Porto, 10 de Dezembro
Não me recordo, sou sincero, de nos últimos anos ter passado pelo jardim onde estive hoje o dia quase todo… Não sei explicar exactamente o que senti quando entrei naquele espaço, onde de facto, se respira melhor, os cheiros e sentidos são assaltados por todos os lados, fica perto do centro… Sentei-me num banco e fiquei a admirar o que há minha volta se encontrava, apesar de ser inverno os pássaros entoavam uma melodia bonita, imaginei logo como seria o seu ritmo, 4/4. Estava tão envolvido naqueles sons musicais que dei por mim já a vaguear nos meus pensamentos, esses famosos que ainda não se pagam, pelo menos até ver! Voltei a recordar Praga e os momentos que passei com a Teresa na minha cidade de eleição da Europa. Li numa reportagem sobre Praga que dizia assim: Praga é tão bela que parece que a estamos a descobrir pela primeira vez… Durante a minha vida de músico viajei por muitas cidades, mais é certo, na Europa, e de todas as que visitei Praga e Roma foram as minhas preferidas. Lembro-me que em Roma fiz um recital com um violoncelista conhecido, tocámos Schubert e Beethoven num concerto que durou aproximadamente duas horas. Foi dos mais importantes e impressionantes concertos que tive oportunidade de dar. Fiquei por Roma três dias depois do concerto e fui em conjunto com a Teresa e o meu representante descobrir a cidade das conquistas dos romanos, visitámos como é lógico, o Coliseu (obra imponente… costumo dizer que o Coliseu está para Roma como os Clérigos estão para o Porto), é impossível ir lá sem conhecer…
No meio destes pensamentos vi uma rapariga, que não aparentava mais do que vinte e poucos anos chorar compulsivamente, aproximei-me devagar, peguei do meu bolso direito do casaco castanho um lenço de papel e entreguei…
- Obrigado! Disse-me ela.
- Precisa de alguma coisa? Posso ajudar em algo?
- Infelizmente não me pode ajudar, prefiro estar sozinha.
- Permita que me apresente: Mário Barreiros…
- AH! Essa é boa! Desculpe me rir mas eu conheço Mário Barreiros, é um conceituado músico portuense, e você não é nada parecido com ele…
Tirei do meu bolso de dentro a minha carteira onde guardava ainda o que tinha amealhado do dia anterior e algumas recordações: a minha aliança, uma foto minha com o meu cão, e uma foto com a Teresa e com o nosso filho, o Diogo…
- E então, já me conhece?
- Peço desculpa de não acreditar em si mas não é possível… Mário Barreiros era um músico que ganhava muito dinheiro, não é um Zé Ninguém, desculpe se o ofendi…
- Não ofendeu! Já me chamaram coisas piores…
- Mas, o que lhe aconteceu? Perguntou com um sorriso nos lábios, como se não acreditasse na minha história…
- A minha história conta-se num instante, infelizmente… Era músico conceituado, tinha uma vida boa, uma casa, uma família, e de repente fiquei sem nada… Sempre me habituei a ter tudo o que era do bom e do melhor tendo sempre fé que pagava as minhas contas… Comecei por adiar o pagamento da casa ao banco, depois do piano que mandei fazer na Steinway, depois do Porsche que comprei para a minha mulher… e o dinheiro que supostamente iria receber dos recitais pouco apareceu, e comecei a ficar endividado… Um dia estava a chegar a casa de mais um recital fora do país e tinha a polícia à porta com uma ordem judicial para ficar com todos os meus bens… A minha mulher acabou por sair de casa com o meu filho para casa da mãe dela, eu ainda consegui arranjar um sítio para ficar durante uns dias mas o meu amigo precisou de viajar para fora de Portugal sem data de regresso e emprestou a casa a um familiar… E eu, acabei aqui… Agora vagueio pelas ruas de manhã, vou ajudando as pessoas a estacionar… e basicamente é esta a minha história. Agora sou mais um dos seiscentos e oitenta e cinco sem abrigo neste Porto sem sentido.
- Sabe? Eu também fui pianista, mas a minha vida mudou muito e a música deixou de ter significado para mim… Durante muitos anos tive aulas de piano com um professor bastante conceituado da nossa praça, chamava-se Francisco Vieira, e na minha vida artística, se podermos chamar, conheci um rapaz por quem me apaixonei que também era músico, tocava saxofone, chamava-se Pedro. Estou triste neste momento porque o perdi para sempre…
- O que aconteceu? Quer-me contar?
- Ele morreu a semana passada. Hoje era a missa de sétimo dia e eu não tive coragem de ir, por isso vim para aqui. Quando soube da morte dele estava a tocar piano em casa, ele estava a ir para Lisboa para dar mais um espectáculo com o quarteto dele… A partir desse momento a música não significa nada para mim…
- Permita que discorde! A partir deste momento deve viver a música com mais intensidade, porque ele estará sempre consigo, lembre-se dos momentos que passaram juntos a um piano, as noites de recitais e concertos… Mantenha essa chama viva, faça-o por ele…
- Nunca pensei ouvir estas palavras de um …
- Sem abrigo, pode dizê-lo! Já estou habituado, porque é isso afinal de contas que eu sou…
- Desculpe! Não o quis ofender… Tem fome? Precisa de alguma coisa?
- Não se preocupe, eu fico bem. Vou estar por aqui amanhã, se quiser cá vir falar mais um bocado. Vou agora forrar o estômago com uma sopa e um cigarro, que é a minha droga.
- Deixe-me ajudá-lo! Vou-lhe dar o que tenho…
- Não! Não posso aceitar! Obrigado mas não…
- Só hoje!
Pegou na carteira que trazia ao ombro e deu-me uma nota de cinquenta euros, nunca pensei que alguém tivesse pena de mim ao ponto de me dar tanto dinheiro, para quem vive na rua, cinquenta euros é um segundo prémio do Euromilhões… No dinheiro que ela me deu comprei um bilhete de comboio e parti sem destino… Quando acordei no comboio já estava perto de Lisboa… Decidi fazer esta viagem para rever amigos, se é que eles me reconhecem e me estendam a mão quando me vir… Não sei o que vou encontrar por lá, se os vou encontrar, se me vão falar, se me vão correr dali para fora… Já não ia a Lisboa há muito tempo mas lembrava-me que havia sítios ideais para dormir, ainda tinha uma razoável quantia em moedas e sobrava-me o troco do bilhete, que só me custou dezanove euros… Caí redondo numa cama de um hostel, ali no Bairro Alto, depois de ter tomado um banho de meia hora e ter desfeito a minha barba… Já nem eu próprio me reconhecia… No dia seguinte olhei-me ao espelho e fiquei “contente” por voltar a ver o velho Mário que enchia as salas de espectáculo e que era falad na televisão e jornais/revistas… Era hora de começar uma vida nova, ou melhor, tentar começar... O primeiro amigo que tentei procurar, em vão, foi Filipe, um antigo companheiro de viagens de música, trompetista de profissão… Estava em parte incerta, segundo a companheira dele. Acabei por procurar e encontrar Sofy, a russa com quem toquei em Praga, ia estar no CCB para um concerto. Falei com ela abertamente e achou por bem me ajudar nesta nova fase. Arranjou-me uma credencial para que pudesse estar nos camarins com ela, deu-me de jantar, uma refeição tão boa que eu já não me lembrava o que era comer a sério… Até então desde há umas semanas para cá tenho comido aquelas refeições baratas em cafés e snacks da cidade do Porto, que deixei para trás… Acabou por me conseguir arranjar um quarto no hotel onde estava hospedada e pagou-me a estadia. Ficar-lhe-ei eternamente grato, e ela sabe-o disso. Depois de umas semanas de interrupção voltei a colocar as minhas mãos num piano, um verdadeiro piano no ensaio de Sofy… Por momentos revivi os meus bons tempos de artista, de músico compositor, de intérprete, de TRABALHADOR… Estes dias e momentos em Lisboa vão-me fazer muito bem, acho que vou conseguir carregar as baterias para poder sobreviver ao resto dos meus dias, seja numa casa ou um banco de jardim... Prefiro agora aproveitar esta vida de sonho, que um dia tinha e deixei de ter, foi como estar descalço numa sala e tirarem o tapete onde apoio os pés para ganhar um pouco... de calor!
Lisboa, 11 Dezembro
Francisco Milheiro
23 Outubro 2010
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