segunda-feira, 25 de julho de 2011

O Menino, o piano e a Vida

As mãos tremem-me como se estivesse em cima de uma corda para passar até ao outro lado da maior cascata do Mundo. Não que o palco me assuste, aliás, se não fosse ele não sei o que seria de mim. As horas passam devagar até à minha entrada, o barulho das palmas acalmam-me e preenchem a minha pequena e pobre alma. Não sei como vim aqui parar, até há bem pouco tempo era mais um menino pelas zonas jotas da minha cidade, aprendi a viver com o perigo, com a droga dos meus irmãos e com a vida dura dos meus pais. Mas cresci, tanto por dentro como por fora. O meu metro e oitenta e esguio corpo fazem-me deslizar pelo palco na direcção daquele que durante muito tempo foi o meu amigo, meu confidente.

Há momentos em que penso, quando percorro os quilómetros entre a cidade da minha vida e os vários palcos e não consigo imaginar o que seria de mim se não tivesse conhecido a minha paixão, a Música. Há tempos vi o filme de um pianista no tempo de guerra, o mundo estava concentrado nas notícias de mortes e feridos e ele, apenas se interessava pelos sons que ecoavam na pequena sala do seu apartamento. Os sons, de uma certa forma anestesiavam-no do mundo real, e enquanto divagava pelas teclas ainda brancas do seu Straus não via mais nada a não ser o seu mundo perfeito, o tal que não existia do lado de fora da janela. Sinto sempre a entrada em palco como se fosse a primeira, recebo com carinho e alguma admiração as palmas que ecoam na sala escura, a música é a minha vida... a partir de hoje. Entendo agora o esforço que os meus pais fizeram para me darem o primeiro instrumento, um teclado a pilhas e que ainda hoje guardo no meu quarto. Os sons... os sonhos que tinha sentado na minha velha cadeira de palha na pequena janela do meu quarto olhando Lisboa e os seus prédios altos, os seus centros comerciais e as suas lojas. Lojas essas, onde nunca teria dinheiro para comprar o que quer que fosse. Mas a minha vida foi mudando, o meu mundo foi-se criando à custa das teclas que diariamente tocava. Hoje vivo para tocar, e toco para viver. As horas que passo diariamente são ainda tantas que me foi impossível encontrar o tão esperado amor, desde há uns anos que o meu amor é o piano... e sinto-me bem com isso.

Os minutos estão a aproximar-me cada vez mais dos sons do meu amor. Sinto um ligeiro tremor de pernas mas isto é mesmo só antes de entrar. Esta é a minha vida, e vou lutar para no fim de tudo dizer:

- Obrigado Pais, pelo que me deixaram fazer da vida!


Francisco Milheiro
25 de Julho 2011

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