quinta-feira, 7 de julho de 2011

Retrato Frio XV "Luz da lua"


Acho que a luz do meu "quarto" não me convida muito à leitura muito menos à escrita. Mas li, algures há muito tempo que quando escrevemos criamos algo que é só nosso, algo que existia em nós. É estranho ter criado textos, músicas e poemas sobre a cidade que tanto amo em lugares fechados, quentinhos no Inverno e frescos no Verão... e hoje esteja a tentar escrever nos espaços em branco do jornal do ano passado que encontrei na rua, aqui no meu "quarto" com vista para o Rivoli, nas arcadas do Banco.

É estranho pensar que já tive, ali por trás do balcão alguém engravatado dizer:

- Que bom sr. Mário vê-lo por cá! Em que posso ser útil?

Hoje não sou senhor, nem sequer Mário... Nem eu próprio me reconheço. Hoje voltei ao "Coração da cidade" depois da minha estadia em Medicina I do Hospital de St.º António. Tive pena de deixar o meu novo companheiro na rua... mas fiquei a pensar: ele nunca conheceu outra casa. Nasceu perto, imagino eu, de um balde do lixo, passado alguns dias encostou-se aos meus párocos adereços e por lá ficou. Pedi a chave ao segurança da casa de banho, nela tomei um banho quente e desfiz a enorme barba. O rosto já não era para mim tão nítido, os anos em que abusei da maquilhagem podem ter contribuído... mas a vida que levava (infelizmente) levou com ela a minha imagem. As senhoras que tratavam da comida ficaram felizes por me ver. Uma delas dizia:

- Tive medo de não o voltar a ver. Gosto tanto de si!

Aquelas palavras por mais simples que sejam encheram-me de calor a alma. Vim à porta para saber do meu pequeno amigo e dar-lhe um pouco de água e ração. As senhoras, que têm um coração enorme, prometeram arranjar-me um saco de ração para o Bemol, desde que eu prometesse não o abandonar.

A noite adormeceu fria, húmida. Olhei o céu e apenas um rasgo da lua conseguia vislumbrar. Encosto-me para trás, a caneta sinto-a pesada e a descair na direcção do jornal. Olho o Bemol, dou-lhe um beijo na testa e desejo boa noite. Olhou para mim e com aqueles olhos castanhos vinham uma mensagem:

- Ninguém nos vai separar!

O cobertor que me ofereceram fazem-me acreditar que vou sobreviver de uma forma menos dura às noites no Porto, senti que estas linhas me deram um novo alento. Finto o sono e escrevo as últimas palavras:

- Hoje é o primeiro dia do resto da nossa vida! Vou sobreviver e voltar a ser quem um dia fui... aquele que escrevia debaixo de um tecto para a cidade que amo.


Mário,
Porto Janeiro 2003.

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