quarta-feira, 27 de abril de 2011

Retrato frio V

Ainda fiquei uns dias por Lisboa, a Sofy deixou-me um envelope no quarto mesmo antes de partir com umas notas e escreveu:
- Hope to see you soon… on stage! (Espero ver-te em breve… em palco!)
Aquelas palavras deram-me força, e o dinheiro que me deixou vai-me deixar “viver” razoavelmente nas ruas da minha cidade. Tenho tanta vergonha, há pouco tempo era um grande músico, com objectivo de conquistar salas e mais salas, tocar com grandes mestres e ter a meu lado uma orquestra de Berlim… agora a música que ouço são as buzinas dos carros, os mestres são os arrumadores que vivem daquilo há muito tempo… os que têm o curso avançado em sobrevivência na rua. Conheci na estação uma rapariga que iria também viajar para o Porto em busca de emprego na área da Farmacêutica, chamava-se Inês e só tinha vinte e dois anos… Desejei-lhe a maior sorte tentando alertá-la para os perigos que se escondiam na minha cidade… Disse que tinha amigos por lá que a podiam ajudar, agradeceu e alturas tantas perguntou-me (parta-se do princípio que eu estava com cara de tudo menos de sem abrigo…):
- Bem, para encurtar a história da minha vida vou-lhe dizer o que fazia: eu era músico até há bem pouco tempo, esgotava salas e salões de festas, era artista convidado para exposições de pintura para dar um bocado de “vida” às imagens ou estatuetas…
- O que aconteceu? Perguntou ela de rompante.
- A vida é complicada, o dinheiro dos espectáculos começaram a não aparecer, depois quando apareciam não eram na totalidade, depois entretanto a minha filha adoeceu e eu deixei de ter cabeça para dar concertos, cancelei toda a tournée que tinha marcado, a minha mulher entretanto deixou de trabalhar para tomar conta dele e eu…. Fiquei na rua!
- Mas, e os seus pais? Os seus irmãos?
- Só tenho um irmão mas não falamos desde há muito tempo, ele ficou muito triste comigo quando foi a morte do meu pai, eu estava nos Estados Unidos e não estive presente, a minha mãe nunca aceitou a minha profissão apesar de ser uma entusiasta da música, sempre achou que um homem devia ter um emprego das nove às cinco… No dia em que comecei a ganhar bom dinheiro ela ficou reticente e reflectiu melhor mas nunca achou que esta seria uma profissão com futuro. No dia em que cheguei a casa com um cheque de cinco mil euros referente a um recital no Coliseu de Coimbra acreditou mais nas minhas potencialidades e a forma fácil de ganhar dinheiro, porque o piano para mim sempre foi um divertimento… Mas não pense que a minha vida foi fácil, longe disso. Olhe, lembro-me que quando era novo os meus pais tinham os tostões contados, nem sempre havia dinheiro para comprar um pão, um quilo de arroz ou umas batatas para a sopa. A minha mãe trabalhava na Câmara Municipal do Porto, o meu pai era contabilista numa junta nacional de frutas ali perto da estação das Devesas em Vila Nova de Gaia. O meu irmão é mais velho que eu mas dávamo-nos bem. Para ver como tínhamos dificuldades vou-lhe contar o que aconteceu uma vez na escola. Eu tinha um lápis que já estava no fim e um companheiro de carteira, o Artur deixou o dele, novinho em folha na secretária ao final da manhã. Eu, convencido que estaria a fazer um favor à minha mãe cheguei a casa todo orgulhoso e fui-lhe dizer:
- Mamã, mamã, já não precisa de comprar um lápis novo para mim! Fiquei com o do Arturinho que deixou ficar na secretária dele.
- Não, meu filho! Vais fazer o que a mamã te vai dizer: vais sair por aquela porta e vais bater à porta do Artur e entregar-lhe o lápis. Esta que seja uma lição para toda a vida: não deves ter nada que não seja teu.
….
- Estou a ver que a sua vida não foi nada fácil. Então, mas o que aconteceu agora? O que faz para viver?
- Eu? Vivo dos automobilistas simpáticos que a troco de os ajudar nas manobras me dão uma moeda e alguns uma peça de fruta… Sempre vivi no Porto até ir para os Estados Unidos estudar música na New York Musical School mas a vida traiu-me passado uns anos… Ai! Só de me lembrar que vivia num apartamento ali perto do Central Park… agora o parque da cidade do Porto é o meu local de recolhimento e onde paro para pensar… a minha casa são as arcadas frias da Praça D. João I e por vezes a estação de São Bento… Durante alguns dias fiquei em casa de um grande amigo meu que é para além de músico, poeta mas ele teve de se ausentar do país e entregou a casa a um familiar, e eu, no dia 2 de Dezembro fazia parte da lista dos sem abrigo do Porto… Custa-me dizer isto depois de ter tido uma casa com tudo e mais alguma coisa…
- É triste, é verdade! Mas, o que pensa fazer agora quando chegar ao Porto?
- Não sei… Sinceramente já pensei em me matar porque a minha vida não faz sentido desde a morte da minha filha, mas não tenho coragem. Tive coragem para fazer muita coisa na minha vida. Olhe, lembro-me que uma vez estava num bar com uns amigos a conversar e a nossa banda preferida ia actuar em Londres, fizemos os sacos, pegamos nas motos e fizemos os cerca de dois mil quilómetros por estradas de descoberta… Xii! Que viagem, Meu Deus!
- Porque fala do passado? Não quer viver o presente e pensar no seu futuro, que pode ainda ser brilhante?
- Minha menina, a vida prega-nos partidas que nem eu próprio como músico consigo explicar musicalmente numa canção ou numa peça que faça… Está mesmo difícil para mim o meu futuro, advinha-se muito negro e eu quero acima de tudo ter os pés bem assentes na terra… Por falar em terra, já viu onde estamos?
- Aveiro! A cidade dos ovos moles.
- Acho que vou sair aqui e viajar um pouco pelas minhas memórias de infância e juventude, já fui muito feliz aqui com uma rapariga que se dizia minha namorada, a Carla. Éramos jovens, muito ingénuos… Bem, se não nos virmos mais foi um prazer conhecê-la, desejo-lhe as maiores felicidades para a sua carreira.
- Obrigado eu pela companhia. Nunca pensei que um arrumador fosse … assim tão educado!
- Ainda sou virgem… - Sorri para ela.
- Então ainda bem que assim é. Que não perca essa ingenuidade. Até breve, ver-nos-emos com certeza pelo Porto. Tudo de bom…
- Obrigado! Até sempre…
Saí do comboio e viajei pela minha antiga cidade onde me refugiava para namorar, comecei pelo centro mas estava tudo tão diferente que nem eu sabia onde estava a famosa pastelaria onde engordei uns quilinhos por causa dos ovos moles… Ai, que saudades! Talvez essas saudades me levaram também, a sair do comboio. Sinto que esta passagem por Aveiro me vai fazer esquecer por um bocado que cresci, sou adulto e… sem abrigo. Se o tempo pudesse voltar atrás? Se calhar não encomendava o piano da Steinway, não tinha comprado o Porsche para a Teresa e não tinha gasto tanto dinheiro para insonorizar a casa e enchê-la de colunas…
Divaguei um pouco pela cidade, arrumei mais uns carros, ganhei mais uns euros para o comboio… Está na hora de voltar ao que eu sempre achei Porto de abrigo mas que para mim é um Porto sem sentido…
Estamos a poucos dias do Natal, não me imagino passar um natal na rua, passar pelas casas e ver pessoas sentadas à mesa com o bacalhau, as couves, as filhoses, as rabanadas… Ai! Só de pensar… Gostava tanto que o Eduardo voltasse a tempo de eu ter um Natal normal… mas que nunca será porque não vou ter a meu lado a Teresa, a minha família (parte dela)…

Aveiro, 18 de Dezembro

Francisco Milheiro
26 Outubro 2010

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