sexta-feira, 29 de abril de 2011

Retrato frio X

Os dias foram passando, com ele os graus que se faziam sentir desciam em flecha. A sopa que me mantinha quente por momentos, normalmente às oito horas no "Coração da cidade" começava a não ser suficiente para a minha temperatura corporal se manter minimamente normal... Primeiro sinal de fraqueza, primeiro susto... Passavam alguns minutos da meia-noite, o ensurdecedor silêncio da cidade fazia-me pensar se seria uma data especial, mas não, tinha sido dado (contaram-me) alerta amarelo por causa dos ventos e baixas temperaturas... A minha casa, ali bem debaixo das arcadas do banco na praça quem desce Passos Manuel não se fazia sentir o vento, estava abrigado e por sorte, nessa tarde tinha conseguido guardar jornais (que me isolavam do frio) que encontrei no papelão a céu aberto mas o meu coração deu os primeiros sinais de fraqueza. O Quim chamou por ajuda nos Bombeiros que ficam ali ao lado, vieram dois homens feitos ver o que se passava. Viram-me a temperatura... A partir daí não me lembro de mais nada. Acordei, já o dia era uma realidade, e eu, estava deitado numa enfermaria do Hospital de Santo António. O diagnóstico levava-me a ficar, na melhor das hipóteses, uma semana. Tinha uma arritmia e uma leve pneumonia, o que me levaria a tomar medicamentos para controlar e claro, mudar de vida... Não quis saber de mais nada, o médico explicou-me a situação, só queria dormir confortável e quente... Há muito que eu não sabia o que era uma cama, essa semana passou a um ritmo vagaroso, não contava os minutos, de duas em duas horas olhava o relógio de parede que estava firmemente pendurado na minha frente. Quando começaram a chegar as visitas, uma senhora aproximou-se do marido, que estava ao meu lado em coma profundo, deu-lhe um beijo na testa e nada disse. Continuava concentrado nas forças que tinha de armazenar para continuar a sobreviver à vida na rua... Sem ter se quer trocado um olhar com essa senhora, acercou-se de mim e disse:
- O meu marido está assim há dois meses! Já perdi as esperanças que ele acorde... De maneira que quando venho aqui nada digo... Sento-me, olho para ele e revivo os momentos que passámos...
- Lamento... - disse!
- Posso perguntar porque está aqui?
- Pode! O meu coração decidiu pregar-me um susto e uma ligeira pneumonia causada pelo frio. Podia ter parado de vez, assim deixava de sofrer...
- O que precisa? O que sente falta?
- Eu? De mim! Da minha vida, do que fui um dia... Hoje, não sou nada! Há muito que deixei de ser... Divago pela cidade, conheço-a como ninguém, infelizmente...
- O que lhe aconteceu para ter chegado a esse ponto? Drogas...?
Sorri e disse:
- De facto a droga é um dos pontos de partida mas não... Gosta de música?
- Não percebi...
- Se gosta de música! Alguma vez ouviu falar de músicos clássicos do Porto?
- Sim, quem não se lembra de Mário Barreir...
- Sou eu! O que se sentava ao piano e esgotava as salas...
- Não acredito. Como pode ser o Mário Barreiros?
- Para alguns ainda existo, para outros, nou sou mais do que mais um sem-abrigo, sem destino no Porto...

Fez um silêncio que parecia não ter fim, desviou os olhos para o pátio interior do Hospital e ficou... distante por um tempo!
Enquanto ela, Maria, de seu nome fazia uma viagem eu recebia a "visita" de uma auxiliar que me trazia o almoço: uma sopa quente, um esparguete com carne, uma peça de futra e um pacote de bolachas... Saboreei cada colher, cada garfada daquela que muitos consideram intragável comida de hospital... Maria olhava para mim com um ar ainda distante... Nos seus olhos podia ler "como é possível?". Nessa tarde o seu esposo, companheiro de sempre dera um sinal... Tinha mexido o dedo anelar onde ainda tinha a aliança com o nome de Maria. Foi levado da enfermaria para uns exames... Eu mantive-me imóvel, a olhar o pátio do hospital... e a viajar... sem sair dali!

A noite caía, o meu corpo mantinha-se quente como há muito não sentia... Fechei os olhos e deixei-me dormir, depois de um chá quente e umas bolachas. Deus não me quis levar ontem... Mas deu-me abrigo! Os sonhos chegaram, e com eles a esperança num futuro novo. A rua era uma realidade que por dias deu um intervalo... O tempo foi passando, a vontade de construir um futuro também...

Porto, 10 de Janeiro 2003

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