terça-feira, 17 de maio de 2011

Retrato frio XIV

Os últimos dias foram, no mínimo férteis em acontecimentos. No dia a seguir a ter saído da enfermaria n. 2 do hospital geral de santo antónio o meu lugar, a minha casa foi subitamente ocupada por um estranho ser que nada dizia... Aproximei-me com cuidado, não que o tamanho da criatura metesse medo, mas não imaginava a sua reacção à minha chegada.

- Quem és tu?
- Ruff, ruff!

Abanou a cauda para mim, lambeu-me a mão e cheirou todas as extremidades da minha pele a "céu aberto". As pessoas podem dizer que cada um de nós, os que vivem na rua que roubamos quem está ao nosso lado, mas no meu caso não foi assim: quando cheguei à minha casa, ali na praça d. João I o meu amigo e inseparável companheiro da sopa da noite, o Quim guardou-me os párocos objectos que ainda tinha... Tive tanto medo de perder a caixa que guardava a fotografia da Teresa e do meu filho... Acho que tinha mais medo disso do que morrer porque para mim a vida deixou de fazer sentido à muito, muito tempo... Como a vida muda em poucos minutos. Agarrei-me à caixa com as forças que tinha naquele momento e deixei que o bola de pêlo se encostasse a mim. Sentia o seu roncar e a respiração, senti-me pela primeira vez, neste tempo de rua, protegido. A noite passou, o dia era já uma realidade, ele, o Free dormiu aconchegado ao meu cobertor que trouxera do hospital, dado por umas auxiliares que ficaram a saber da minha triste história. Talvez a partir da noite de ontem ganhei mais um motivo para acreditar que nem tudo é mau na vida. Mariana, a mulher do homem que estava deitado a meu lado no hospital deixou-me no dia em que saí um envelope com dinheiro, dinheiro esse que gastaria apenas em comida, pensava que só comigo, mas agora também com o Free. Tomei uma meia de leite e comi um pão na pastelaria no centro bem perto dos aliados e comprei um saco de ração para cachorros, trazia de oferta duas gamelas. Sabia que ele não iria passar fome. Lembro-me que olhei para ele antes de lhe estender o prato com a ração, e disse:

- Sei que me vais proteger. Eu farei o mesmo por ti.

Latejou, e logo em seguida devorou o que tinha e bebeu um pouco de água. Peguei-o ao colo e num gesto decidido pus-me de pé, levei-o a conhecer a cidade e mostrar-lhe os perigos que se escondem nela. Abanava a cauda sempre que via um similar, ladrava para as pombas que pousavam na avenida. O tempo foi passando, quando demos por ela era hora de regressar. à sua espera estava mais uma pratada de comida para cão, para mim uma sopa e um pão no "coração da cidade". A noite, tal como a anterior, ficámos aconchegados um ao outro. O Porto ganhou outro encanto com esta surpresa totalmente inesperada.

Antes de fechar os olhos olhei o céu, dos sinos da Sé soaram as doze badaladas... E jurei a Deus, a quem sempre respeitei (apesar da partida) que iria fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para fazer do Free um cão feliz... Fechei os olhos e deixei-me ficar a ouvir o som da cidade, que aos poucos adormecia.

Porto, 23 Janeiro 2003

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