me ouvir tocar numas teclas brancas e pretas num cenário quase perfeito num palco com inúmeros efeitos de luz. O som!? Tenho orgulho em dizer que esse era bem natural, nunca quis um micro por cima dos meus pianos. Sabia que as pessoas que estavam na sala estariam em silêncio, vinham para me ver, pagavam para me ouvir. Lembro-me também no dia em que esgotei a sala Suggia na Casa da Música, para em "dueto" com um grande músico portuense entoarmos temas de um passado que eu, com sorte, não cheguei a assistir. Lembro dos meus tios contarem a ida de tios meus para a guerra de África e Ultramar. Sentia, de cada vez que pensava nisso, um arrepio na espinha. O mesmo que agora sinto, mas não porque me lembrei, mas sim porque tenho frio... O meu querido amigo Eduardo estava em Lisboa e só chegava por volta da meia noite, e eu não quis ficar com a chave de casa, tinha medo que me roubassem na rua... As pessoas que um dia me bateram palmas, hoje fogem de mim, tentam a todo o custo não passar à minha beira, consideram-me mais um dos muitos sem-abrigo neste porto sem sentido. Estamos em Dezembro... Uma criança brinca indiferente a tudo o que se passa à volta, não quer saber se um carro aparece de repente, quer brincar para se abstrair do frio. A sua mãe, senhora de não muita idade (aparentava uns trinta) pedia uma esmola a quem por ela passasse. Sinto-me triste, vazio, mas ainda tenho um tecto para viver, apesar de a mim não pertencer.

No regresso a casa de Eduardo fui abordado pela polícia, foi a primeira vez na minha vida que tive medo de tal personagem da cidade, puseram-me no carro e levaram-me para a esquadra. Quando lá cheguei, algumas dezenas de jovens e velhos sem abrigo lutavam por um cobertor, enquanto outros eram interrogados sobre o que faziam naquele sítio, aquela hora... Quando foi a minha vez de falar perguntaram-me num tom brusco e medroso:

- Nome! Idade!
- Mário Barreiro, trinta e cinco anos.

Ouvi uma grande gargalhada, depois um dos inspectores da PJ dizia:
- Esse é músico! Não és o mestre das teclas. Lembras-te Marco, quando fomos ver o concerto dele no Batalha?
- Sim, lembro-me!
- Então o senhor diz que se chama Mário Barreiro. Tem a certeza que é mesmo o seu nome? Então se é músico, eu também fui. Que notas constituem um dó maior?
- Dó, mi, sol! Respondi sem pestanejar nem demorar...
- Olha Marco, um arrumador instruído! Então sabes responder a esta: a semínima é ou não uma nota musical?
- Não! É uma figura que representa o tempo em que uma nota deve soar!

Ficaram de boca aberta os inspectores. Mas não se fizeram rogados, continuaram a fazer perguntas de música e eu sempre a responder. Olharam para mim e disseram-me olhos nos olhos:
- Nós vamos-te apanhar! Vê o que andas a fazer pela cidade!
Nunca me senti tão humilhado na minha vida, nem mesmo naqueles espectáculos em que só tinha meia dúzia de pessoas a assistir, aquilo foi desumano. No caminho para casa do Eduardo chorei, chorei, chorei... Coloquei tantas questões a mim próprio que nem dei fé de um grave acidente ali bem perto dos Aliados... Ai, puta de vida!

Retrato frio V

Ainda fiquei uns dias por Lisboa, a Sofy deixou-me um envelope no quarto mesmo antes de partir com umas notas e escreveu:
- Hope to see you soon… on stage! (Espero ver-te em breve… em palco!)
Aquelas palavras deram-me força, e o dinheiro que me deixou vai-me deixar “viver” razoavelmente nas ruas da minha cidade. Tenho tanta vergonha, há pouco tempo era um grande músico, com objectivo de conquistar salas e mais salas, tocar com grandes mestres e ter a meu lado uma orquestra de Berlim… agora a música que ouço são as buzinas dos carros, os mestres são os arrumadores que vivem daquilo há muito tempo… os que têm o curso avançado em sobrevivência na rua. Conheci na estação uma rapariga que iria também viajar para o Porto em busca de emprego na área da Farmacêutica, chamava-se Inês e só tinha vinte e dois anos… Desejei-lhe a maior sorte tentando alertá-la para os perigos que se escondiam na minha cidade… Disse que tinha amigos por lá que a podiam ajudar, agradeceu e alturas tantas perguntou-me (parta-se do princípio que eu estava com cara de tudo menos de sem abrigo…):
- Bem, para encurtar a história da minha vida vou-lhe dizer o que fazia: eu era músico até há bem pouco tempo, esgotava salas e salões de festas, era artista convidado para exposições de pintura para dar um bocado de “vida” às imagens ou estatuetas…
- O que aconteceu? Perguntou ela de rompante.
- A vida é complicada, o dinheiro dos espectáculos começaram a não aparecer, depois quando apareciam não eram na totalidade, depois entretanto a minha filha adoeceu e eu deixei de ter cabeça para dar concertos, cancelei toda a tournée que tinha marcado, a minha mulher entretanto deixou de trabalhar para tomar conta dele e eu…. Fiquei na rua!
- Mas, e os seus pais? Os seus irmãos?
- Só tenho um irmão mas não falamos desde há muito tempo, ele ficou muito triste comigo quando foi a morte do meu pai, eu estava nos Estados Unidos e não estive presente, a minha mãe nunca aceitou a minha profissão apesar de ser uma entusiasta da música, sempre achou que um homem devia ter um emprego das nove às cinco… No dia em que comecei a ganhar bom dinheiro ela ficou reticente e reflectiu melhor mas nunca achou que esta seria uma profissão com futuro. No dia em que cheguei a casa com um cheque de cinco mil euros referente a um recital no Coliseu de Coimbra acreditou mais nas minhas potencialidades e a forma fácil de ganhar dinheiro, porque o piano para mim sempre foi um divertimento… Mas não pense que a minha vida foi fácil, longe disso. Olhe, lembro-me que quando era novo os meus pais tinham os tostões contados, nem sempre havia dinheiro para comprar um pão, um quilo de arroz ou umas batatas para a sopa. A minha mãe trabalhava na Câmara Municipal do Porto, o meu pai era contabilista numa junta nacional de frutas ali perto da estação das Devesas em Vila Nova de Gaia. O meu irmão é mais velho que eu mas dávamo-nos bem. Para ver como tínhamos dificuldades vou-lhe contar o que aconteceu uma vez na escola. Eu tinha um lápis que já estava no fim e um companheiro de carteira, o Artur deixou o dele, novinho em folha na secretária ao final da manhã. Eu, convencido que estaria a fazer um favor à minha mãe cheguei a casa todo orgulhoso e fui-lhe dizer:
- Mamã, mamã, já não precisa de comprar um lápis novo para mim! Fiquei com o do Arturinho que deixou ficar na secretária dele.
- Não, meu filho! Vais fazer o que a mamã te vai dizer: vais sair por aquela porta e vais bater à porta do Artur e entregar-lhe o lápis. Esta que seja uma lição para toda a vida: não deves ter nada que não seja teu.
….
- Estou a ver que a sua vida não foi nada fácil. Então, mas o que aconteceu agora? O que faz para viver?
- Eu? Vivo dos automobilistas simpáticos que a troco de os ajudar nas manobras me dão uma moeda e alguns uma peça de fruta… Sempre vivi no Porto até ir para os Estados Unidos estudar música na New York Musical School mas a vida traiu-me passado uns anos… Ai! Só de me lembrar que vivia num apartamento ali perto do Central Park… agora o parque da cidade do Porto é o meu local de recolhimento e onde paro para pensar… a minha casa são as arcadas frias da Praça D. João I e por vezes a estação de São Bento… Durante alguns dias fiquei em casa de um grande amigo meu que é para além de músico, poeta mas ele teve de se ausentar do país e entregou a casa a um familiar, e eu, no dia 2 de Dezembro fazia parte da lista dos sem abrigo do Porto… Custa-me dizer isto depois de ter tido uma casa com tudo e mais alguma coisa…
- É triste, é verdade! Mas, o que pensa fazer agora quando chegar ao Porto?
- Não sei… Sinceramente já pensei em me matar porque a minha vida não faz sentido desde a morte da minha filha, mas não tenho coragem. Tive coragem para fazer muita coisa na minha vida. Olhe, lembro-me que uma vez estava num bar com uns amigos a conversar e a nossa banda preferida ia actuar em Londres, fizemos os sacos, pegamos nas motos e fizemos os cerca de dois mil quilómetros por estradas de descoberta… Xii! Que viagem, Meu Deus!
- Porque fala do passado? Não quer viver o presente e pensar no seu futuro, que pode ainda ser brilhante?
- Minha menina, a vida prega-nos partidas que nem eu próprio como músico consigo explicar musicalmente numa canção ou numa peça que faça… Está mesmo difícil para mim o meu futuro, advinha-se muito negro e eu quero acima de tudo ter os pés bem assentes na terra… Por falar em terra, já viu onde estamos?
- Aveiro! A cidade dos ovos moles.
- Acho que vou sair aqui e viajar um pouco pelas minhas memórias de infância e juventude, já fui muito feliz aqui com uma rapariga que se dizia minha namorada, a Carla. Éramos jovens, muito ingénuos… Bem, se não nos virmos mais foi um prazer conhecê-la, desejo-lhe as maiores felicidades para a sua carreira.
- Obrigado eu pela companhia. Nunca pensei que um arrumador fosse … assim tão educado!
- Ainda sou virgem… - Sorri para ela.
- Então ainda bem que assim é. Que não perca essa ingenuidade. Até breve, ver-nos-emos com certeza pelo Porto. Tudo de bom…
- Obrigado! Até sempre…
Saí do comboio e viajei pela minha antiga cidade onde me refugiava para namorar, comecei pelo centro mas estava tudo tão diferente que nem eu sabia onde estava a famosa pastelaria onde engordei uns quilinhos por causa dos ovos moles… Ai, que saudades! Talvez essas saudades me levaram também, a sair do comboio. Sinto que esta passagem por Aveiro me vai fazer esquecer por um bocado que cresci, sou adulto e… sem abrigo. Se o tempo pudesse voltar atrás? Se calhar não encomendava o piano da Steinway, não tinha comprado o Porsche para a Teresa e não tinha gasto tanto dinheiro para insonorizar a casa e enchê-la de colunas…
Divaguei um pouco pela cidade, arrumei mais uns carros, ganhei mais uns euros para o comboio… Está na hora de voltar ao que eu sempre achei Porto de abrigo mas que para mim é um Porto sem sentido…
Estamos a poucos dias do Natal, não me imagino passar um natal na rua, passar pelas casas e ver pessoas sentadas à mesa com o bacalhau, as couves, as filhoses, as rabanadas… Ai! Só de pensar… Gostava tanto que o Eduardo voltasse a tempo de eu ter um Natal normal… mas que nunca será porque não vou ter a meu lado a Teresa, a minha família (parte dela)…

Aveiro, 18 de Dezembro

Francisco Milheiro
26 Outubro 2010

Retrato frio IV

Porto, 10 de Dezembro

Não me recordo, sou sincero, de nos últimos anos ter passado pelo jardim onde estive hoje o dia quase todo… Não sei explicar exactamente o que senti quando entrei naquele espaço, onde de facto, se respira melhor, os cheiros e sentidos são assaltados por todos os lados, fica perto do centro… Sentei-me num banco e fiquei a admirar o que há minha volta se encontrava, apesar de ser inverno os pássaros entoavam uma melodia bonita, imaginei logo como seria o seu ritmo, 4/4. Estava tão envolvido naqueles sons musicais que dei por mim já a vaguear nos meus pensamentos, esses famosos que ainda não se pagam, pelo menos até ver! Voltei a recordar Praga e os momentos que passei com a Teresa na minha cidade de eleição da Europa. Li numa reportagem sobre Praga que dizia assim: Praga é tão bela que parece que a estamos a descobrir pela primeira vez… Durante a minha vida de músico viajei por muitas cidades, mais é certo, na Europa, e de todas as que visitei Praga e Roma foram as minhas preferidas. Lembro-me que em Roma fiz um recital com um violoncelista conhecido, tocámos Schubert e Beethoven num concerto que durou aproximadamente duas horas. Foi dos mais importantes e impressionantes concertos que tive oportunidade de dar. Fiquei por Roma três dias depois do concerto e fui em conjunto com a Teresa e o meu representante descobrir a cidade das conquistas dos romanos, visitámos como é lógico, o Coliseu (obra imponente… costumo dizer que o Coliseu está para Roma como os Clérigos estão para o Porto), é impossível ir lá sem conhecer…

No meio destes pensamentos vi uma rapariga, que não aparentava mais do que vinte e poucos anos chorar compulsivamente, aproximei-me devagar, peguei do meu bolso direito do casaco castanho um lenço de papel e entreguei…

- Obrigado! Disse-me ela.
- Precisa de alguma coisa? Posso ajudar em algo?
- Infelizmente não me pode ajudar, prefiro estar sozinha.
- Permita que me apresente: Mário Barreiros…
- AH! Essa é boa! Desculpe me rir mas eu conheço Mário Barreiros, é um conceituado músico portuense, e você não é nada parecido com ele…
Tirei do meu bolso de dentro a minha carteira onde guardava ainda o que tinha amealhado do dia anterior e algumas recordações: a minha aliança, uma foto minha com o meu cão, e uma foto com a Teresa e com o nosso filho, o Diogo…
- E então, já me conhece?
- Peço desculpa de não acreditar em si mas não é possível… Mário Barreiros era um músico que ganhava muito dinheiro, não é um Zé Ninguém, desculpe se o ofendi…
- Não ofendeu! Já me chamaram coisas piores…
- Mas, o que lhe aconteceu? Perguntou com um sorriso nos lábios, como se não acreditasse na minha história…
- A minha história conta-se num instante, infelizmente… Era músico conceituado, tinha uma vida boa, uma casa, uma família, e de repente fiquei sem nada… Sempre me habituei a ter tudo o que era do bom e do melhor tendo sempre fé que pagava as minhas contas… Comecei por adiar o pagamento da casa ao banco, depois do piano que mandei fazer na Steinway, depois do Porsche que comprei para a minha mulher… e o dinheiro que supostamente iria receber dos recitais pouco apareceu, e comecei a ficar endividado… Um dia estava a chegar a casa de mais um recital fora do país e tinha a polícia à porta com uma ordem judicial para ficar com todos os meus bens… A minha mulher acabou por sair de casa com o meu filho para casa da mãe dela, eu ainda consegui arranjar um sítio para ficar durante uns dias mas o meu amigo precisou de viajar para fora de Portugal sem data de regresso e emprestou a casa a um familiar… E eu, acabei aqui… Agora vagueio pelas ruas de manhã, vou ajudando as pessoas a estacionar… e basicamente é esta a minha história. Agora sou mais um dos seiscentos e oitenta e cinco sem abrigo neste Porto sem sentido.
- Sabe? Eu também fui pianista, mas a minha vida mudou muito e a música deixou de ter significado para mim… Durante muitos anos tive aulas de piano com um professor bastante conceituado da nossa praça, chamava-se Francisco Vieira, e na minha vida artística, se podermos chamar, conheci um rapaz por quem me apaixonei que também era músico, tocava saxofone, chamava-se Pedro. Estou triste neste momento porque o perdi para sempre…
- O que aconteceu? Quer-me contar?
- Ele morreu a semana passada. Hoje era a missa de sétimo dia e eu não tive coragem de ir, por isso vim para aqui. Quando soube da morte dele estava a tocar piano em casa, ele estava a ir para Lisboa para dar mais um espectáculo com o quarteto dele… A partir desse momento a música não significa nada para mim…
- Permita que discorde! A partir deste momento deve viver a música com mais intensidade, porque ele estará sempre consigo, lembre-se dos momentos que passaram juntos a um piano, as noites de recitais e concertos… Mantenha essa chama viva, faça-o por ele…
- Nunca pensei ouvir estas palavras de um …
- Sem abrigo, pode dizê-lo! Já estou habituado, porque é isso afinal de contas que eu sou…
- Desculpe! Não o quis ofender… Tem fome? Precisa de alguma coisa?
- Não se preocupe, eu fico bem. Vou estar por aqui amanhã, se quiser cá vir falar mais um bocado. Vou agora forrar o estômago com uma sopa e um cigarro, que é a minha droga.
- Deixe-me ajudá-lo! Vou-lhe dar o que tenho…
- Não! Não posso aceitar! Obrigado mas não…
- Só hoje!

Pegou na carteira que trazia ao ombro e deu-me uma nota de cinquenta euros, nunca pensei que alguém tivesse pena de mim ao ponto de me dar tanto dinheiro, para quem vive na rua, cinquenta euros é um segundo prémio do Euromilhões… No dinheiro que ela me deu comprei um bilhete de comboio e parti sem destino… Quando acordei no comboio já estava perto de Lisboa… Decidi fazer esta viagem para rever amigos, se é que eles me reconhecem e me estendam a mão quando me vir… Não sei o que vou encontrar por lá, se os vou encontrar, se me vão falar, se me vão correr dali para fora… Já não ia a Lisboa há muito tempo mas lembrava-me que havia sítios ideais para dormir, ainda tinha uma razoável quantia em moedas e sobrava-me o troco do bilhete, que só me custou dezanove euros… Caí redondo numa cama de um hostel, ali no Bairro Alto, depois de ter tomado um banho de meia hora e ter desfeito a minha barba… Já nem eu próprio me reconhecia… No dia seguinte olhei-me ao espelho e fiquei “contente” por voltar a ver o velho Mário que enchia as salas de espectáculo e que era falad na televisão e jornais/revistas… Era hora de começar uma vida nova, ou melhor, tentar começar... O primeiro amigo que tentei procurar, em vão, foi Filipe, um antigo companheiro de viagens de música, trompetista de profissão… Estava em parte incerta, segundo a companheira dele. Acabei por procurar e encontrar Sofy, a russa com quem toquei em Praga, ia estar no CCB para um concerto. Falei com ela abertamente e achou por bem me ajudar nesta nova fase. Arranjou-me uma credencial para que pudesse estar nos camarins com ela, deu-me de jantar, uma refeição tão boa que eu já não me lembrava o que era comer a sério… Até então desde há umas semanas para cá tenho comido aquelas refeições baratas em cafés e snacks da cidade do Porto, que deixei para trás… Acabou por me conseguir arranjar um quarto no hotel onde estava hospedada e pagou-me a estadia. Ficar-lhe-ei eternamente grato, e ela sabe-o disso. Depois de umas semanas de interrupção voltei a colocar as minhas mãos num piano, um verdadeiro piano no ensaio de Sofy… Por momentos revivi os meus bons tempos de artista, de músico compositor, de intérprete, de TRABALHADOR… Estes dias e momentos em Lisboa vão-me fazer muito bem, acho que vou conseguir carregar as baterias para poder sobreviver ao resto dos meus dias, seja numa casa ou um banco de jardim... Prefiro agora aproveitar esta vida de sonho, que um dia tinha e deixei de ter, foi como estar descalço numa sala e tirarem o tapete onde apoio os pés para ganhar um pouco... de calor!

Lisboa, 11 Dezembro

Francisco Milheiro
23 Outubro 2010

Retrato frio III

Porto, 6 de Dezembro

Foi a segunda vez na minha vida, a segunda como sem abrigo neste Porto sem sentido que fui para a esquadra da Polícia, no caso, a décima sétima esquadra, ali bem perto da Avenida da Boavista... Estava com o António na rua do costume (parece mal dizer isto) e chegou a polícia em duas carrinhas e puseram-nos numa espécie de uma "jaula", fui mais uma vez identificado e voltaram a não acreditar quem eu era, já não tenho bilhete de identidade. Esse perdi-o, deixei-o em qualquer lado, até porque infelizmente já não sou ninguém... Já fui!

Senti-me tão mal quando entrei naquele sítio ermo e frio, vi pessoas que nunca pensei ver, cruzei-me com polícias que conhecia mas que não me dizem nada, olham-me com desdém, como se eu fosse o maior dos criminosos, o mais procurado dos terroristas... Eu! Que não faço mal a ninguém, que até há bem pouco tempo enchia salas de espectáculo e cheguei a dar uns autógrafos no meio da rua como se fosse uma estrela de Hollywood. A estrela que brilha neste momento é a que está no céu, a que eu vi ontem à noite quando me deitava nas arcadas frias de uma praça no centro. Voltaram-me a fazer as mesmas perguntas, o que estava ali a fazer, estava a mando de quem, para que é que estava a arrumar carros, se estava a ganhar dinheiro para sopa ou para droga... RAIOS! Já disse que não me drogo, não estou a mando de ninguém, sou mais uma das muitas vítimas nesta cidade e neste país onde só reina quem é artista ou vigarista. Voltei a dizer que tinha sido músico mas a vida me deu uma bofetada, ao que o chefe Martins dizia:
- Isso é o que vocês dizem todos! Não passam de um chulos! Quando é que vais buscar o teu rendimento?
- Não tenho rendimento, não tenho nada! O que ganho gasto em comida, café e tabaco, que infelizmente voltei a fumar...
- Pois! A vida tem destas coisas...

Acabei por ficar detido algumas horas, quando voltei a ver a luz do dia desci até à beira-rio e chorei, chorei, chorei.... Tinha vergonha de me ver ao espelho, queria muito suicidar-me mas tenho medo para o fazer! Até nisso sou covarde! Sentei-me bem perto de um casal de japoneses, que exibiam as suas máquinas Canon com objectivas xpto... Ai! O que me passou pela cabeça: roubar para ter um tecto por uns tempos em Custóias, estava mesmo desesperado... Mas depois pensei melhor e deixei-os ficar por ali a contemplar a beleza daquela que já considerei ser "a minha cidade". Hoje considero a "minha casa". Estava tão sereno junto ao rio que me deixei ficar por ali até ao entardecer, subi a rua que ia dar à Estação de S. Bento e comi um hamburguer (mais uma vez...) com vista para o edifício da Câmara. Ainda estava a pensar onde ia dormir... Lembro-me do António me ter falado do "Coração da Cidade" que servia uma refeição quente uma vez por dia, que eu devia ir lá para comer uma refeição minimamente decente e buscar um cobertor para estas noites... que se esperam muito muito frias! Ainda não foi desta que fui ao "Coração da cidade" mas amanhã vou... Estará lá a minha salvação? Adormeci uma vez mais perto do Rivoli, não estava muita gente a assistir ao teatro, ou então saíram por outra porta que eu desconheço... Duas almas caridosas tiraram da carteira um euro e pensei:
- Já vai dar para tomar o pequeno-almoço! Uma boa refeição terei de fazer por dia, e eu dou muita importância ao pequeno-almoço...
Mas hoje, sinto-me um pouco mais em baixo, triste porque é hoje o dia de aniversário da minha Teresa... Onde andarás? Só de pensar que o ano passado fomos reviver uma das primeiras viagens que fizemos: Nova Iorque... Foi nessa viagem que eu perdi a cabeça e te levei a um concerto ao Carnegie Hall, onde actuou brilhantemente passado uns anos a Mariza, essa incrível e inconfundível voz do fado. Nunca mais me esqueço: gastei trezentos e cinquenta dólares nos bilhetes, fomos ver um concerto a quatro mãos: Mikhaïl Pletnev e Alexander Mogilevski. Foram momentos únicos... foi um sonho tornado realidade: ver um concerto de dois conceituados pianistas numa das melhores salas de espectáculo do mundo. Foi como uma segunda ou terceira lua-de-mel, foi mesmo muito bom: fomos só nós... levei a minha Canon e tu eras a minha modelo. Mal sabia eu que passado um ano estava nesta situação... Em que é que falhei Teresa? Podes-me dizer? Dá-me um sinal para que eu possa deixar de ser o actor principal nesta história... prefiro estar no lado do público, ao menos assisto à desgraça do lado de fora... Mas quem é que disse que a vida era justa?

Só os tolos é que acreditam nessa frase! Há tempos li um romance de um conceituado escritor português que se entitulava de "O amor é para os parvos"! Hoje pretendo mudar esse título para: "A vida de rua é para os que foram parvos...".

Francisco Milheiro
22 Outubro 2010

Retrato frio II

... Foi a segunda noite fora de casa, daquilo que todos chamamos de lar, custa-me tanto pensar que já tive um salão com um piano, uma sala de jantar com cadeiras confortáveis, uma sala de estar com música e livros... Agora, a minha sala são as arcadas na praça D. João I, o meu salão é a avenida dos Aliados, onde eu passei o dia de hoje. Não choveu, não estava o gélido frio de Dezembro, estava um sol típico de inverno, podia estar forte mas não aquecia... Arrumei carros novamente na zona do St.º António com o meu "colega" e partilhámos um almoço ali perto. Ainda hoje ele me perguntou o que eu fazia antes de ser isto que hoje sou... Não lhe disse que era músico, que enchia salas de espectáculo, que viajava em primeira classe, que tinha limousines à minha espera no aeroporto, disse-lhe apenas:

- Fui artista... mas não me perguntes mais nada sobre a minha vida...
- Desculpa! Não era minha intenção. Mas eu posso-te falar sobre a minha vida: olha, a minha vida passou a ser esta: há bem pouco tempo... Eu era advogado, estava em lisboa no CEJ para tirar o curso de juíz só que entretanto a minha filha adoeceu e a doença que ela teve, eu digo teve, porque faleceu o ano passado era rara, muito rara aliás, e eu empenhei quase todas as minhas economias para a levar para o estrangeiro... Não me resolveram o problema mas ficaram com muito dinheiro, a minha mulher foi-se abaixo e pôs baixa no emprego, acabou por ser substituída por uma rapariga ucraniana que mal sabe falar português, mas é muito bonita. Quando morreu a minha filha eu fiquei desesperado e tentei recuperar o meu emprego que até então estava de baixa, mas também puseram um rapaz novo no meu lugar, sabes como é: eu era advogado, tinha contactos previligiados na polícia judiciária aqui no Porto e quando dei por mim já estava mais do que metido nos meandros da droga. Lembras-te de ouvir falar do assassinato da Gisberta? Aquele travesti naquele edifício perto da avenida Fernão Magalhães?
- Sim, lembro-me bem!
- Pois é, eu fui das pessoas que presenciei o crime, eu estava nesse malfadado edifício a comprar a minha dose diária de heroína quando ouvi uns gritos, aproximei-me, aquilo era muito escuro e perigoso... Aproximei-me e então vi um grupo de miúdos a bater no pobre coitado, que já estava condenado à morte porque para além de toxicodependente tinha HIV, por isso tás a ver..
- Que cena! E o que fizeste?
- Nada pá! Eu não fui maluco ao ponto de ir ali para o meio deles. Ainda ficava eu também lá estendido... Vi-os a maltratarem o coitado e a atirarem-no para o fundo do poço, que supostamente era uma caixa de elevador. Eu fugi daquele lugar, queria-me salvar, custasse o que custasse. Entrei no primeiro café que vi aberto e gritei por socorro, para chamarem a polícia e uma ambulância, que tinha acontecido uma tragédia naquele prédio... Toda a gente sabia que eu era toxicodependente e toda a gente sabia que aquilo era um lugar povoado por travestis e drogados. Alguém gritava do fundo do café: "Eu sei o que tu queres, queres que o pessoal saia a correr para a rua para tu roubares o dinheiro da caixa...". Fiquei com uma raiva daquele senhor... e não o conhecia de lado nenhum, outros diziam "A polícia vai lá muitas vezes mas não têm coragem de fazer nada, este país é uma vergonha...". Conclusão: ninguém se acreditou em mim e o corpo permaneceu lá durante três dias... mas a polícia cercou o edifício e fazia várias passagens por lá. Eu fugi... a minha pessoa já não era bem vista pela polícia, eu já não era sequer o ex-advogado, era o toxicodependente António...
- E foi a partir daí que vieste para aqui?
- Sim! A minha vida como arrumador começou aqui, eu dantes não traficava, só consumia, a partir do momento que comecei a conhecer outras pessoas e a ter mais "contactos" fui ganhando mais e mais.... Isto depois é um vício pá! Não julgues que vai ser diferente contigo...
- Mas eu não me drogo!
- Pra já! Quando se vive na rua casa-se com a rua e com todos os males que ela traz. Eu também não me drogava: só conhecia os traficantes pá! Eu já andei atrás deles, eu não, os meus amigos da PJ...
- Mas António, nunca tentaste pelo menos sair disto...?
- Meu amigo, ainda estás muito verde. Conta-se pelos dedos os gajos que estão metidos nisto e saem. Há malta que eu conheço a quem lhes vendo produto que estão enterradas até ao pescoço e que não se importam de ficar presos uns dias, têm uma cama para dormir e um cobertor para as aquecer... Isto é fudido! Não conheces a vida da rua...

Aquelas palavras ficaram-me na cabeça: "Não conheces a vida da rua...". Quererei eu conhecê-la? Será que eu consigo voltar para trás? Puxar a "cassete" atrás e viver mais contidamente? Tantas questões coloco mas não tenho resposta... Se calhar não tenho remédio, é mesmo este o meu destino: ser homem sem tecto e sem rumo... Meu Deus, eu que já fui pianista... As minhas mãos não as reconheço, nem sequer lavando.... Que bicho me tornei! Que merda fui fazer...! Puta de vida!

Passei a noite nas arcadas da Praça D. João I, consegui receber umas esmolas de umas pessoas que saíam do teatro... valha-me o La Féria, que tem aqui gente... Esses trocos vão-me dar muito jeito para amanhã: voltei a fumar... mais um vício que eu quis e consegui deixar... A noite foi muito dura, apesar de ter vestido roupa muito quente que ainda tenho no saco não chegou... consegui arranjar no meio de entulho uns cartões para pousar no frio chão do Porto e "forrei" com fita isoladora... não que tivesse esperança que me isolasse do frio... mas ao menos que me ajudasse. Ouvi sirenes, buzinas (a meio da noite imaginem!) e um desastre aqui bem perto nos semáforos... olhei o céu do Porto e vi uma estrela cadente, pedi um desejo:

- Viver uma vida decente! De preferência antes da noite de vinte e quatro...!
Porto, 5 de Dezembro

Francisco Milheiro
22 Outubro 2010

Retrato frio I

A noite nem por isso vai alta, o trânsito na Baixa é quase inexistente... Está frio, uma criança brinca indiferente ao perigo da estrada ali ao lado... Sem perder a timidez e modo introspectivo que me é característico desde que me conheço como gente, se bem que hoje mesmo olhando ao espelho me é difícil reconhecer. A barba está comprida e feia, a minha cara está povoada de rugas, cada uma delas terá uma história para contar, o porquê da sua existência, se calhar, erros estúpidos que cometi, conheci pessoas incultas da vida que lutaram só para que fizessem da droga um modo de vida. Passo por São Lázaro em direcção aos Poveiros, desço Paços Manuel até dar de frente a um portão verde desbotado. Lá dentro espera-me uma sopa sem sal, uma sande de manteiga de ontem (mas que me sabe pela vida... e uma peça de fruta!

Sinto o "coração" da cidade pulsar mas o meu há muito que o deixei de sentir, se calhar já deixei de existir, sou apenas um corpo que divaga lentamente ao barulho insurdecedor dos motores e buzinas nesta cidade que eu amei, que um dia chamaram de Porto. Sinto por momentos um conforto, o conforto de um lar (algo que já não sei o que é há muito... o meu lar é a rua do Almada, a rua das Flores, a rua do Caldeireiro...). Há muito que não sei o que é uma cama feita de lavado, um bom banho antes de deitar, um tecto para viver, um cobertor para me proteger.Na mesma situação que eu está o Manel, o Quim, o Zé. Apesar de nomes diferentes todos temos a mesma história para contar: um dia tínhamos família, quando "acordámos" estávamos sozinhos na rua..., Nós somos personagens esquecidas num livro de prateleira dourada, nessa onde o príncipe encantado chega montado num cavalo branco e a bela donzela espera numa torre alta... tão alta como a dos Clérigos que agora vislumbro. Hoje é sexta-feira ou ainda é quinta? Passo nas ruas da confusão estendendo a mão à espera de uma moeda para comprar algo para lá de pão. Não é para álcool nem para droga, não sou delinquente, sou sim vítima inocente. Todos me olham com desdém, todos me dizem para me matar, para desaparecer... Faria isso de bom grado, deixava de sofrer. Procuro um abrigo numa noite que se adivinha de muito frio. Encostei-me a uma porta fechei os olhos e imaginei mais uma vez...o conforto!

O meu corpo sente-se cansado, imaginem o meu coração. Daria tudo o que tenho, o pouco que tenho... para voltar a ter aquele espaço que um dia foi nosso, que tem 3 letras e se chama LAR. A noite passa, passa devagar, o meu coração começa a fraquejar. Não sinto medo da tal barreira passar porque sei quando os olhos em definitivo fechar haverá alguém do outro lado e a mão vai esticar para me ajudar. Eu sou só mais um entre muitos sem abrigo neste Porto sem sentido. Divago, divaguei, hoje sei... Fui, sou e serei o homem que um dia acordou e se casou com uma mulher chamada RUA. Um casamento que durou tempo demais. Fecho os olhos e penso: vou partir mas antes vou-me de ti despedir... Amanhã dificilmente aparecerá o meu nome no jornal, não tenho identidade... Essa? Perdi-a um dia destes, há muitos anos na minha cidade!

Francisco Milheiro
7 de Setembro 2010

Sinto...

Às vezes sinto
Que os meus olhos
Não têm plena capacidade
Para absorver aquilo que se passa

Sinto-me por vezes incapaz
De perceber os problemas
Que me vão surgindo
Em determinados dias do ano

Mas o que mais me magoa
É saber que aquilo que se passa
É, quase de certeza
Culpa minha

Ouvir um "Não", um "Não preciso de ti"
Alguém que nos viu crescer
Que nos apoiou em momentos maus
Que esteve quase sempre presente

Às vezes preferia ser bebé
Ou ser desprovido de inteligência
Viveria, de certeza na ilusão
Mas seria feliz

Se há momentos
Em que gostávamos de não existir
Este, é definitivamente
Um deles!

Tenho sempre uma solução
Para resolver esta questão
Ir ao livro da vida
E rasgar este triste capítulo

Paciência...
Escrevo outro
Há sempre maneira
De recomeçar

Decidido, arranco a folha
Pego no papel e na caneta azul
E escrevo sem quase nada pensar:
- Hoje sinto vontade para recomeçar!

Francisco Milheiro
5 de Maio de 2009

Em conclusão junto ao Mar

O sol
Já quase não o vejo
Está na hora de regressar
É este o inevitável desfecho

Este momento
Que desejo viver
Gostava de o poder congelar
Mas não vai poder ser

Não sei bem se prefiro
O sol à beira-mar
Se um minuto
para te amar

Seria perfeito
Juntar estes factores:
Natureza, sol
Cheiros e sabores

O cheiro
Esse, não sei como distingo
Não sei se é natural
O que agora sinto

Se me dessem a escolher
O sol, o mar ou um minuto de prazer
Escolher-te-ia
É assim que deve ser

Posso não possuir o tempo
Nem maneira de o parar
Mas este momento
Quero para sempre guardar

O sol
Esse? Já não o vejo
Mas mantenho o desejo:
- Partilhá-lo contigo

Ter-te aqui
Bem perto de mim
Viver um final de tarde
Assim

Francisco Milheiro
21 Setembro 2010

Ser "ave" a prazo

Se pudesse por um dia escolher ser um animal, não pensaria muito, seria uma ave. Sei exactamente onde queria voar... Se o sonho só pudesse durar um dia, míseras e curtas 24 horas escolheria aquele lugar que me acolheu por largos minutos, onde imagens marcantes, por tão simples serem, pelos cheiros que senti, pelos sons que ouvi...

... Se um fosse uma ave dar-te-ia a ti, meu amor, as minhas asas para te amparar quando cais, dar-te-ia os meus olhos para que à distância pudesses avistar o perigo, aquele que está logo ao virar da esquina. Se pudesse, meu amor, escrever-te-ia uma carta em leito de agradecimento recheada de sentimento, enviada em correio azul e entregue em mão... Se como ave precisasse de chorar para me sentir melhor, aterraria nos teus braços e esperava um ou dois abraços. Tenho por 24 horas a visão priveligiada mas tenho pena de não te poder levar comigo nesta viagem...

Pensando bem, acho que nunca quiseste partilhar o teu mundo comigo, nem mesmo quando choravas ou quando soltaas o teu leve porém lindo sorriso. Talvez quando este sonho acabar tudo volte a ser como dantes: Voltarei a ser um menino, tu a rapariga que um dia se cruzou no meu mundo e trouxe um raio de sol e harmonia na minha vida. Não derramarei nunca o meu pranto em ti porque não mereces que o faça, és demasiado importante para perderes o teu valioso tempo. Daqui a umas horitas vou acordar e do teu nome não me vou lembrar. Senti por 24 horas que voei olhando-te sempre, como nunca deixei de o fazer mas isso não deste por eu fazer...

É triste um sonho assim acabar... tiro uns minutos para pensar: Foste Tu que não tiveste asas para me acompanhar!

Francisco Milheiro
26 de Setembro 2010

Promessas e desencontros

Estás fraca em palavras
Distante nos actos
Fria nos beijos
Indiferente nos abraços

Soltas um sorriso
Um que não conheço
Não sei se assim é
Porque sou eu que te peço

Abraças-me, claro!
Como sempre o fizeste
Mas coloco a questão:
- Deste porque quiseste?

O sorriso,
Esse que nunca esqueci
Perdeu-se no tempo…
Assim como eu te perdi

As noites à conversa
As saídas até de madrugada
Fazem parte de um menu
Onde sou sobremesa e tu entrada

Promessas que ficaram…
Suspensas no ar
Assim como o teu sorriso
E terno olhar…

Desencontros conto pelos dedos
Mas foram suficientes
Para eu perceber que o teu espaço
É ocupado por pessoas diferentes

Promessa de um beijo
Foi guardada já não sei bem…
Eu quis dar-te um abraço
O beijo? Ficava para além…

Dei valor à amizade
Entreguei o que era meu
Para mim eras a Julieta
Mas eu não era o teu Romeu

Dão-me valor pelo que sou
Não pelo que tenho
Quero olhar o teu rosto
E fazer dele um desenho

Quero guardar o teu sorriso
E sonhar
Quero ser feliz contigo
E poder estar…

Promessa de um beijo
Encontro foi desmarcado
Leva ao meu amor
Este pequeno recado

Amei, esperei
Respeitei…
Hoje?
Já sei…

O beijo foi gravado
O abraço eternizado
A promessa foi cumprida
O desencontro foi uma partida!

Não levo a mal...
Talvez seja esta antecipada
De um próximo, quem sabe
Carnaval!

Francisco Milheiro
26 Outubro 2010

Conta-me!

Pedes para que te conte
Um sonho que porventura tenha tido
Digo-te que nesse momento
Fiquei dividido

Não soube no segundo qual deles te contar
Sonhei tanto,
Acordei demasiado
Juro-te que sonhei acordado

Pedes a verdade
Aquela que outrora não te pude contar
Não por não ter a certeza que serias tu a tal
Apenas não o via no teu olhar

Pedes um abraço
Sabes que milhares deles te posso dar
Sinto-me bem ao teu lado
E assim espero continuar

Voltas a falar do sonho
Para que te conte o que consegui ver
- Vi um futuro risonho
Não irias nunca sofrer

Abraças-me daquela maneira
Que só tu sabes fazer
Viraste-te para mim e disseste:
- Obrigado pela tua maneira de ser!

Conto-te agora um sonho
Que outrora tive e não te pude contar
O mundo seria meu e teu
Desde o amanhecer até ao luar

Conta-me agora um sonho teu
Fixaste no meu o teu olhar
- O mundo que sempre foi meu
Poderá ser teu

Só precisas de acreditar!

Francisco Milheiro
29 Março 2010

Folhas de Outono

O verão já lá vai
O inverno ainda não chegou
Vejo folhas caídas num outono
Que ainda agora começou

O verde, outrora do verão
Transforma-se num castanho
Menos bonito mas ainda assim...
Chamativo

Os pássaros deixam de cantar
As flores ganham outro encanto
Vistas em fotografia
A preto e branco

O sol, esse?
Pouco ou nada aquece
Um livro e uma lareira
É o que mais apetece...

Os casais passeiam-se
Numa imensa paisagem...
Agora ela castanha
Mas ainda assim não rara e estranha

Folha de outono
Que nada entristece
És soprada lentamente
Por uma brisa de oeste

Oh folha, tu que cais
Quando se acaba o verão
Deixa-te ficar imóvel ou voa...
Para o meu coração

Oh folha que estás caída
Castanha e quieta
Deixa-te levar além
Daquela longa recta

Voa para um parque
Ou um privado jardim
Ergue-te do chão
E voa para mim

Mostro-te o caminho
Se me deres a tua mão
Dar-te-ei o carinho e a chave
Do meu coração

Quem sabe
Se o não abrirás e ele volte...
A bater vermelho
Em vez de negro ou lilás

Escondes-te no inverno
Apareces na primavera
Quem sabe, tu folha de outono
Não és quem estou à espera

Talvez espere por ti
Sim ou não...
Talvez me encontres no teu parque
Numa tarde de verão!

Francisco Azevedo
29 de Outubro 2010

Tenho...

Tenho medo de fugir
Não te sinto como quero
Tenho medo de ficar onde estou...
E sofrer, a sério!

Tenho vergonha de te falar
Tenho medo de te magoar
Sinto cada vez que me ligas
O meu coração a palpitar

Sinto vontade de apagar
De mim, o que se passou
Esquecer a dor e o sabor da lágrima
Que o meu lábio superior amparou

Sinto medo de perder
Sinto raiva ao saber...
Diz-me tu o que queres ao certo
Para eu tentar entender

Pedes para que fique
Ao teu lado, para sempre...
Desculpa que te diga,
É uma proposta indecente

Em tempos vi algo em ti
Que prefiro não recordar
Porque sei qual era o desfecho:
Era eu que ficava a chorar

Guardo as imagens...
Os sons, cheiros e sabores
Arquivo no meu baú estes eternos...
DESAMORES!

Um dia novo começa...
Neste palco,
Neste cenário...
Uma nova peça!


Francisco Milheiro
1 de Novembro 10

Sonho por encomenda

Talvez por um minuto me sinta
Aquele que um dia sonhei ser
Preocupo-me não raras vezes
Com aquilo que podia ter

O sonho...
Esse sempre com pronúncia
Faz parte de um catálogo
Que sempre anuncia...

Felicidade
Harmonia
Paz e ....
Eterna alegria

Palavras, definições?
Essas, nem sempre fazem sentido
Porque não raras vezes
Damos o dito por não dito

Sonhos inacabados
Promessas por cumprir
Por vezes faltam-nos motivos
Para olhar o espelho.... e sorrir

Sonho por catálogo
Felicidade por encomenda
Se quiser um dia ser feliz
Terei de pedir uma nova ementa

Felicidade para entrada
Amor como prato principal
Se te tiver como sobremesa
Era um menú ideal

Ou diria antes IRREAL?
Já que não foste nunca a rainha
Nem eu...
O herói principal


Francisco Milheiro
8 de Novembro 2010

Ao cair o pano... vou pensar claro!

Há momentos em que penso...
Momentos que sinto...
Segundos que conto...
Aumentando mais um ponto

Minutos contados
Segundos mais que contados
Momentos belos...
Sempre saboreados

A fotografia que captei
O beijo que dei
O abraço que recebi
A paisagem que contigo vi

O Porto que nos espera
O rio que nos sossega
A paisagem revelada
Para lá da Afurada

As galerias no centro
A torre bem lá no alto
O triste e velho casario
E as marcas de um já velho asfalto...

Há momentos que te sinto...
Outros que te tenho
Porto, ai meu Porto
Cidade do teu tamanho

Mas que cabe na minha palma
E na tua direita mão...
Isso só é possível
Porque a temos no coração

Sinto o Porto ao te ver
Vivo em cada amanhecer
Sinto-te mesmo não te tendo...
Mas tudo chegará a seu tempo

O rio sempre o vi
A cidade nunca deixei de sentir
Talvez isso aconteça...
No dia em que eu já não existir

Leva-me contigo...
Sente o Porto que tens em mim
Que esta seja uma história...
Um amor que não tenha fim


Ao Porto,
Minha cidade!
Viu-me nascer,
Seguramente,

Vai-me ver desaparecer.... mas sempre.... com ELA!

Francisco Milheiro
Porto, 10 de Novembro de 2010

Carta a um tal de cancro

Olá.

Não me tenhas por mal criada por não te tratar pelo primeiro nome mas é que ele é tão feio que nem sei como te deixaram nascer... De certeza que a tua mãe era uma louca e o teu pai parvo, mas deixemo-nos de falar de ti, não mereces. Quero que saibas que quando apareceste na minha vida comecei a dar valor a coisas simples: a um sorriso, a uma gargalhada, a uma boa conversa, a MIM. Acho que apareceste numa altura em que te deu jeito mas para mim foi um má altura, foste um estorvo. Por ti tive que ficar num hospital, passar por um bloco operatório e tirar um pedaço de mim mas fico contente porque foste agarradinho a ele para o LIXO.

Como vês não és assim tão invencível, eu tinhas as minhas armas da cura mas também não te soubeste comportar como doença. Apareceste para me chatear e para me destruir, apenas um pouco de mim, porque dir-te-ia que o essencial ficou intacto: a minha VIDA. Apareceste para me chatear e agora eu escrevo-te para te dizer que consegui GANHAR. Esta batalha foi dura para mim, tive momentos em que gritei, tive outros que o simples grito não era mais que o extravazar de um sentimento já não presente... Apenas o fazia porque ao espelho me via diferente. Mas quem és tu para aparecer sem data marcada nem aviso prévio? Destruis-te tantas vidas, achavas que eras suficientemente forte para destruir a minha? Logo eu, que tenho a melhor família, os melhores amigos, a melhor profissão e um grande coração. Se por breves minutos achei que era o meu fim fizeram-me ver que afinal não seria bem assim. Aprendi a lutar, a viver ao segundo, a esquecer o passado e pensar no futuro. Se algum dia andares pela rua e te cruzares comigo não te acanhes de me dizer olá até porque te direi o que mais gostei de te dizer.... quando acordei: ADEUS! Por breves instantes causaste pânico em mim e principalmente àqueles que amo, e isso, desculpa, mas não te posso perdoar. Espero que entendas a partir de hoje a raiva com que falei de ti, mas só o fiz para ganhar as forças necessárias para te levar de vencido.

A ti que tentaste fechar a cortina antes da peça terminar... Pensa bem porque se olhares de novo para trás sabes qual vai ser o teu lugar... A única coisa que vais conseguir é incomodar porque sabes que no fim de tudo eu acabo SEMPRE por ganhar...

Francisco Milheiro
20 de Novembro 2010

Um tal Mundo

Um dia pediste um pedaço de céu
E eu dei sem me esforçar
Um dia pediste-me um minuto
Para me conhecer e respeitar

Um dia achei que o mundo
Se abriria para mim
Afinal foi um sonho
Na realidade não era assim

Pediste-me o tempo
Esse tal que teima em não passar
Pedi-te uma oportunidade
E tu não soubeste dar

Sonhei contigo
Vivemos um sonho perfeito
Em que nós éramos um todo
Um só corpo sem defeito...

Um dia acordei
Vi o mundo cair aos pés
Não estava já, é certo
Na idade dos porquês

Ao invés de esquecer
Chorar e recuperar...
Parei...
Adormeci e sonhei

Sonhei um novo mundo
Nele estavas meia presente
Tinhas partido na vida real
Mas nele não estavas ausente

Abraçavas-me como só tu sabes fazer
Sussuravas-me ao ouvido
E eu adormecia no leito
Do teu ser

Partilho contigo um mundo
E uma lágrima sem querer
Dás-me um leve beijo
E choro porque só sei ser...

Verdadeiro!
É assim que me vejo
É assim que quero ser...
Porque só assim

Serei capaz de viver!

Francisco Milheiro
4 de Dezembro 2010

Em jeito de fim... do início

No dia em que me pedires para que te abrace, pensa que se calhar posso ser eu quem dele precise. Julga-me por uma mão cheia de defeitos, e não por um ou outro tema em que tenha menos jeito. Ajuda-me a descobrir a parte que um dia julguei morta em mim. Ajuda-me a procurar o meu tão esperado Porto onde me espero perder e encontrar. Em dias quis um abraço, nada teu... recebi! Um dia precisei de um conselho tu dizes com a tua insensiblidade: não te percebi. Julgo-te assim... tu que és mais do que tudo para mim... quem sabe se a nossa história não terá chegado ao fim.

Lembro o abraço que me deste! O primeiro, vou-me lembrar para sempre! Estávamos os dois numa praia, que para nós se pôs deserta. O sol esse, lá ao longe ia-se perdendo... lentamente se afogando num tépido azul de mar! Custa-me tanto olhar para o lado e saber que não és tu que vais lá estar! Há tempos precisei de um momento apenas meu e tu dizias com a tua sensibilidade: Um problema por maior que seja terás-me sempre do teu lado! Assim não foi! Perdi a noção do tempo, considerei-te a pessoa mais inútil dos tempos da Humanidade, culpaste-me por ser menino mimado e de não ter estudado na tua universidade... Dou-te por momentos um lábio que é só meu, e tento a todo o custo procurar um mundo que é mesmo só teu. Diz-me a verdade e eu dir-te-ei o que sinto... Diz-me que não me amas e eu sigo o meu caminho. Lembra-te que as pedras do caminho não as vou atirar de novo... faço o meu caminho mesmo que este seja torto... Dá-me um pedaço de mar! Pedes-me tu e com razão! Dou-te as lágrimas que guardei que me fizeste derramar... Por minha culpa, por tua insegurança, por tua mais que tudo NÃO QUERÊNCIA! Diz-me sinceramente: não valerá a pena voltar à Idade da Inocência!?

Procuro em livros, nas histórias que um dia li... saberás tu algum dia o que eu senti por ti? Tantas vezes me pergunto, e a resposta já sei de cor: está nos livros, está nas letras, nas músicas de qualquer cantor! Sinto o Porto ao amanhecer mesmo ainda sem o ver... Sinto o teu lábio no meu ao de leve tocar.... Acordo e tu não vais lá estar! A vida encarregar-se-á de me entregar, por expresso ou correio normal alguém que me queira amar... alguém que escreverá comigo um final...

Imagino as palavras que sairão aquando do momento em que estivermos juntos e garanto-te que vai dizer as seguintes palavras:

- Para aqueles que não acreditavam no amor entre dois seres tão distintos... aqui estamos nós para mostrar o que um dia sentimos... Ouvimos a mesma canção, sentimos o mesmo beijo, abraçamo-nos até perder o ar... Mas isso só foi possível porque um dia dissemos:

- A partir de hoje vou-te amar!

Agarro no copo, adoço-te a boca com um champanhe fresco e pequenas borbulhas de gás a saltar.... Será este fim de ano um início de uma história por contar?

Francisco Milheiro
30 Dezembro 2010

Digo porque sinto...

Direi
Sempre que vontade tiver
Voltarei a sentir
Se um dia puder

Não quero esperar
Quero antes apagar…
O que de mal existiu
O que um lado não sentiu…

Os momentos vividos
Serão sempre lembrados
Os segredos secretos
Ser-te-ão revelados

O sorriso genuíno
O abraço sincero
É isso que eu desejo
É por ele que espero

A distância ajuda a encontrar
Um ponto de encontro…
Entre o real e o que não passa…
De um simples sonho

Encontro-te num jardim...
A dançar descalça
Numa relva...
Bem verde e regada

Digo em voz alta: AMO-TE!

Digo porque é a ti
Repito porque sabe bem dizer
Voltava atrás e repetiria
Tudo o que tinha de ser

Falei,
Esperei para ouvir...
Confessei
Porque sei…

Que me vais dizer
A palavra que eu tanto quero ouvir
E já sei que quando o disseres
Vais estar a sentir…

Deixa-me dizer-te
De ti quero ouvir:
Um amo-te
Hoje, amanha, até ao surgir…

De alguém
Que nunca tirará o lugar
Que é teu
Porque me soubeste amar

Tal como eu...
AMO-TE!

Francisco Azevedo
3 de Janeiro 2011

Faz do meu coração a tua casa

Não precisas de pedir
Entra, não te preocupes
Estou aqui...
Sempre para Ti

Faz do meu coração
Uma casa tua...
Viaja comigo por mar...
Num foguetão até à lua

Traz a canção
Que tanto gostas de cantar
Ouve o meu coração...
Por ti...A chamar

Faz do meu coração
O teu principal abrigo
Traz o que te peço
Não te direi nunca que não

Abraça-me sempre que quiseres
Pede um beijo na testa...
Deixar-te-ei entrar sem convite
Nesta que considero ser a minha festa!

Faz do meu coração a tua casa
Entra sem pedir
Vou estar aqui...
Para te fazer sorrir

Se chorar,
É o que te apetece fazer... chora
Vou-te abraçar
Vou apoiar-te sem nada dizer

Só preciso sentir...
O que o teu abraço significa
Faz do meu coração a tua casa
Sabes bem onde ele fica

Estive fechado para obras...
Por tempo indeterminado
Hoje sei... que ele está
Bem, mesmo bem arranjado

A chave para entrar...
Só tu a podes encontrar...
Está bem guardada
Bem à porta... na entrada

Já a conheces
Nela já viveste e partilhaste
Momentos belos...
Simples e fugazes

A campainha está a tocar...
Serás tu do outro lado...
A pedir
Para entrar?

SIM!

E nele,
Irás permanecer?
Acredito que sim
Porque sem TI não sei viver

P.S) Aos que me fazem acreditar que o meu coração pode ser A CASA daqueles que mais merecem! Ninguém vive no mesmo lugar.... e só alguns poderão ficar...!

Francisco Milheiro
4 Janeiro 2011

Coração a leilão

Vem,
Traz o teu vestido
A noite é única...
Quero ver esse sorriso

A noite está calma
Lá fora o vento amainou...
O meu coraçou por ti
Em definitivo se apaixonou

A vida,
Olha-a de forma diferente...
Entre sorrisos e sentimentos
Descubro através da tua mente

Os pensamentos mais claros
Alegres e Belos,
Facilmente transmitidos
Por gestos, afectos e sorrisos

O teu abraço sempre forte
Os teus sorrisos sempre sinceros
Fazem-me enfrentar o mundo real
Sem reservas nem medos

Vai por mim...
Reserva uma parte
De ti para que fique...
Sempre assim...

Contigo no mundo
Neste tal que entras sem pedir
Sento para te falar
Levanto para te ouvir

Fazes-me um olhar
Trocamos um tímido sorriso
Para eu assim estar
Vou precisar que fiques comigo

Ama-me como amigo
Seduz-me como amante
Traz esta noite o vestido
E eu dou-te este diamante

Foi posto a leilão
Mas só tu tens o que é preciso
Para ganhar
Este nobre coração

Nobre porque vive
Natural porque sente
Ama quem te ama
Não agora, para sempre!

Francisco Milheiro
5 de Janeiro 2011

Talvez... um dia!

Talvez por um instante
Te possa numa rua encontrar
Talvez um dia te encontre
Num passeio à beira-mar

Talvez um dia te conte
O que um dia senti
Talvez chegues a saber
Que gostei de tudo em ti

Talvez te possa um dia ligar
E quem sabe
Nos perderemos no tempo
A conversar

Convido-te para um almoço
Para uma tarde diferente
Abraçamo-nos porque temos saudade
Choramos porque somos gente

Somos gente diferente
Amigos até à eternidade
Ficará o Porto para sempre
ligado à nossa real amizade

Talvez um dia me ligues
E fiquemos até tarde a conversar
Talvez ganhe coragem e te peça
Uma oportunidade para amar

Peço-te um abraço
Um beijo,
Um gesto
Quer ele nobre ou singular

Talvez nesse dia percebas
Que será preciso um mundo inteiro
Entre nós...
Para nos separar

Em tempos algo mostrei
Numa canção o que sentia
Hoje sinto para lá da saudade
Uma enorme alegria

Sinto, porque sei
Que estiveste presente
No dia em que eu não era
E precisava de me sentir gente

Um dia escrevo uma canção
E a cante para ti
Talvez percebas o quanto
E o que senti....

Francisco Azevedo
6 de Janeiro 2011

Cidade que serás minha

A cidade já dorme
Os carros conto pela mão
Desde o palácio à torre
Tudo está no meu coração

A algazarra matinal
O trânsito que não cessa
Tornam cada manhã
Uma chatice imensa

Perco-me em becos
Percorro ruelas e avenidas
Tudo isso faz sentido
Se o fizer contigo

A bela da cerveja
A incrível da francesinha
Faz com que sinta esta cidade
Leal, como se fosse minha

Leva-me a perder
Mostra-me o que escondes
Leva-me aos Aliados
E a passar nas velhas pontes

Percorro as escadarias
Páro para restabelecer
Para poder voltar à cidade
Que um dia me viu nascer

Sento-me num banco
Todo ele me parece um anfiteatro
Olho o velho Douro
Por ele passeia-se um barco

Apinhado de turistas
Que não escondem a emoção
Dizem sem qualquer problemas:
- O Porto é mesmo uma nação!

Nação de homens e mulheres
Trabalhadores sem igual
Cidade justa e reservada
Eterna Menina Leal

Leva-me ao casario
Faz-me acreditar...
Que não há no mundo
Uma cidade à beira-mar

Como esta...
A que me transporta
A que me ensina
A que me guia...

Para me perder,
Porque só assim...
Poderei eu
Um dia ser...

TEU até Morrer!

Francisco Azevedo
8-01-2011

P.S) A Todos os que fazem do Porto um estado de alma; A todos os que sentem.... a SUA!

Existir sem ti

Essa é uma pergunta...
Que com regularidade me faço
Relembro histórias de um presente
Marcadas num só compasso

Lembro as conversas
As histórias e as canções...
Tudo aquilo que vamos guardar
Para sempre nos nossos corações

Faço-te companhia
Digo-te um vincado Olá
Sorris para mim e dizes:
- É tão bom ter-te por cá

Existo sem ti?
Pergunto vezes sem parar
Digo logo que não!
É impossível contigo não estar...

Não te quero perder
Não quero recordar
Quero antres voltar a viver
E contigo me perder a passear

Perdemo-nos pelo campo
Na montanha, na cidade
É-me impossível viver
Sem seres parte da minha identidade

Pedes um motivo para ficar
Dou-te dois para não partir
Pedes-me um abraço
Dou dois para te poder sentir

Existi... parcialmente
Mas tu apareceste vincadamente...
Neste meu mundo
Em que vivia independente

Não tinha razões para sorrir
Não tinha momentos
Para a cem por cento...
Quem sabe SENTIR...

Existir sem Ti!?
É uma pergunta? Acho que não
Sabes bem que é impossível
Não povoares o meu coração

Sabes guardar segredo
Sabes manter o teu lugar
Reconheço o teu sorriso
Respeito o teu olhar

Francisco Azevedo
11 - 01 - 2011

De quem sonhou acordado

A tarde já vai longa, o sol ainda queima um pouco da nossa, já morena pele do final de um verão. O rio, ali aos nossos pés refresca-nos os dedos cansados da caminhada que há pouco demos por entre verdes campos, lugares onde o homem jamais ousará colocar um prédio, quanto muito uma casa, um pequeno palácio num paraíso que se quer assim.... de tão belo que é!

Os nossos corpos entrelaçados fazem-nos acreditar que o amor seria para sempre, viveríamos numa praia onde as águas eram cristalinas, os peixes nadam a nosso lado, a típica história de crianças do "Amor, uma cabana e felizes para sempre". Custa muito saber que daqui a umas horas vamos regressar ao mundo, que afinal é o real. Aquele em que os carros fazem parte, os prédios com cinco e seis andares "poluem" a vista das pessoas. As crianças não brincam descansadas nas ruas, os jardins, aqueles que nos passeámos em pequenos hoje são autênticos parques de estacionamento.... Neste sonho que teimamos viver todos os verões faltam-me as palavras para o descrever, nem mesmo com um dicionário e uns quantos livros lidos de fio a pavio me dão matéria-prima para escrever sobre algo que contigo vivi, senti e gostava de continuar a viver.

Em tempos fizeste-me acreditar que tudo o que vivíamos era genuíno, o amor que sentias por mim era verdadeiro, que o sentimento que nos unia era demasiado forte, e que nada nem ninguém nos iria separar. Pois bem, sinto que esse momento está a chegar.... Poderia descrever esta como sendo a última viagem que fazemos enquanto um só, aquele género de coisas que só nós fazíamos: atafulhar o carro com as nossas tralhas de viagem e seguir, sem destino para uma praia qualquer, no mais escondido recanto do nosso Portugal ou então nas belas praias da Sardenha. O rio sente já o baixar do sol, os meus pés começam a sentir algum desconforto de tão perto das frias pedras estarem... mas acho que também estão assim por eu estar um pouco irrequieto, intranquilo... acho que chegou a hora de acordar de um sonho, viver o mundo real e por vezes sonhar... para não esquecer de tão belo que é. Em tão pouco tempo sentimos o amor, em menos sentimos a dor. Em tempos falavas-me de como eu te fazia sentir, só os meus programas e convites te faziam sorrir e que em todos os momentos que estavas comigo fazias-me acreditar que eu era aquele ser perfeito com que sempre sonhaste. Repito, SONHASTE! Afinal na vida real.... não é como nos livros. A praia nunca será como a da "Lagoa Azul", o nosso rio não terá aquelas finas pedras, nem o meu cão correrá livremente pelos prados à procura da sua cadela dos sonhos. Eu não sei ser príncipe, herói no papel principal mas tu também não soubeste ser princesa e quando representaste fizeste de uma forma IRREAL. Há sonhos que vivemos numa noite, há sonhos que duram várias noites, há sonhos que duram dias e noites... Em tempos acreditei, também fizeste por isso, que eu era o Mais que perfeito ser à face da terra, os meus defeitos não eram assim tão grandes (até porque nunca me disseste quais...), os sonhos que tinha eram partilhados contigo e tu, dizias sempre sem hesitar:

- Gostava tanto de fazer parte deles!

Pois.... mas o tempo foi passando, os dias foram passando, as noites que passámos à conversa e a fazer amor para ti não foram mais do que simples momentos, afinal de contas: tu não eras princesa nem eu o cavaleiro andante que chega montado num cavalo branco para te salvar da torre, sempre ele guardada por um Dragão. Nestes momentos que contigo vivi acreditei sempre que seríamos felizes até à eternidade, fizeste-me acreditar que as minhas qualidades eram únicas, que nunca tinhas visto isso em homem algum... Pois! Mas isso não chegou para me dizeres um Sim definitivo, e deixa-me dizer: o Não para mim nunca foi solução! Há quem diga que eu penso demais, há quem diga até que tu pensas de menos mas se formos a acreditar no que os outros nos dizem não viveríamos, nem espreitávamos o perigo (sempre que possível) ao dobrar de cada esquina... O sol já não se vislumbra, escondeu-se por trás daquele vale.... este paraíso está perto de nós mas o sonho acabou... Chegou ao fim esta história de príncipes e princesas, raínhas e dragões... A história acaba aqui mas permanecerá SEMPRE nos nossos corações. Olho o relógio que religiosamente encosto firmemente ao meu pulso, olho de novo o teu olhar e digo:

- Está na hora de voltar! Gostava de poder guardar este momento para sempre e se um dia nos voltarmos a encontrar podes ter a certeza que me vais pedir para te Amar! Quem sabe se esse dia não vai chegar... mas aí sabes bem quem irá triunfar e garanto-te: Não vai ser o Ciúme, a Mentira, a Traição! Não é digno nem aparece num história escrita com cabeça e coração! Pedes-me um beijo, um abraço no silêncio do vale, apenas com o rio a nossos pés. Dou-te o abraço, deixo o beijo para o fim.... Sabes bem que quando um sonho acaba é sempre assim... Os corpos unem-se, o medo desaparece.... o Amor, para mal de nós.... PERMANECE!

P.S) A quem viveu um sonho e acordou tarde demais...
A quem se perdeu na realidade.... e viveu em ficção!

Francisco Milheiro
14 Janeiro 2011

Voar... para sentir

Há dias que me sinto
Um estranho ser
Há horas que os minutos
Correm sem me aperceber

Longas são as noites
Tristes sem ti
Nada me resta
Agora percebi...

Que nada será
Como dantes
Éramos um só
Namorados e amantes

Peço-te um motivo
Para que fique do teu lado
Não sei o que hei-de pensar
Se tudo parece mudado

Há momentos que não olho
Não consigo ver
O que o coração sente
E o que tem de ser

Às vezes fazes-me pensar...
Outras acho que nem isso
Choro, grito, sinto....
Porque preciso

É tão difícil olhar-te...
Ver o "eu" que desconhecia
Saber o quanto fui teu
E a tua alma não merecia

Perco-me em pensamentos
Desaguo num pranto
Como é que em tão pouco
Se pôde viver tanto

Se há momentos que sinto
Um "eu" estranho e diferente
É porque nesse dia senti...
Verdadeiramente

Senti...
Chorei...
Vivi...
Criei...

Tentei...!
Ser feliz...
Mas o teu coração
Assim não quis

Pedes-me uma oportunidade
Para mostrar...
Que és diferente...
Que me podes amar

Amo-te pelo que és
Sinto porque desde logo senti....
Hoje pergunto-me ao espelho:
O que terei visto em ti?

Sinto vontade para partir...
Voar e descobrir...
Talvez seja preciso
Para voltar, de novo a sentir!

Francisco Milheiro
16-01-2011

Diálogo com a Lua



- Olá!
O que fazes por aqui?
Não é suposto teres alguém
Junto a ti?

- Olá!
Sou um triste ser...
Que olha e fala contigo
E sorri ao te ver

- O que tenho em mim
Porque me sorriste?
Sou alguém diferente
Ou o amor nunca sentiste?

- Sou eu...
O velho e apaixonado ser
Que ama porque tem medo
De não poder ter...

- Medo? Ter?
Sou uma estrela
Inteligente mas...
Não estou a perceber

- Canto para ti
Sinto-me mesmo bem
Junto ao mar
Naquela rocha além...

- Vês o meu reflexo?
sei que gostas de alguém
Sou eu, a Lua
E gosto de alguém também

- Chama-se Sol
Apenas o vejo por momentos
Dá-me calor, arrepios
E sussurra-me com leves ventos

Gosto tanto de te ver...
Por aí para mim...
Promete que mesmo triste
Vais estar assim...

- Só te posso prometer...
Algo concreto e real
Voltarei ao final do dia
Para não parecer mal...

- Olharei a estrela gémea
Aquela que tenho no coração
Mesmo não a tendo por muito tempo
Um dia tê-la-ei na minha mão

- Parte decidido
Sai daqui
Não fiques parado
Na rochada pousada ali

- Dá-me um sinal
Por pequeno que seja
Diz-me que serei feliz
E que ela me deseja

- Vais ser!
Nunca te esqueças:
Voltarei sempre...
Ao entardecer

Trá-la
Deixa-te passear a seu lado
Faz com que diga feliz:
- É este o meu namorado!

Escreve uma canção
E canta pra ela debaixo da luz da lua
Serás para sempre dela
E ela, eternamente TUA.

Francisco Milheiro
21 de Janeiro 2011

Tu que nunca serás substituída

Não venderei nunca
Aquilo que não me pertence
Se um dia me quiseres dar
Oferece-me como presente

A tua canção
Nunca a entregarei
O teu sorriso...
Na minha memória guardarei

O teu coração
A mim não sei se pertence
Mas não é passado...
Quanto muito será presente

Não chores!
Esse teu suave rosto não merece
Sentir o áspero deslizar...
De uma lágrima no teu doce olhar

Não tenho o teu coração
Mas reservei como presente...
Não sei se este aniversário
Não estarei ausente...

Gostava de contigo me perder...
De preferência...
Gostava muito!
Mas muito... de te ter

Pensa bem em tudo isto
Eu ofereço-te tesoura e papel
Para embrulhares o teu coração
Vermelho com sabor a mel

Um olhar castanho e doce
Deixa-o em ti
Porque ao acordar um dia direi:
- Gostei do que vi!

De te ver dormir...
De te ouvir respirar
Guarda este poema
Nesse teu lugar...

Que é teu...
Gostava tanto
Que tivesse um cantinho...
Para o meu!

Francisco Azevedo
25 de Janeiro 2011

P.S) A quem me fez acreditar que um SORRISO é bem mais VERDADEIRO se o virmos no OLHAR!
Sabes quem és, vou-te guardar... PARA SEMRPE! Se eu te conheço guardarás um sorriso e colocarás aqui o teu...!

Até... ao FIM

Voltei para te buscar
No meio dos meus sonhos
Vou-te sem demoras
Procurar

Percorres a minha memória
O meu corpo...
A viagem não será nunca...
Inglória...

Procuro-te no meu coração
Sei que lá as hipóteses...
De te encontrar...
É no mínimo um milhão

Procuro numa imagem tua
Uma mensagem que esse secreto olhar...
Me consegue transmitir
E fazer corar...

Voltei para te procurar
Enquanto não te conseguir
Garanto-te que não vou
Parar para descansar...

É por ti que eu vivo
E sigo o meu caminho...
Na minha memória quase esquecida
Para voltarmos à estrada gasta e escurecida...

Quero voltar a partilhar...
Um lindo sonho contigo...
Quero voltar a sonhar
E fugir contigo do perigo...

Prefiro esperar...
Cansar-me para te encontrar...
Mesmo que esse encontro esteja longe...
Vou correr ainda mais

Para te AMAR!

Vou voltar para te ver
Conhecer esse teu sorriso
Que me envia um beijo terno
A cada anoitecer

A estrada está a chegar...
Já vejo o seu fim...
Sei que ao final dela
Vais estar lá para mim...

Como sempre...
De há tempos para cá...
Vais sorrir para mim
E dizer: Olá!

Vou correr para te abraçar...
Olho o teu sorriso
Perguntas sem pestanejar:
- Sou eu o teu Porto de abrigo?

Digo de rompante...
- Claro que sim!
- Então faz-me um favor...
Fica comigo até ao fim...

Francisco Milheiro
27 de Janeiro 2011

Um dia

Vou parar
Para pensar
Sonhar,
Para ser feliz

Vou sonhar
Para te encontrar
E dizer...
Antes do anoitecer

Vou-te ligar
E ficar horas a falar...
Vou-te encontrar
E perder-me a relembrar...

Vou-te seduzir
Vou escrever...
Vou cantar
Para te ver sorrir

Vou sonhar
Vou cantar
Vou escrever
Vou reler...

A mensagem que me enviaste
O sorriso que fotografaste
O sonho onde sempre...
Comigo entraste

Vamos sair
Vamo-nos divertir
Vamo-nos amar
Até ao nascer...

De um novo dia
Sabendo de ante-mão
Que será feliz...
Pois ter-te-ei como companhia

Vou sonhar contigo...
Partilhar o meu sonho
Contigo vou...
Ao fim do mundo

Vejo nesse teu olhar
Um "Amo-te"
Mas que não quer...
De todo afirmar

Sei que tens medo
E isso é normal
Mas também te garanto
Que eu sou ESPECIAL

Vivo para ti
Escrevo a pensar...
No dia em que te vi
E pensei:

- És tu que eu vou amar!

Pensa o que quiseres
Diz o que melhor achares
Mas lembra-te que foste feliz
Naqueles nossos eternos lugares

Aconteça o que acontecer
Haja o que houver
Um dia ter-te-ei comigo
Serás minha MULHER

Pensa bem antes de agir
Sonha antes de acordar...
Porque mais dia menos dia
Vou estar ao teu lado...

Desta vez sim...
Para nunca mais
Te largar!

Francisco Milheiro
30 de Janeiro 11