segunda-feira, 11 de julho de 2011

"Por ti resistirei"

Olá meu Amor,

Se estás a ler esta carta é porque te encontras bem. Não sei se o sítio onde estás a ler é o lugar para onde enviei, acho que escolheste (se bem te conheço) uma rocha bem junto ao mar e sentir a brisa e quem sabe recordares-te de mim e do nosso secreto lugar. Sabes? É tão estranho estar meio mundo distante de ti, saber que a banda sonora que ouves não é a mesma que a minha, são bombas e tiros. O meu coração está suficientemente preenchido por ti para sobreviver a esta tua ausência mas tenho medo... Há dias acordei com alguém a tocar à porta, o meu coração sobressaía do meu peito, tive tanto medo que fosse alguém teu amigo a trazer-me uma má notícia... mas não, era a mulher de um ex-companheiro teu que partiu, do sítio onde estás.

Ainda esta semana estive no nosso esconderijo, liguei a nossa música e encostei-me a chorar a um canto, o tal em que me beijavas daquela forma louca e dizias:

- O nosso amor é mais forte que a guerra! Por ti resistirei!

Não podia deixar de acreditar em ti mas tinha tanto medo que a minha concentração para trabalhar não era, nem por sombras a mesma de há uns meses. Temo por mim, por não te ter, temo por ti por não me voltares a ver. Sei que o nosso amor é verdadeiro e resistirá no espaço e no tempo mas não confio na guerra onde te encontras. Tenho lido tantas histórias no jornal e na televisão, de soldados que partem e já não regressam. Será esse o teu caso? Serás tu apenas mais um no meio de tantos que morrem para salvar a honra de uma pátria? Mas que pátria é esse? Que mundo é esse que precisa de uma guerra. Tenho tanto medo de voltar a estar sozinha, não me imagino sequer a apaixonar por alguém que não sejas tu. Promete que quando voltares trazes-me um sorriso no olhar e um beijo guardado durante este tempo. Prometes-me pedir novamente em namoro? E casamento, será esse o teu sonho? Será esse mais um ponto em comum? Amo-te tanto, e vou sobreviver ao tempo. Imagino-me (e gosto) de cabelos brancos contigo a meu lado na nossa praia a falar sobre os tempos de guerra e de como foste para mim, um Herói.

A caneta que estou a usar para te escrever sente-se gasta, sinto-me cansada, com as lágrimas a cairem sem controlo pelo rosto porque apenas penso, em Ti. Voltas para mim? Resiste apenas mais um pouco, lembra-te do que fizemos, do que fomos e do que ainda nos falta viver! Por ti resistirei, espero o mesmo de ti! Recebe nesta minha fotografia um beijo do tamanho do mundo. Até breve!


Resposta

Olá meu Amor,
O tempo aqui passa a voar, literalmente! Não tenho tempo de fazer amigos nem de confraternizar muito. Ainda ontem bebi-a uma cerveja com uns companheiros, hoje morreram os dois vítimas de um ataque surpresa. Gostei de ler algo teu, aconchegaste-me o coração, deste-me a força que preciso para sobreviver com um sorriso, apesar do cenário devastador que vejo ao acordar. Tenho pensado muito em Ti e em tudo o que fomos e o que quero ser quando regressar aos teus braços, já não falta muito meu Amor! Já não falta tudo! Não faz muito tempo que ouvi uma conversa dos meus generais que a guerra está prestes a acabar, se tudo correr bem o Natal passarei a teu lado e no ano novo brindaremos a uma nova vida, essa sim, recheada de Bons Momentos e isenta de guerras e conflitos. A praia onde me refugiei para ler as palavras que me escreveste, não a escolhi à toa, é relativamente parecida com a nossa, aquela tal em que nos perdemos vezes sem conta e entregámo-nos ao amor naquelas dunas. Vivíamos cada verão como se fosse o último, cada segundo era o momento perfeito para um beijo, cada minuto era aproveitado para dizermos um Amo-te, para darmos um mergulho naquela água fria mas que nos aquecia, tal era o amor. Aproveitávamos o sol até não o vislumbrar-mos, as estrelas eram já uma realidade quando te deixava em casa no meu carro descapotável e regressava ao quartel. O nosso amor resistiu a várias intenpéries, esta é apenas mais uma. O teu amor alimenta-me, saber que esperas por mim faz com que o tempo passe de forma célere. Acho que este afastamento não foi por acaso, não foi pelos países estarem em guerra e eu fazer parte de uma elite que o nosso amor vai acabar.

Todos os dias ao deitar olho e beijo a foto que me deixaste guardada no bolso das calças quando me abraçaste no aeroporto e me disseste ao ouvido:

- Amo-te! Resiste por mim!

Foi dos abraços mais longos e para mim, dos mais perfeitos que dei e recebi. Se fosse um momento de filme imaginá-lo-ia como a cena final de um filme de guerra quando o guerreiro volta para a sua amada. Talvez o tempo se encarregue de perceber que a guerra não leva a lado nenhum e eu possa voltar para o teu lado, coisa que aliás, não devia ter acontecido: um afastamento. Não quero, meu Amor, que duvides do meu amor por ti e que SIM, resistirei e te pedirei de novo em namoro. O nosso amor não merece morrer, e sim, renascer! Nos dias de fascina olho o céu e nele imagino os teus olhos a zelarem por mim, a apontarem-me o caminho longe do perigo. As horas passam devagar, sinto-me cansado mas o teu Amor carrega-me as baterias.

Tenho medo de contar o tempo em que não foi possível estarmos juntos, mas quando regressar para os teus braços não te vou largar. Vê isto como umas férias minhas, imagina que não estou onde estou e que daqui a uns dias me irás buscar a um aeroporto normal cheio de gente com vontade e sorrisos para férias. Sinto também as lágrimas caírem-me pelo rosto ao te escrever estas palavras, não tenho problemas em dizer que choro cada vez que recebo uma carta tua. Já perdi a conta às noites que me perco nas tuas palavras, no teu conforto traduzido em letras.

O nosso Amor vai resistir, e eu tornar-me-ei forte a cada minuto que passar porque sei que vais estar comigo no teu pensamento. E esse, não duvides, é o meu Alimento! Está na hora de enxaguar as lágrimas e escrever-te as útlimas palavras:

- Guarda esta carta contigo meu Amor, nela vai mais um pouco do meu coração!


P.S) Uma abordagem muito pessoal do "Por ti resistirei" de Júlio Magalhães. Parabéns Júlio
Francisco Milheiro
10 de Julho 2011

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